Sedrick de Carvalho, da Plataforma Reflexão Angola (PRA), defendeu que as instituições “têm de ser funcionais” e que o Luanda Leaks mostrou uma “grande fragilidade das instituições angolanas”. O Jornalista falava numa mesa redonda intitulada “Luanda Leaks – O Alcance da Corrupção”, no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.

“I sto revela que temos corrupção nas instituições em Angola”, disse Sedrick de Carvalho sobre o que considerou ser “o principal mal” no país. O jornalista angolano referiu compreender que alguns Estados, como Portugal, “permitam que estas pessoas façam investimentos e se tape os olhos à origem do dinheiro”, mas “desde que estes investimentos beneficiem o povo”.

“Isabel dos Santos criou empregos e pagou impostos em Portugal”, destacou Sedrick de Carvalho.

Por sua vez a jornalista portuguesa Cândida Pinto considerou que a exposição pública do Luanda Leaks não acaba com a corrupção, mas coloca “a nu uma série de questões e de agentes destas situações”, admitindo que “pode alterar alguma coisa”.

“Apesar de todos sabermos que estes casos não acabam com a corrupção, é importante esta revelação, porque pelo menos atenua e coloca a nu uma série de questões e de agentes destas situações. E pode alterar alguma coisa. Pode ser que algumas pessoas em Angola possam beneficiar com o que está exposto nesta altura”, referiu a jornalista.

A jornalista recordou os impactos da divulgação do Consórcio Internacional de Jornalismo de Investigação (ICIJ, na sigla inglesa), que resultou no Luanda Leaks, apontando que houve um “dominó de demissões” em organizações e empresas ligadas à empresária angolana Isabel dos Santos.

Na opinião de Cândida Pinto, as demissões são resultado de “uma exposição internacional a um nível que nunca tinha acontecido” que atingiu organizações, como consultoras, para as quais “a reputação internacional é um activo incondicional”.

Segundo a jornalista, o ICIJ “não se substitui à justiça” e que “o que os Luanda Leaks possibilitam é que surjam investigações judiciais”.

“Há matéria que se tornou pública e que não pode continuar a ser ignorada”, vincou.

A jornalista considerou também que Portugal “foi conivente” ao permitir a entrada de financiamento angolano sem ter realizado “escrutínio desses investimentos”, num período em que Angola se mostrou “como um ‘El Dorado’ e o trânsito de investimentos” entre os dois países “foi enorme”.

A mesa redonda contou também com Mathias Alencastro, investigador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), que assinalou que o Governo angolano está preocupado com “risco de contaminação” devido ao Luanda Leaks.

“Eu escrevi um artigo banalíssimo na Folha de São Paulo logo a seguir às revelações, em que dizia que isto [Luanda Leaks] poderia contaminar um bocado o sistema político angolano e recebi logo um ’email’ da única pessoa que tem o meu ’email’ dentro do Governo angolano a perguntar ‘Mas porque é que está a fazer associação entre Isabel e o Governo?’. Eu vi que havia ali uma preocupação muito grande do risco de contaminação”, afirmou o investigador brasileiro.

Sobre as “ameaças de Isabel dos Santos em contar tudo”, Mathias Alencastro recordou as palavras de Emílio Odebrecht “no auge da crise” da operação Lava Jato (sobre corrupção no Brasil): “’Se eu cair, a República vai cair'”.

“A República não caiu – estragou-se, completamente, mas não caiu – e o Odebrecht está completamente falido”, afirmou o investigador brasileiro.

“Se eu fosse conselheiro da Isabel dos Santos, eu diria para ela ir viver belos dias no Dubai, tranquilamente, longe daqui, não tentar lutar contra isto, porque isto é uma maré que vai muito forte contra ela e muito dificilmente vai ser revertida”, concluiu.

Karina Carvalho, directora executiva da organização portuguesa Transparência e Integridade (TI), afirma que “esta corrupção” deve ser encarada e tratada “como uma questão de direitos humanos”, uma vez que tem consequências nas povoações mais empobrecidas.

“Angola é um Estado em que os interesses de muito poucos afectam os interesses de muita gente”, sustentou Karina Carvalho, investigadora angolana, nomeando o desvio de cursos de rios, a falta de água potável e de terrenos e o mau aproveitamento dos recursos naturais como algumas das situações que afectam a população.

Nesse sentido, Karina Carvalho pede que a corrupção seja contemplada, “por exemplo, no quadro da Agenda 2030 para o desenvolvimento sustentável” e que se olhe para os próprios governos e seus mecanismos.

“O caso de Isabel dos Santos é exemplo de que os nossos mecanismos institucionais falharam”, disse, acrescentando: “Estamos a falar de uma pessoa politicamente exposta”.

O ICIJ revelou em 19 de Janeiro mais de 715 mil ficheiros, sob o nome de Luanda Leaks, que detalham alegados esquemas financeiros de Isabel dos Santos e do marido, Sindika Dokolo, que terão permitido retirar dinheiro do erário público angolano utilizando paraísos fiscais.

Isabel dos Santos, constituída arguida pelo Ministério Público de Angola, negou as acusações, dizendo-se vítima de um ataque político.

Folha 8 com Lusa