Faleceu na manha desta quarta-feira, em Luanda, aos 67 anos de idade, o músico Carlos Burity. Encontrava-se doente há já algum tempo. Na segunda-feira falecera Waldemar Bastos. “Se Deus tivesse uma voz seria a de Waldemar Bastos”, disse a cantora portuguesa Dulce Pontes. Por sua vez o MPLA rejeitou a propostas da UNITA para o Parlamento prestar uma homenagem a Waldemar Bastos.

Carlos Fernandes Burity Gaspar nasceu em Luanda, no dia 14 de Novembro de 1952, e viveu parte da adolescência no Moxico onde integrou, em 1968, a formação pop-rock “Cinco mais um”, com Catarino Bárber e José Agostinho, o último do Duo Missosso, com Filipe Mukenga. Em 1974 grava, com o Grupo Semba, uma selecção de temas angolanos que ficaram na história da música popular angolana.

Nesse mesmo ano divide o palco com David Zé e Artur Nunes, num grande espectáculo realizado na Cidadela Desportiva, promovido pelo empresário Palma Fernandes e Ambrósio de Lemos Pereira Gama.

Em 1983, junta-se ao “Canto Livre de Angola”, um projecto do cantor brasileiro Martinho da Vila e do empresário Fernando Faro, que levou ao Brasil nomes como Filipe Mukenga, André Mingas, Dina Santos, Pedrito, Elias dia Kimuezo, Rebita do Mestre Geraldo, Mamukueno e Joy Artur, acompanhados pelo agrupamento Semba Tropical, e participa, integrado no mesmo projecto, na gravação do LP “Semba Tropical in London”, interpretando, com um assinalável sucesso, os temas “Monami” e “Tona kaxi”.

O seu álbum “Carolina” surgiu em 1991, com os temas “Uabite Boba”, “Alukaze”, “Narciso”, “Carolina”, “Monami”, “Adeus” e “Kilundo”. Carlos Burity tem também os álbuns “Wanga”, “Ginginda”, “Massemba”, “Zuela o Kidi”, “Paxi Iami” e “Malalanza”.

MPLA censura Waldemar Bastos

O Grupo parlamentar do MPLA recusou render uma “justa homenagem” ao músico Waldemar Bastos. A proposta de homenagem, que aconteceria na Assembleia Nacional, partiu da UNITA.

“O Grupo Parlamentar da UNITA apresentou uma Declaração à Mesa da Assembleia para ser prestada uma justa homenagem a Waldemar Bastos. Infelizmente o Presidente da Mesa e também da AN não aceitou o agendamento da Declaração e por consequência da homenagem”, lamentou Adalberto da Costa Júnior, presidente da UNITA.

Com este acto, a “Assembleia Nacional poderia na sua plenária extraordinária dedicar uma homenagem ao músico angolano Waldemar Bastos”, conforme considerou o consultor Jurídico e coordenador da Plataforma Juvenil para a Cidadania, Walter Ferreira.

“A nossa indiferença pelas coisas imateriais revela o caminho que como país pretendemos seguir, não faz sentido tanto cinismo disfarçado em amor”, disse o activista lembrando que a reconciliação sem amor entre irmãos da mesma pátria poderá ser apenas um mero exercício de charme político, mas sem uma base que surge da honestidade para se proteger o orgulho Nacional”, disse o activista

Waldemar Bastos viveu durante muitos anos no exilio na sequência da perseguição por parte do regime de José Eduardo dos Santos, por se recusar a apoiar o MPLA. “Foram poucas ou nenhumas as vezes em que me deixaram cantar no meu país”, escreveu em 2016 na rede social Facebook, acrescentando que se sentia vigiado “todos os dias, palmo a palmo, pela polícia secreta e ‘bufos’ ao serviço do regime no poder em Angola”.

Na altura da vitória do cabeça-de-lista do MPLA (João Lourenço) nas eleições legislativas de 23 de Agosto de 2017, Waldemar Bastos considerou “fundamental uma abertura, porque os angolanos têm que viver em liberdade”.

Em 1982, Waldemar Bastos decidiu fugir de Angola o que veio a acontecer durante uma visita a Portugal para participar no FITEI (Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica), no Porto, integrado na delegação oficial angolana. No final do festival, ficou em Portugal e não voltou para Angola.

Não ficou muito tempo. Foi para Berlim, na parte Ocidental, onde tinha alguns amigos e ao fim de uns meses partiu para o Brasil, onde conheceu músicos como Chico Buarque, João do Vale, Elba Ramalho, Djavan, Clara Nunes.

As coisas correram bem no Brasil, onde alguns dos músicos mais emblemáticos o ajudaram. Acabou por encontrar uma editora interessada no seu trabalho, EMI-Odeon, e gravou o seu primeiro álbum, “Estamos Juntos”, um marco na sua carreira, que contou como convidados especiais, entre outros, Chico Buarque, João do Vale, Dorival Caimmy, Martinho da Villa e Novelli.

Regressa a Portugal, e cinco anos depois de ir para Lisboa, Waldemar gravou o seu segundo disco, “Angola, Minha Namorada”.

A seguir à edição deste seu álbum, veio a Angola, onde ainda era muito popular. Em Luanda, Waldemar Bastos apresentou um concerto memorável para 200 000 pessoas que o aplaudiram entusiástica e emocionalmente, agitando lenços brancos. Interpretou este gesto surpreendente como uma mensagem clara do povo – queria paz.

Depois de gravar o seu terceiro álbum, “Pitanga Madura”, Waldemar voltou a Angola. Continuou a compor e a apresentar espectáculos em vários locais de Portugal, incluindo os Açores, onde foi frequentemente. Para ele, os Açores foram “uma fonte de oxigénio durante este longo exílio”. Também cantou em Cabo Verde várias vezes e em Moçambique, a favor das crianças vítimas da fome.

De visita a Lisboa, David Byrne, mentor da editora Luaka Bop e ex-líder dos Talking Heads, comprou, por acaso, um disco de Waldemar Bastos. Nesse ano, 1995, a editora Luaka Bop, lança no mercado o disco Afropea – Telling Stories to the Sea, uma antologia de artistas lusófonos onde aparecem entre outros: Bonga, Cesária Évora, Waldemar Bastos, Dany Silva, Vum-Vum e André Mingas.

Com este disco dá-se o reconhecimento internacional de Waldemar Bastos.

Luaka Bop editou Pretaluz/Blacklight , gravado em Nova Iorque e produzido por Arto Lindsay. O álbum teve excelentes críticas de algumas das vozes mais representativas da imprensa internacional (New York Times, Village Voice, USA Today, Herald Tribune, El País, Libération, Los Angeles Times, The Times, etc.). O New York Times considerou-o como “um dos melhores discos de World music da década”. No seguimento do disco, Waldemar ganhou o “Prémio para o Artista Revelação do Ano” em 1999. Depois do sucesso por todo os Estados Unidos da América, com a distribuição do disco na Europa em 1998, Waldemar foi descoberto pelo público e pelos media europeus.

Os tempos mudaram para Waldemar Bastos em 2002, quando, depois de décadas acabou a guerra em Angola. Foi convidado para celebrar essa data especial com um espectáculo memorável no Estádio Nacional de Luanda em Abril de 2003. No fim, a sua luta pela unidade e irmandade foi recompensada.

Rapidamente surgiu a hipótese excepcional de gravar o seu novo álbum “Renascence”.

Tudo começou em San Pedro de Alcântara, em Espanha, onde reuniu alguns dos mais excepcionais músicos de África, do Congo a Angola, de Moçambique à Guiné-Bissau. A jornada para uma nova expressão da música contemporânea africana começou. A história continuou em Berlim, onde, enquanto gravava, convidou alguns jovens músicos de Portugal e da Martinica para fazerem parte deste projecto musical.

Quando Waldemar Bastos decidiu ir até Istambul, onde foram gravadas as partes de cordas deste disco, mostrou mais uma vez que a música não tem fronteiras e é uma chave para unir as pessoas, uma ponte entre culturas. Finalmente, o caminho da música levou-o a Londres onde acabou, com o seu produtor Paul “Groucho” Smykel, a mistura deste disco “Renascence” que aparece no mercado discográfico em 2004.

Classics Of My Soul é um dos álbuns do ano na categoria de World Music para o jornal francês Libération. O trabalho, que foi lançado nos Estados Unidos da América, e junta o quinteto de Waldemar Bastos com a orquestração da London Symphony Orchestra dirigida por Nick Ingman.

Classics of My Soul, da editora Emja Records, foi gravado em Londres e Los Angeles e, segundo o material de divulgação, “resultou do sonho do músico angolano em juntar os sons e etnografias de África, particularmente de Angola, ao pendor e composição da música clássica europeia”.