Depois de quase um mês de “dolce far niente”, que é o meu critério de referência para umas férias de Verão bem passadas, ainda por cima numa altura de pandemia onde o bom senso recomenda algum recolhimento e distanciamento, comecei a seguir com algum interesse o romance à volta das capacidades empreendedoras de um Senhor Economista, que por acaso, ou quiçá talvez não, é genro do Primeiro Presidente da República de Angola.

Por Carlos Pinho (*)

Mas recuando um pouco no tempo, houve ainda, e muito antes, todos os desenvolvimentos à volta do Fundo Soberano de Angola, na senda do qual, lá pelos lados do Reino de Sua Majestade Isabel II, soaram toques de alarme por mor de elevados montantes que foram, ou pelo menos, tentaram ir parar ao Reino Unido.

Houve ainda todo o romance à volta dos bens da Princesa dos Ovos de Ouro e consequentes desenvolvimentos que motivaram a venda apressada de empresas, de que são exemplo o EUROBIC e a EFACEC, só para citar algumas, poucas, referências. Não esquecendo, é claro, a SONANGOL, que também, presumo que a contragosto, foi metida ao barulho.

Houve ainda o alimentador de cachorros, que, entretanto, terminou a sua passagem por este mundo, deixando no Banco Angolano de Negócios e Comércio (BANC) claras evidências das suas capacidades de homem de negócios e líder.

De facto, Angola é um alfobre de génios da gestão e das finanças. É que são milhões de dólares americanos para cá e para lá, tendo toda esta movimentação financeira um à vontade que, objectivamente, me deixa cheio de inveja.

Repare-se que um economista que tem um pezinho de meia de 900 milhões de dólares americanos não é um “gajo qualquer”. Considerando 45 anos de independência, sei que ainda não chegou o aniversário, mas é para facilitar as contas, tal corresponde a uma poupança de 20 milhões de dólares anuais.

Ou seja, após a batalha vitoriosa contra o colono tuga e sua consequente expulsão, para que o distinto economista tivesse amealhado tal montante, certamente que os seus negócios, na sua condição de empresário, tal como citado em páginas de Angola (Club K, por exemplo), terão, nestes aproximadamente 45 anos, envolvido certamente milhares de milhões de dólares, terão criado milhares de empregos, terão pago milhões em impostos ao erário público angolano. Só assim, se conseguem poupar anualmente 20 milhões de dólares.

Sim, eu sei que haveria de contar com a desvalorização do dinheiro, os juros anuais, etc., etc.. Mas esta conta simplista diz muito e é esclarecedora das capacidades empresariais da pessoa em causa.

Em suma, Angola terá sido projectada aos píncaros da civilização, basta aliás atentar no discurso actual e recorrente do MPLA, sendo que o presente desenvolvimento do país faz corar de vergonha a antiga potência colonizadora.

Somando à actuação meritória deste cavalheiro, a da Princesa supracitada, a do amigo dos cachorros, a dos bem-aventurados criadores de Fundo Soberano de Angola, a do distintíssimo Engenheiro Manuel Vicente (tão distinto que o governo português meteu a viola no saco), e eu sei lá mais de quem, porque de tanto falar de milhões para cá e para lá até fico zonzo, só posso concluir, parafraseando Luís de Camões, “ditosa pátria que tais filhos tem”.

É que para mim, triste professor universitário, metido nos meus balanços energéticos, taxas de combustão, análises termodinâmicas de primeira e de segunda lei, análises sobre o aumento da entropia do universo (sei que isto pode parecer confuso, mas só assim consigo mandar banga), este universo da alta finança, da capacidade de, a partir de gemadas criar um império, criar uma imensa riqueza e poder distribuí-la pelos outros, é algo que me escapa e consequentemente me deixa cheio de inveja. Não inveja maldosa, mas admirativa e genuinamente crente em tão brutais e brilhantes capacidades. Angola, hoje, deve ser um portento de desenvolvimento e nível de vida.

No caso do distinto economista penso que a somar às suas imensas capacidades devem ter vindo orientações lá do além, da parte do Faraó da Praia do Bispo (obelisco mais múmia, só pode ser). Ou até mesmo do aquém, da distintíssima primeira-dama de antanho, que nos inícios do regime sucialista (não é gralha ou erro ortográfico, adiante explico) que se implantou em Angola, quando obrigava ao fecho de loja mais chique de Luanda, o Quintas & Irmão, sempre que esta recebia novidades, para assim evitar que as delícias e tentações dos regimes capitalistas, sob a forma de tafetás e outros panos estilosos, contaminassem a populaça e ficassem só disponíveis para a sua corte e das queridas esposas dos líderes e militantes mais importantes do partido, evitando assim a corrupção das massas trabalhadoras, operárias e camponesas. E estas orientações dizem sempre e claramente, que compete aos mais capazes definir e controlar os caminhos das massas. Sejam estas quais forem, de gente, massa monetária, etc..

Pois, eu na minha já dita e repetida inveja, além da crença na capacidade desses homens e mulheres extraordinários que nestes quase 45 de independência fizeram tais fortunas e mostraram dotes únicos de empreendedorismo e de empresariado esclarecido, acredito que terão recebido igualmente inspirações, que não sendo divinas, por lá perto andam ou andaram. Só pode ser! Isto com o pão-nosso de cada dia, não se chega lá. Tem de se ser predestinado ou predestinada. E um país com tantos predestinados por km quadrado como Angola, não é em qualquer outro lugar do mundo, embora, honestamente, começo a desconfiar que Portugal anda por lá perto.

O que é uma grande gaita é que das vezes que visitei a Angola independente não vi que para o povo anónimo tenha sobrado algo desta capacidade de gestão, de criação, de empreendimento. Desconfio que os guias e cicerones que me deram, não prestavam e só me levaram para longe de tais maravilhas. E eu mesmo quando andava sozinho, com a minha família ou amigos, devo ter-me perdido. Certamente que sim. O que eu via muitos, confesso, eram putos a pedir dinheiro para comer. Mas deviam ser malandros, sem espírito empreendedor e que não gostavam de trabalhar. Está visto!

Mas a gaita maior é um maldito ditado brasileiro que soa incessantemente no meu subconsciente e que não me deixa descansado e me levou a escrever este texto, “quem pouco rouba é ladrão, quem muito rouba é barão”. Atenção, esta frase não é minha, é da voz do povo brasileiro, aquele povo irmão lá da outra margem do Atlântico Sul! (Vejam por exemplo “Brasil uma Biografia”, de Lilia M. Schwarcz e Heloisa M. Starling. Editora, Círculo de Leitores, 2015).

Pobre Angola que foi tomada por uma rica súcia, vindo daí o tal sucialismo que é uma referência internacional.

(*) Professor da FEUP – Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto

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