POVO DÓCIL NÃO PASSA DE ESCRAVO

Na verdade, através da nossa passividade e docilidade, deixámos de ser o Povo e o MPLA e o seu actual presidente não nominalmente eleito, João Lourenço, compreenderam bem isso, tendo ele próprio estado no centro do sistema durante anos.

Por Osvaldo Franque Buela (*)

Tanto é assim que, a nível local e mesmo a nível da diáspora, continuaremos a sofrer passivamente os excessos do sistema através da remoção forçada e exílio, das detenções arbitrárias, da fome, da indignidade e da escravização, numa letargia total em olhar e querer capacitar as forças da oposição como o único recurso para a mudança.

A Oposição é há anos uma força política preparada para a alternância de poder, mas já não é suficiente por si só para derrotar o regime em vigor de forma democrática se o Povo não a acompanhar, se o Povo não ultrapassar os limites do confinamento dentro dos partidos políticos nesta busca de mudança que nos diz respeito a todos.

O sistema acomodou-se muito bem a este modelo autocrático e autoritário que priva a Oposição de toda a sua existência através da exclusão e marginalização dos seus líderes, sabendo bem que a UNITA e os seus aliados políticos não serão capazes de paralisar o país através de uma manifestação pacífica, pelo medo de assumir as consequências da repressão violenta que se seguirá.

Sem as nossas reivindicações como Povo, sem a nossa determinação de nos levantarmos contra as leis injustas e lutarmos definitivamente contra todo o sistema e decretarmos a sua queda, as forças da oposição nunca conseguirão vencer a batalha da mudança e da alternância política através das urnas, por um lado. E por outro lado, o Povo como um todo, que é a única e verdadeira força de mudança, também não terá sucesso, enquanto não se responsabilizar por si mesmo, enquanto não se erguer como um só, superando limites partidários para derrubar a tirania do MPLA.

Além disso, todos os domingos ainda temos pobres gentes que, certamente por falta de perspectivas, ainda vão todos os domingos aos cultos que são liderados por pseudo-pastores que dizem que o MPLA está muito bem preparado para governar Angola por mais de 50 anos, mas pelo que eu sei, um Povo vivo deveria refutar essas observações com força e vigor e defender verdadeiros valores em vez dos sermões da ditadura.

Tudo isto foi possível e continua porque continuamos a dividir-nos face às realidades que nos deveriam unir, mas o Povo do MPLA, da UNITA e de… Cabinda não vivem todos os mesmos problemas de miséria e pobreza aguda? A menos que eu esteja errado.

Devemos afastar-nos da categorização política em que se enquadra o sistema que o MPLA concentrou todo o seu tempo a conceber e a implementar pela força das armas, à custa de purgas, assassinatos, brutalidade, processos judiciais, negação de justiça, etc. recuperar a nossa soberania como Povo livre e independente de todas as formas de opressão

Um sistema que divide e empobrece, que vê o Povo apenas como seus próprios militantes, relegando o resto para segundo plano enquanto atropela o interesse superior do que deveria ser de uma nação, este sistema deveria estar com os dias contados se cuidarmos de nós mesmos agora, e não amanhã.

Cantavam e cantam todos os dias que o MPLA É O POVO E O POVO É O MPLA, mas na realidade colocaram o Povo em lado nenhum, longe dos órgãos de decisão… longe da tigela que nos pertence a todos de pleno direito.

Dentro do Parlamento angolano, por exemplo, há todo o tipo de canalhas, todos de fato e gravata, carros de luxo e guarda-costas, excepto os verdadeiros representantes dos segmentos do Povo. Com isto quero dizer que neste Parlamento não há representantes de zungueiras, taxistas, camponeses, autoridades tradicionais, kuduristas, desportistas, homens de cultura, prostitutas, candongueiros etc. enquanto estas categorias de profissões são as pessoas que constituem a camada mais importante da realidade social do Povo.

Alguns dir-me-ão que a prostituição não é uma profissão, mas todos sabemos que, devido à falta de oportunidades de formação, a prostituição, especialmente a de menores, constitui uma fonte de rendimento para muitas famílias, e ninguém diz uma palavra sobre os perigos crescentes desta situação, e o pior é que os mais abastados financeiramente a utilizam para satisfazer seus vícios.

No Quénia e na Somália, por exemplo, as pessoas não hesitam em procurar os decisores incompetentes do regime na sede do Parlamento e, por vezes, conseguem fazer recuar o governo só porque uma pessoa incompetente quis aumentar o preço do pão. Mas em Angola, todos nós aplaudimos o “campeão da paz” todos os dias que os seus amigos do sistema decidem aumentar o preço de um saco de arroz, de um litro de gasolina, de uma caixa de frango, ou mesmo a desvalorização do Kwanza.

Este Parlamento que deveria reunir e reconciliar todas as filhas e filhos do país depois de uma longa guerra fratricida, para construir um país baseado num verdadeiro projecto económico e social, foi sequestrado por um bando de soldados que continuam a roubar os sonhos do Povo angolano.

Este Parlamento que deveria reunir e reconciliar todos para construir um país baseado num verdadeiro projecto económico e social, foi sequestrado por um gang de militares que continuam a roubar os sonhos do Povo angolano.

Basta olhar para este espectáculo que considero infame, o que aconteceu em Cabinda, só porque o incompetente Presidente acordou uma manhã e foi picado por não sei que mosca, decidiu despedir a governadora sem motivo aparente, substituindo-a por outra candidata com o único objectivo de distrair o Povo.

E como era de se esperar, há alguns entre nós que começaram a dançar com ela desde o dia da sua nomeação sem compreender a seriedade e a responsabilidade da missão que lhe foi confiada, alguns fizeram discursos regionalistas e tribalistas como se estivéssemos numa corrida de posicionamento étnica ou regional, sem programa político para o território.

Toda esta charada tem apenas o objectivo de distrair e dividir o Povo, mantendo-o longe das grandes das preocupações do Povo.

A governadora que saiu não relatou os seus resultados e a que a substituiu não teve tempo de fazer um levantamento e nem irá fazer um balanço da situação porque não há questões importantes, nenhum projecto e, portanto, não há desafios a enfrentar.

Como sempre, vocês notarão como eu que a sua primeira missão será a de tapar os buracos nas estradas deixadas pela sua colega nas artérias da província e limpar as picadas e outras para colocar as mãos na massa.

A Justiça, apaziguamento, igualdade de oportunidades de emprego e solidariedade convivial não farão parte do seu projecto, foi assim cada vez que um governador do MPLA foi nomeado em Cabinda.

Alguns cortesãos se encontrarão em esquemas mafiosos, mas muitos continuarão a puxar o diabo pelo rabo e ainda será o Povo.

Tudo isto foi coroado como sempre pelos Bakamas e outras autoridades tradicionais que conseguiram vender a sua sagrada honra tradicional por alguns kwanzas e garrafas de aguardente, ao mesmo tempo que, claro, exibiam os passos de dança do Povo em frente de sua excelência sem excelência, diante dos digníssimos sem dignidade, diante dos honoráveis sem honras, diante dos meritíssimos sem mérito, e mais uma vez com a participação de um Povo faminto, até mesmo vendido e às vezes obrigado a marcar sua presença pela força e intimidação.

Então Povo, quem somos nós e quando finalmente nos tornaremos de novo um Povo soberano como os outros?
Que Deus livre e abençoe Angola e Cabinda.

(*) Refugiado político, França

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