RTP ÁFRICA, 25 ANOS SEM FAZER ONDAS

“A criação da RTP África significou muito para Cabo Verde e para os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa”, avaliou José Maria Neves, Presidente de Cabo Verde, no encerramento de uma conferência para comemorar os 25 anos da RTP África, realizada na cidade da Praia, e que hoje se assinalam.

Por Norberto Hossi

No dia 15 de Janeiro de 2012, o ministro português que, oficialmente, era Adjunto e dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas, anunciou que a RTP África iria lançar a nova imagem em Luanda, durante a visita que estava então a fazer a Angola.

A visita de Miguel Relvas a Angola resultou de um “convite da ministra da Comunicação Social que tem como objectivo aprofundar as relações entre os dois países”.

Na agenda estava a “celebração de acordos entre a RTP e a TPA, a Lusa, onde o Estado tem a maioria, com um grupo de comunicação social em Angola, protocolos na área da formação e do estabelecimento e aprofundamento de relações”.

Neste enquadramento, a RTP, particularmente a RTP África, “vai lançar a sua nova imagem em Luanda”, e fará “um especial que será transmitido na RTP África, RTP Internacional e RTP1 sobre o reencontro entre Portugal e Angola na área empresarial, na área cultural e na área desportiva”.

Nova imagem da RTP África para uma nova imagem de Angola. Tudo ficou na santa paz dos donos dos dois reinos. E dessas duas novas imagens não farão (como continuam a não fazer) parte, obviamente, os seguintes factos:

– 68% de angolanos são afectados pela pobreza, a taxa de mortalidade infantil que é a terceira mais alta do mundo, com 250 mortes por cada 1.000 crianças;

– Apenas 38% da população tem acesso a água potável e somente 44% dispõe de saneamento básico;

– Apenas um quarto da população angolana tem acesso a serviços de saúde, que, na maior parte dos casos, são de fraca qualidade;

– 12% dos hospitais, 11% dos centros de saúde e 85% dos postos de saúde existentes no país apresentam problemas ao nível das instalações, da falta de pessoal e de carência de medicamentos;

– A taxa de analfabetos é bastante elevada, especialmente entre as mulheres, uma situação é agravada pelo grande número de crianças e jovens que todos os anos ficam fora do sistema de ensino;

– 45% das crianças angolanas sofrerem de má nutrição crónica, sendo que uma em cada quatro (25%) morre antes de atingir os cinco anos;

– A dependência sócio-económica a favores, privilégios e bens é o método utilizado pelo MPLA para amordaçar os angolanos;

– 80% do Produto Interno Bruto angolano é produzido por estrangeiros; que mais de 90% da riqueza nacional privada é subtraída do erário público e está concentrada em menos de 0,5% de uma população; que 70% das exportações angolanas de petróleo tem origem na sua colónia de Cabinda;

– O acesso à boa educação, aos condomínios, ao capital accionista dos bancos e das seguradoras, aos grandes negócios, às licitações dos blocos petrolíferos, está limitado a um grupo muito restrito de famílias ligadas ao regime no poder.

MEMÓRIAS DA MEMÓRIA

No 24 de Junho de 2011, o Notícias Lusófonas publicou uma carta de um leitor sobre os excessos na delegação da RTP África em Luanda, então comandada por Paulo Catarro, e que – escrevia o leitor – punha em causa dignidade da RTP. Eis o que se dizia sobre o ex-delegado da RTP, depois “ponta-de-lança” da Sonangol e actualmente craque da CMTV.

“Queria dar-vos conta do que se passa na Delegação da RTP-África e que põe em causa a dignidade dos jornalistas angolanos que lá trabalham. O jornalista português que dirige a redacção, Paulo Catarro, usa métodos prepotentes para com os seus colegas angolanos.

As relações pessoais são chocantes, com ameaças constantes de despedimento, perante os colegas angolanos quando estes ousam discordar da qualidade e da linha editorial que lhes é imposta e do tipo de trabalhos que lhes são marcados, e que muitas vezes não tem qualquer interesse jornalístico e que só servem os interesses pessoais e dos amigos do sr. Paulo Catarro.

A semana passada foi feita uma reunião com todos os jornalistas e operadores de imagem que são (6), cujo ponto de análise era a situação da Delegação e métodos de trabalho em que todos os presentes eram convidados a dar a sua opinião.

Por parte da Célia Silva e Inácio Cardoso, 2 jornalistas angolanos que lá trabalham, foram levantadas algumas questões que tinham a ver com o pouco interesse de alguns serviços agendados e o atraso da emissão dessas “peças”, por vezes transmitidas uma ou mais semanas depois de terem acontecido, e que por isso, perdem actualidade. Foram postas em causa também os serviços marcados e os métodos usados pelo sr. Paulo Catarro, ficando ele, com os trabalhos de maior relevância, por vezes duvidosos e para os colegas angolanos, coisas sem importância jornalística, como exposições, seminários, etc..

A reacção do sr. Paulo Catarro foi enérgica, dizendo que ele é que mandava e quem não estivesse de acordo devia era sair da Delegação.

Ao Inácio Cardoso chegou a dizer que, a partir daquele dia, tinha perdido a confiança nele e por isso ia deixar de trabalhar na Delegação. Isto só porque ele deu uma opinião pensando que aquela reunião era para fazer uma avaliação e uma autocritica de forma a ouvir a opinião de todos para melhorar a qualidade do trabalho.

O mesmo foi dito a Célia Silva, porque também questionou a qualidade e o fraco interesse jornalístico dos assuntos agendados. Disse ela que Angola é rica em acontecimentos e que o que a RTP- África transmite não dá a realidade do país, que está em franco desenvolvimento e com actividades interessantes, para além dos congressos e seminários. Disse mesmo que o importante era começar a fazer reportagem, fora de Luanda, porque Angola é muito mais do que se passa na capital.

Acontece que, desde este dia, sem ter dado conhecimento a ninguém, nem justificar perante o próprio, deixou de marcar serviços ao Inácio Cardoso, e por, isso, como ele é pago por trabalho que faz ao dia, deixou de trabalhar. Ou seja foi despedido, sem lhe dar conhecimento. O mesmo já não pode fazer à Célia, porque esta jornalista tem contrato de trabalho.

Também o operador de imagem, Augusto Luvito e a editora de imagem, Rosy, foram admoestados porque fizeram as suas críticas à forma como a delegação funciona. Disse ao Augusto Luvito que o trabalho dele, como operador de câmara, é muito mau e que não presta e por isso não tem moral para criticar o que ele, Paulo Catarro, faz. O sr. Luvito é operador de câmara há 30 anos e trabalha na delegação da RTP África há 12 anos. E só agora é que descobriram que o trabalho é mau? Precisou de vir para Angola o sr. Paulo Catarro para descobrir que o Luvito é incompetente?

O Inácio Cardoso trabalha também na RTP África há 12 anos como colaborador e só agora, porque deu uma opinião que não agradou ao sr. Paulo Catarro foi despedido? Isto é prepotência. Angola já não é colónia portuguesa e as pessoas têm de ser tratadas com correcção e educação. E quando não são competentes no trabalho, o despedimento deve ser justificado e notificar o trabalhador das razões porque é substituído e ressarcido do que tem direito, mesmo tratando-se de um colaborador como é o caso do Inácio Cardoso.

Quando algum assunto jornalístico envolve críticas ao Governo, ou partidos políticos da oposição, ele manda só o operador de imagem e, depois ele faz o texto recorrendo-se dos textos da Angop.

O que vos digo é verdade e foi-me transmitido por um dos visados que considera chocante a forma como são tratados os colegas que trabalham na delegação da RTP África. O ambiente de trabalho é de medo de perderem o emprego.

A jornalista Célia, que é uma boa profissional, está posta na prateleira. Só lhe é marcado serviços insignificantes e perseguida por tudo e por nada. Se chega tarde, marca-lhe falta e desconta no vencimento.

O sr. Paulo Catarro usa a prepotência para ameaçar os colegas que, segundo ele, não devem ter opinião e fazer as notícias como ele entende e manda de acordo com os seus interesses pessoais, junto dos seus amigos portugueses e entidades angolanas que lhe pagam viagens para fazer reportagens no estrangeiro, como aconteceu agora com uma empresa de vinhos portugueses. Pagaram tudo, viagem, alojamento em Portugal. De certeza que, com tudo pago, o sr. Paulo Catarro, vai dizer que a adega de vinhos que visitou é uma maravilha. Isto é que é jornalista isento e independente aos poderes económicos.

É mais um dos estrangeiros que está aqui só para ganhar dinheiro. Não transmite conhecimentos aos quadros angolanos e só sabe criticar e rebaixar o trabalho que cada um faz.”

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