Zungueira é aquela que vive da circulação. A palavra Zungueira tem origem no verbo Kazungar da lingua kimbundu, uma das principais línguas nacionais angolanas, em que a ideia de movimento constante, de ir e vir, é central – usado em Angola para designar o acto de circular, andar de um lado para o outro a vender mercadorias.
Por Vanda Narciso
duaslinhas.pt
A Zungueira conhece Luanda de cor. Conhece-a de tanto a percorrer. A cidade passa-lhe pelos pés. Vê o mundo ao nível do chão: sapatos gastos, pressas alheias, moedas contadas duas vezes.
Tudo começa na bacia que equilibra na cabeça – redonda, funda, às vezes rachada, sempre cheia. É ali que carrega o dia. O peso não é só do que vende, é do que observa.
Na bacia vão bananas maduras, ananases, ginguba torrada ainda quente, peixe seco embrulhado em jornal velho, tomate contado à unidade, água fresca suada dentro do plástico. Às vezes sabonete, bolacha, roupa de segunda mão. O que couber. O que der para virar dinheiro antes que o sol aperte.
A Zungueira vende nos cruzamentos onde o trânsito pára, nas paragens dos candongueiros, à porta dos escritórios, nos passeios partidos. Vende andando e chamando pelo nome das coisas como quem chama pessoas conhecidas. A bacia é vitrina móvel, mercado ambulante. O corpo aprende o ritmo da rua: quando acelerar, quando parar, quando desviar da polícia, quando insistir só mais um pouco.
Etimologicamente a Zungueira circula, está em constante movimento, mas há também as mais sedentárias*. São aquelas que vendem o mata-bicho, cedo, quando Luanda ainda espreguiça. Na bacia trazem pão cortado à mão, ovos cozidos ainda mornos, ou estrelados em cima de arroz, chá ou laranjada em garrafas térmicas, café fraco, mas honesto, bolinhos simples embrulhados em papel. Ficam perto das paragens, das obras, dos portões onde o dia começa pesado. Alimentam quem sai sem tempo, quem trabalha de estômago vazio, quem só precisa de qualquer coisa para aguentar até mais tarde.
Elas sabem a hora exata da fome. Antes das sete, vende-se rápido e fala-se pouco. Depois, a bacia pesa menos e o corpo pesa mais. O mata-bicho não é só comida: é pausa curta, é cumprimento, é “bom dia” dito com pão quente, muitas vezes fiado, anotado na memória.
A Zungueira chega antes das notícias oficiais. Sabe quando o preço subiu sem aviso, quando o bairro anda tenso só pelo jeito como as pessoas seguram a bolsa, quando há festa porque a música começa mais cedo. Ouve tudo: o rádio do candongueiro, a discussão do casal, o suspiro de quem não conseguiu vender nada. Aprende palavras que não usa e histórias que não são suas, mas que lhe passam pelas mãos como o dinheiro trocado com que lhe pagam.

