Cerca de duas centenas de pessoas que teimam em pensar com a cabeça, contrariando o ADN de quem governa Angola há 45 anos, o MPLA, manifestaram-se hoje em Luanda pela melhoria das condições de vida e combate à corrupção, num protesto que decorreu de forma pacífica e ficou marcado também pela memória do estudante (não tenhamos medo das palavras) assassinado pela Polícia na semana passada.

Ao contrário das duas anteriores tentativas de manifestação, que foram violentamente reprimidas pela polícia do MPLA, hoje os manifestantes, na sua maioria jovens, conseguiram concentrar-se no centro da cidade, no Largo 1.º de Maio, e apresentar as suas reivindicações.

Os jovens circularam pela rotunda do largo, fazendo ouvir palavras de ordem, criticando o Presidente da República, o Presidente do MPLA e o Titular do Poder Executivo, João Lourenço, a polícia e exibindo cartazes.

O mote para a manifestação, convocada por membros da sociedade civil, era o combate à corrupção e à impunidade, mas os jovens quiseram também estar presentes para homenagear o colega morto na manifestação do dia 11 de Novembro, Inocêncio de Matos, em circunstâncias ainda por esclarecer por quem o matou (a Polícia).

Moisés Comandala, técnico de telecomunicações de 28 anos, disse à Lusa que aderiu ao protesto por “amor ao próximo”, mostrando-se preocupado com o agravamento das condições de vida, mas também pela “perda irreparável do herói Inocêncio de Matos”.

No seu cartaz lia-se: “Senhor presidente: quantas pessoas terão de morrer de fome para resolver as questões?”. Boa pergunta. Com 20 milhões de pobres, é natural que sejam cada vez mais os angolanos de segunda a morrer de barriga vazia. Também a estratégia do MPLA de ensinar os angolanos viver sem comer não tem dado resultados. Provavelmente por culpa da UNITA, bem como dos activistas, esses angolanos teimam em morrer quando estão quase a saber viver sem comer.

“Vemos as condições a agravar-se de dia para dia e agora a desculpa é sempre a Covid. Temos noção de que a pandemia está a afectar o mundo, mas não nos podemos calar quando vemos famílias a recorrer ao contentor do lixo para buscar a sua refeição”, disse o jovem, apelando à resolução de problemas como o desemprego.

Feliciano Lourenço, professor de 27 anos, disse, por sua vez, que se juntou à iniciativa para defender os seus direitos e os dos demais cidadãos angolanos, contestando o “sistema político que tem poderes sobre tudo”.

“Isso não é democracia. Não temos liberdade de imprensa, não temos liberdade de expressão”, criticou, lamentando também “a morte do irmão Inocêncio”.

“Estamos a pedir ao governo que nos devolva o corpo do nosso irmão, que morreu ajoelhado com as mãos no ar e em momento nenhum atacou a polícia”, afirmou, apelando ao bom senso da polícia e alertando para a necessidade do cumprimento dos direitos fundamentais do cidadão, entre os quais o de manifestação, “desde que seja pacífica”.

“A polícia ainda não começou a agredir ninguém porque há câmaras”, comentou.

Muata Sebastião, um dos organizadores do protesto, sublinhou a colaboração da polícia face ao compromisso de que a manifestação seria realizada de forma pacífica. “É esse tipo de polícia que nós queremos, que colabore, porque os resultados disto não são só para os manifestantes, são para toda a sociedade”, disse.

“Nós estamos a reivindicar direitos de todos os angolanos e os policiais também são angolanos”, sublinhou o activista. A verdade, acrescente-se, é que uns são mais angolanos do que outros. Uns têm, pelo menos, três refeições por dia e outros (a grande maioria) nem sabem o que é isso a se chama “refeições”.

Questionado sobre se a adesão ficou aquém do esperado, adiantou que a falta de divulgação e o horário da concentração — a partir das 12:00, sob um sol intenso — terá contribuído para dissuadir os manifestantes.

“Esperamos que a mensagem que está a ser passada chegue a quem tem o poder de tomar decisões”, declarou, apontando entre as principais reivindicações “tornar o combate à corrupção mais sério e menos selectivo e permitir o desbloqueio da imprensa nacional”.

“Se isto continuar assim, vamos continuar a sair à rua até que a resposta chegue”, prometeu.

Helena Pereira, outra das promotoras da iniciativa, elogiou a atitude “cordata” e colaborante da polícia que falou com os organizadores previamente, tendo recebido garantias de que se tratava de “uma marcha pacífica”.

O Largo 1.º de Maio era o objectivo da anterior manifestação, de 11 de Novembro, Dia da Independência de Angola, mas não chegou a ser concretizada, pois a polícia dispersou os grupos de jovens que queriam dirigir-se para o local com recurso a gás lacrimogéneo, bastonadas e tiros, garantindo sempre ter usado meios não letais.

Na sequência da manifestação, morreu um estudante de 26 anos, Inocêncio de Matos, mas existem diferentes versões sobre a morte. A versão oficial aponta para que tenha sido vítima de um “traumatismo crânio encefálico” por ofensa corporal com objecto contundente (nova designação oficial para “bala”?), o que a família rejeita com base em testemunhas oculares, que dizem ter visto o jovem a ser atingido por uma bala e culpam a polícia.

Há, ainda, uma outra versão. O jovem tropeçou na sua própria sombra, caiu e bateu com a cabeça na sombra (objecto contundente) de um Polícia que, aliás, prontamente o socorreu e que ali estava a ajudar as velhinhas a atravessar a rua.

Folha 8 com Lusa