No dia 26 de Abril a maioria dos telespectadores de Angola deve ter ficado enojada ao assistir ao principal jornal da noite da TV Zimbo, dirigido por Amílcar Xavier, com a participação de Norberto Garcia e Raul Danda, nos comentários. Foi triste o papel desempenhado pelos moderadores, principalmente, o medíocre e a raiar a boçalidade Norberto Garcia, que se diz cristão, mas ao assumir, ao vivo e a cores, o papel de víbora tresloucada, deixou muito a desejar.

Intolerância, arrogância e discriminação como carimbos de marca de um membro do Comité Central, cujo matumbismo o levou a dizer ser Angola propriedade do MPLA: “Devias agradecer, nós que te recebemos e salvamos, quando vieste e agora cospes no prato, que te deu de comer”, disse ao vivo, o intolerante dirigente do partido no poder, numa autêntica declaração de guerra. Mas afinal, para Norberto Garcia, “nós”; significa MPLA e não Angola? Para ele, o país é propriedade exclusiva do MPLA, numa imagem falsa da reconciliação, que pavoneia?

Não vamos entrar no mérito do debate, mas uma reconciliação não pode ser partidocrata, por humilhar, permanentemente, em público (nem imaginamos como será em privado), os adversários políticos, alimentando uma bomba perigosa, incubada nas mentes, que vai carregando pela falta de seriedade e compromisso da classe governante (no caso o Titular do Poder Executivo, enquanto governo unipessoal).

A humilhação pública e desvalorização da condição humana é uma séria declaração de guerra, capaz de espoletar (esperemos que seja travada, a tempo), nas cidades, onde estão muitos desmobilizados, sem pensão, milhares de polícias sem abrigo e militares das FAA desamparados, o levantar da poeira de um remoinho social, sem precedentes.

E, como se não bastasse é, mais uma vez, um membro do Comité Central do novo MPLA e do gabinete presidencial, ligado à acção psicológica (órgão anormal, em Estados de Direito e Democratas) a acender o rastilho da provocação, da incitação ao ódio, da violência, baseada na descaracterização da pessoa humana.

Agora, caiu a máscara da hipocrisia política de políticos rascas oriundos de uma estirpe, que não tem vergonha de reconhecer não haver um espírito de verdadeira tolerância na rota da consolidação de uma ainda frágil paz.

Norberto Garcia diz-se cristão, tem de se penitenciar, para não demonstrar, sem querer, ter uma clique de baixo coturno intelectual, tomado de assalto o MPLA, que está desejoso de retornar à guerra, estando já a lançar farpas e a deixar recados, de negação aos trilhos da polidez e contenção verbal.

Por outro lado, é preciso que o outro MPLA, o dos militantes consequentes e patriotas, que pugna, não só pelo calar das armas, como pelo consolidar do clima de paz e não exaltação da humilhação dos adversários, se una de uma vez por todas, para não acontecer como o Titanic. Até porque os verdadeiros militantes do partido no poder, maioritariamente, continuam confinados nos bairros pobres, sem água, luz, pão, escola e hospitais, enquanto a nata dirigente se exibe em mansões e carrões, sem conseguir justificar a proveniência do dinheiro desta luxúria.

Eles sabem dos malefícios de uma nova guerra e das consequências de declarações incendiárias, capazes de levarem, mais uma vez, os filhos dos pobres, como carne para canhão, em defesa de uma corja que instiga o país a estar permanentemente em guerra, quando deveria consolidar as marcas e feridas dos conflitos militares de um passado recente.

A hipocrisia não pode continuar a fazer morada, na memória de uns poucos dirigentes deste MPLA. Hoje, a soberba é perigosa, por levar adversários, sociedade civil e mesmo militares, a desconfiar dos reais propósitos dos governantes, havendo um estado de emergência. Será que é o prenúncio de um estado de guerra, daí terem saído os blindados e outro arsenal de guerra?

Não era, afinal, devido ao Covid–19, mas para atentar ainda mais nos frágeis pilares da paz, reconciliação nacional, democracia e multipartidarismo, neste império romano de Angola?

Sim ou não, importa recordar o estratega asiático, Lao Tsé (640), que disse: “Quando se defrontam dois exércitos de força equivalente, aquele que sofre por sustentar a guerra alcançará a vitória.“

A maioria da população, está cansada, nada garantindo que os belicistas, instigadores de um retorno à guerra, mesmo tendo meios bélicos desproporcionais, em relação aos adversários (agora mais: UNITA, oposição, desmobilizados, desempregados, sociedade civil, todos defensores da paz), sejam capazes de a ganhar.

No capítulo ainda da incitação bastará analisar outra irresponsável responsabilidade belicista de Norberto Garcia ao questionar e colocar em cheque, no seu crónico e arrogante desconhecimento, o funcionamento da Assembleia Nacional (o seu partido é maioria), quanto à validade das actas, mostradas por Raul Danda, visando provar (terem sido, na semana passada, infundadas, as acusações deste político de faltas injustificadas) terem sido justificadas, todas as ausências (três, no total) de Adalberto da Costa Júnior, presidente da UNITA.

Quem não conhece pormenores básicos de funcionamento do Parlamento, nem tem humildade de reconhecer, teimando, raivosamente, ao exigir um despacho do presidente do órgão, para as ausências dos deputados, quando a elaboração está a cargo de um corpo administrativo da Assembleia Nacional, que não integra deputados das bancadas parlamentares, é de bradar aos céus.

Mas já dizia Eugene Wesley Roddenberry (1921-1991), que “a força de uma civilização não é medida pela sua habilidade para lutar guerras, mas sim pela sua habilidade de preveni-las”.

Pelos vistos uma franja do MPLA aposta na sua manutenção, para enriquecer e destruir ainda mais o já debilitado tecido humano de Angola, daí essa arrogância.

Alguém avisado disse: “O perdão não é um caso de ‘amnésia santa’ que apaga o passado. Em vez disso, é a experiência de cura que drena o veneno da ferida”.

Mas, uma clique dirigente acredita ser Angola propriedade privada e os demais cidadãos súbditos, que se devem curvar aos barões e monarca, mas reconheça-se dentre tanto erros, nem no tempo de José Eduardo dos Santos, que governou por 38 anos, absolutamente, em “ditademo” (misto de ditadura+democracia) se assistiu a esse regabofe de baixo (muito baixo) coturno.

Os angolanos não podem minimizar o que se passou na TV Zimbo no dia 26 de Abril, pois não se trataram de meras declarações no exercício democrático. Não! Foi uma autêntica agressão, uma demonstração de presunção, de superioridade da raça.

De uma raça política que se julga única com a capacidade de governar, beneficiar das riquezas e oportunidades do país e, dos outros serem matumbos, animais irracionais, a quem distribuem espinhas de peixe e ossos de costeletas, quais cães famintos, que devem, eternamente, agradecer e louvar os barões e o rei.

Norberto Garcia recuperado, depois de ter cumprido, por sinal uma pena injusta, para ser, agora robot (no tempo de JES estava programado com 12 watts e queria três réplicas do querido líder), agora, parecendo ter, coleira curta de 6 watts, dispara bombas comprometedoras, incitando, provocando e abrindo feridas em vias de cicatrização.

O país vive uma crise económica e social, sem precedentes, e uma faísca pode espoletar poeiras incontroláveis, quando se passa por atingir a honra e dignidade da pessoa humana.

Alguém do andar de cima tem de se indignar, urgentemente, para afastar esta petulância e arrogância saloia, da linha do pensamento programático do Presidente da República, sob pena do silêncio e omissão comprometerem tudo e todos, até pela, agora, intimista proximidade.

Que este MPLA, raivoso e odioso, na sua actuação quotidiano, diga, publicamente, com coragem e frontalidade, depois de se demitir da resolução da situação social dos 20 milhões de pobres e da economia, não ter, também, nenhum compromisso sério, com a paz e a reconciliação, pretendendo, sim, um retorno à guerra, sendo que estas, nunca começam com o dedo no gatilho, mas num adjectivo verbal.