João Lourenço, Presidente de Angola, Presidente do MPLA, Titular do Poder Executivo, escolhido pessoalmente por José Eduardo Santos para ser o seu sucessor, de quem foi – aliás – ministro da Defesa, estimou este domingo em cerca de 24 mil milhões de dólares (20,2 mil milhões de euros) os prejuízos causados ao Estado angolano pela política de delapidação do erário público dos últimos anos, exactamente aqueles em que teve importantíssimos cargos dirigentes.

Por Orlando Castro

O valor, que resulta dos processos (selectivos e que, por isso, não abarcam os novos protegidos do clã do MPLA de João Lourenço) de investigação patrimonial em curso no Serviço Nacional de Recuperação de Activos da Procuradoria-Geral da República de Angola, foi revelado por João Lourenço numa entrevista concedida, por correio electrónico, ao diário norte-americano The Wall Sreet Journal, e cuja primeira parte foi publicada este domingo, merecendo também um comunicado da Presidência da República de Angola.

Na mesma entrevista, João Lourenço específica que, dos cerca de 24 mil milhões de dólares, 13,5 mil milhões foram retirados ilicitamente, através de contratos fraudulentos com a Sonangol, 5 mil milhões, através da Sodiam e Endiama, empresa de diamantes, e os restantes 5 mil milhões foram retirados através de outros sectores e empresas públicas.

Sem explicar porque razão o MPLA é o partido que em todo o mundo mais corruptos tem por metro quadrado, João Lourenço diz que até à data, o valor dos bens móveis e imóveis apreendidos ou arrestados em Angola, como fábricas, supermercados, edifícios, imóveis residenciais, hotéis, participações sociais em instituições financeiras e em diversas empresas rentáveis, material de electricidade e outros activos já ascende a 4,2 mil milhões de dólares (cerca de 3,5 mil milhões de euros).

João Lourenço adiantou também que o Serviço Nacional de Recuperação de Activos da PGR (sucursal do MPLA desde que foi criada) solicitou às suas congéneres no exterior do país a apreensão ou arresto de bens e dinheiro, no valor de cerca de 5,4 mil milhões de dólares (cerca de 4,5 mil milhões de euros), nomeadamente na Suíça, Holanda, Portugal, Luxemburgo, Chipre, Mónaco e Reino Unido, “lista que tende a alargar-se”, afirmou.

Presidente, não somos todos matumbos

Três anos de governação e para chegarmos ao paraíso já só falta quase para pouco. E se não fosse aquele que impôs João Lourenço como cabeça-de-lista do MPLA, como vice-presidente do MPLA, como seu ministro da Defesa, já lá poderíamos estar. A garantia é do actual Presidente da República (não nominalmente eleito), do Presidente do MPLA e do Titular do Poder Executivo: João Lourenço.

Quando o Presidente da República, João Lourenço, esteve em Nova Iorque (EUA) reconheceu que “são legítimas as reclamações de alguns sectores da sociedade que não viram ainda concretizados as suas expectativas de vida”.

Com a sua oratória mais brilhantina do que brilhante, afirmou que em dois anos (na altura) não se fazem “milagres” e “o que não se fez em 44 anos, ninguém pode esperar que se faça em dois. Seria ingenuidade”. É verdade. Nem mesmo em três anos. Ainda por cima porque em 45 anos de independência o MPLA só esteve no Governo… 45 anos.

Foi com gosto que registamos a concordância de João Lourenço (nós compreendemos, Presidente, que tenha omitido o nosso nome) com as teses defendidas pelo Folha 8 quando, por diversas vezes, escrevemos que para fazer o que não foi feito em 45 anos o MPLA precisa de estar no Poder mais 55 anos.

O Presidente da República, tal como o Folha 8, defendeu uma “efectiva e proporcional punição” daqueles que cometem crimes de corrupção, referindo que “não basta apregoar aos quatro ventos o combate à corrupção, é necessário a existência de uma efectiva e proporcional punição.”

João Lourenço, o mais alto magistrado do país, tenta convencer-nos que é diferente, que com ele tudo será diferente, que tem as mãos limpas. Acreditamos. E porque acreditamos tomamos a liberdade de perguntar por onde andou nas últimas décadas o general João Lourenço? Claro. Claro. Só cá chegou em… 2017.

Segundo os nossos dados, nunca é por de mais dizê-lo, existem dois cidadãos com o mesmo nome: João Manuel Gonçalves Lourenço. Um sempre foi um homem do sistema, do regime. 1984 – 1987: 1º Secretário do Comité Provincial do MPLA e Governador Provincial do Moxico; 1987 – 1990: 1º Secretário do Comité Provincial do MPLA e Governador Provincial de Benguela; 1984 – 1992: Deputado na Assembleia do Povo; 1990 – 1992: Chefe da Direcção Politica Nacional das FAPLA; 1992 – 1997: Secretário da Informação do MPLA; 1993 – 1998: Presidente do Grupo Parlamentar do MPLA; 1998 – 2003: Secretário-geral do MPLA; 1998 – 2003: Presidente da Comissão Constitucional; Membro da Comissão Permanente; Presidente da Bancada Parlamentar; 2003 – 2014: 1º Vice-presidente da Assembleia Nacional.

O outro é o actual Presidente do MPLA, Titular do Poder Executivo e Presidente da República, que chegou a Angola há pouco mais de três anos com a nobre, emblemática e divina missão de nos levar (nunca é por de mais dizê-lo) para o paraíso.

Além disso, os angolanos gostariam de conhecer a declaração de rendimentos do “primeiro” João Lourenço, bem como do seu património, incluindo rendimentos brutos, descrição dos elementos do seu activo patrimonial, existentes no país ou no estrangeiro, designadamente do património imobiliário, de quotas, acções ou outras partes sociais do capital de sociedades civis ou comerciais, carteiras de títulos, contas bancárias a prazo, aplicações financeiras equivalentes.

Gostariam de conhecer a descrição do seu passivo, designadamente em relação ao Estado, a instituições de crédito e a quaisquer empresas, públicas ou privadas, no país e/ou no estrangeiro.

Gostariam de conhecer a declaração de cargos sociais que exerce ou tenha exercido no país ou no estrangeiro, em empresas, fundações ou associações de direito público.

Isto é o essencial do ponto de vista político, moral e ético. O acessório é tudo o resto. E até agora, tanto quanto é público, João Lourenço (o “primeiro”) só deu a conhecer o… resto. Esperamos, por isso, que o outro João Lourenço ordene que seja tornada pública a declaração de rendimentos do seu homónimo, evitando assim que os angolanos (nós incluídos) sejam tentados a confundir o Diabo (o primeiro) com Deus (o segundo)…

José e João, as duas faces da mesma moeda (furada)

O Presidente da República do MPLA (se fosse de Angola teria, necessariamente, outro comportamento), João Lourenço, qualificou no dia 23 de Maio de 2018, em Luanda, José Eduardo dos Santos, famigerado “escolhido de Deus” e “arquitecto da Paz”, como exímio diplomata, “que conduziu, com mestria e saber, o processo de reconhecimento, pela comunidade internacional, do Estado angolano, fundado a 11 de Novembro de 1975”.

João Lourenço discursava na 8ª Reunião de Embaixadores de Angola no Exterior, que pretendia alicerçar uma diplomacia mais eficiente e virada para a promoção da boa imagem do país, para a captação do investimento privado estrangeiro e para a sua eleição como destino turístico.

Nesse discurso, o Chefe do Estado do MPLA enalteceu, também, o seu antecessor, em toda a sua acção, “que permitiu à Nação angolana sobreviver perante a hostilidade do regime do apartheid e dos seus aliados e afirmar-se como Nação solidária com os povos oprimidos da África austral e do resto do Mundo”.

“Quero, por isso, realçar o facto de que, ao longo de toda a nossa história, ter sido crucial o papel desempenhado por exímios diplomatas angolanos, dentre os quais quero destacar a figura do Presidente José Eduardo dos Santos”, disse o Presidente João Lourenço, 41 anos depois do ingresso de Angola na ONU.

Custa a compreender a dificuldade que o mundo tem em reconhecer o papel único – como muito corrobora(va) João Lourenço – de José Eduardo dos Santos, tanto em Angola como em África e até nos restantes continentes.

Todos sabemos que quando regime do MPLA, sob comando do general João Lourenço, espirra o mundo apanha uma grave pneumonia. O MPLA através dos seus impolutos órgãos de comunicação social (TPA, TPA 1, TPA 2, TPA 3, TPA 4, TPA…. entre outros), vai com certeza exigir que se reconheça que quem viu roubar, participou no roubo e beneficiou do roubo não é… ladrão.