O “governo-sombra” da UNITA condena o que considera ser (e que é de facto) um uso excessivo e desproporcionado de força das autoridades angolanas (Polícias e Forças Armadas) contra os cidadãos, que fez até agora cinco vítimas, contra as duas associadas à pandemia da Covid-19. Enquanto o Povo sé está armado com a força da razão, o Governo de João Lourenço dispõe de uma letal razão da força.

Num comunicado hoje divulgado, o “governo-sombra” do principal partido da oposição que o MPLA ainda permite que exista em Angola tece diversas críticas à actuação do Governo liderado por João Lourenço desde o início do Estado de Emergência decretado a 27 de Março.

A UNITA chama a atenção dos angolanos (da comunidade internacional não vale a pena) para não se distraírem “pois, o MPLA [partido do poder há 45 anos] e o seu executivo pretendem desviar o foco dos cidadãos, tentando levá-los a concentrar todas as suas atenções na Covid-19 e a esquecerem-se da fome, da saúde precária, da péssima qualidade de educação no país, das faltas gritantes e inadmissíveis de água e luz, das degradadas vias de comunicação que dificultam a circulação de pessoas e bens”.

Volvidos dois meses desde o início do Estado de Emergência, a UNITA constatou que muitas famílias enfrentam sérias dificuldades, aumentando exponencialmente as que já são antigas e endémicas, incluindo a fome (o governo chama-lhe má-nutrição), o que obriga muitos angolanos a recorrerem à caça aos ratos e aos contentores de lixo, na busca de alimentos, pior (muito pior) do que no tempo da escravatura e não menos pior do que no tempo colonial do peixe podre, fuba podre e da porrada se refilassem (para além dos panos ruins e dos 50 na angolares).

“Os anúncios feitos no sentido de se apoiar as populações mais necessitadas com a cesta básica não foram efectivados de forma satisfatória, a julgar pelas informações e constatações, na medida em que a campanha em causa enferma de vícios, o que agrava cada vez mais a condição de vida de cidadãos vulneráveis que ficam sem saber se morrem em casa confinados com a fome ou saem à rua à procura de mantimentos para mitigar a fome, enquanto a Covid-19 não lhes bate à porta”, critica o “governo-sombra” do partido do “Galo Negro”.

A UNITA alerta que com o surgimento da Covid-19, o Governo “esquece-se ou finge esquecer-se de outras doenças que são a maior causa de morte”, apontando as mortes por tuberculose, diabetes, insuficiência renal e outras doenças crónicas, mas sobretudo de malária, e os relatos sobre o surgimento de um surto de síndrome febril ictérico e febres hemorrágicas.

“O Governo Sombra da UNITA entende que a situação do novo coronavírus não devia fazer com que os hospitais tivessem os seus serviços condicionados, porquanto o executivo deveria construir hospitais de campanha e criar alas nos hospitais existentes para o tratamento de pacientes da Covid-19”, refere o comunicado, apelando ao Ministério da Saúde para rever “tais medidas atentatórias da dignidade da pessoa humana e permita que os cidadãos sejam atendidos”.

Criticam ainda o executivo de João Lourenço que, contudo, tem o apoio declarado e assumido do presidente do MPLA e do Presidente da República, “por continuar a brindar a sociedade com escândalos derivados da corrupção que se diz combater, da má gestão financeira, do peculato, do compadrio, do tráfico de influências, enquanto os cidadãos morrem de falta de tudo”.

Em causa está o anúncio recente de aquisição por parte do Governo do condomínio Ngombe, uma área infra-estruturada com 200 residências, na comuna de Calumbo (município de Viana, província de Luanda) para servir de centro de tratamento de pandemias, pelo valor de 25 milhões de dólares (23 milhões de euros).

“Cada residência vai custar aos nossos bolsos USD 124.880,94 [cerca de 115 mil euros]”, critica a UNITA, questionando o que está a ser feito com os imóveis arrestados nos últimos meses e afirmando que as casas em questão são de baixa renda e o seu valor real de mercado é de apenas 13 mil euros. É claro que os generais e similares do regime, tal como lhes foi ensinado nos últimos 45 anos, fazem outras contas. Por alguma razão são generais e dirigentes de um partido que está no poder desde 1975.

“O mais grave é que informações que chegam aos ouvidos de todos os cidadãos revelam que as referidas casas pertencem ao assessor do ministro de Estado e Chefe da Casa de Segurança do Presidente da República que é, como todos sabemos, coordenador da comissão intersectorial de luta contra a Covid-19”, diz a UNITA, acrescentando que enviou técnicos ao local “onde estão construídas essas casas milionárias”, verificando que estão em avançado estado de degradação.

Mas, afinal, onde está a novidade? De que é que a UNITA se espanta?) De ver um corrupto a ser líder da suposta luta contra a corrupção? De termos um presidente (do MPLA) que reconhece que viu roubar, ajudou a roubar, beneficiou do roubo mas que não é… ladrão?

Esta UNITA deveria saber que existiu em Angola um homem (pelos vistos era espécie única) que disse “vocês é que estão a dormir… por isso é que o MPLA está a aldrabar-vos”. Também foi ele que afirmou “Ise okufa, etombo livala” (prefiro antes a morte, do que a escravatura), tendo Povo respondido quando ele morreu: “Sekulu wafa, kalye wendi k’ondalatu! v’ukanoli o café k’imbo lyamale!”. Ou seja, morreu o mais velho, agora ireis apanhar café em terras do norte como contratados, ou ser escravos na terra que ajudaram a, supostamente, libertar.

A UNITA questiona igualmente os gastos com os 244 médicos cubanos contratados para apoiar o combate contra a Covid-19, admitindo que o custo possa ascender aos 17,6 milhões de dólares por ano (16,1 milhões de euros).

“Quantos médicos angolanos o Estado poderia pagar com o salário de cada médico cubano? Quantos angolanos, o Estado poderia tirar do desemprego, com empregos directos e indirectos?”, pergunta o governo sombra da UNITA, liderado pelo antigo vice-presidente do partido Raúl Danda.

Folhe 8 com Lusa