Cerca de 100 pessoas manifestaram-se este sábado em Luanda, exigindo a demissão de Edeltrudes Costa, chefe de gabinete do Presidente angolano João Lourenço, que alegadamente terá sido beneficiado em contratos com o Estado. Não houve qualquer manifestação, dirão os órgãos de propaganda do MPLA para justificar a sua censura ao que se passou.

Os manifestantes concentraram-se perto das 11:00 no Largo das Heroínas e saíram às 13:00 em direcção à Mutamba, numa marcha acompanhada de apitos e palavras de ordem contestando Edeltrudes e com recados ao Presidente da República, Titular do Poder Executivo e Presidente do partido no poder há 45 anos, o MPLA.

À cabeça do desfile, os manifestantes empunhavam uma faixa com os dizeres “Edeltrudes Fora”, além de cartazes improvisados.

“JLO queremos o nosso gatuno”, lia-se num deles, numa alusão ao Presidente da República. “Angola continua amordaçada”, contestava outro.

A manifestação foi organizada para pressionar o Presidente da República a demitir o seu chefe de gabinete, disse Dito Dali, um dos organizadores.

“O senhor Edeltrudes está a ser acusado de ter desviado avultadas somas de dinheiro de Angola para o exterior, dinheiro que serviu para comprar casas em Cascais, apartamentos e carros topo de gama. Não podemos aceitar que um gestor público no exercício das suas funções e neste momento de crise pegue o dinheiro e o leve para o exterior, quando há angolanos a morrer por falta de medicamentos dos hospitais e por falta de comida”, criticou.

Dito Dali destacou que o combate à corrupção foi a bandeira do Presidente e que este tem de dar o exemplo: “A Presidência da República não pode ser um abrigo para corruptos. É bom que o Presidente estenda a luta contra a corrupção a todas as esferas, sejam seus filhos, amigos próximos ou compadres, devem ser responsabilizados”.

Dito Dali e outros activistas estão a recolher assinaturas para uma petição pública para mostrarem que “os angolanos estão atentos e vão acompanhando as acções dos gestores públicos”, pretendendo remeter depois o manifesto para a Presidência. Sendo seguro que, como em qualquer evoluído Estado de Direito e Democrático, o manifesto será guardado (para posteriores consultas) onde o MPLA guarda tudo quanto não seja da sua lavra – no caixote do lixo.

“Vamos até ao fim para ver o senhor Edeltrudes Costa fora da Presidência da República. A partir de hoje, vamos transformar as ruas de Luanda nos nossos escritórios”, prometeu Dito Dali, reclamando uma revisão da Constituição da República. Quanto à luta contra a corrupção, “tudo depende do Presidente da República”, afirmou

“Se demitir Edeltrudes, esse ‘slogan’ de luta contra a corrupção vai se manter, mas se não o tirar significa que o combate à corrupção fracassou e é pena porque o Presidente vai perder credibilidade”, a nível interno e externo

Também a activista social Laura Macedo se juntou ao protesto, destacando a luta contra a corrupção: “Ainda não conseguimos perceber o que o Governo quer com este tipo de luta contra a corrupção, achamos que não estão a combater nada, as acusações não passam de brincadeira”.

Laura Macedo apontou o caso de Augusto Tomás, ex-ministro dos Transportes “que está na cadeia mas continua a ser um homem rico” e do empresário Jean Claude Bastos de Morais com quem o governo angolano “fez um pacto de não agressão” como maus exemplos.

“Agora temos João Lourenço a decretar contratos com os seus auxiliares, não pode ser”, criticou.

“Este é o mote que me traz aqui, não estou preocupada com os Edeltrudes que a vida nos traz, estou preocupada é com a forma como o Presidente João Lourenço está a governar o país”, destacou a activista.

“Não há milionário nenhum aqui — e não são poucos — que tenha trabalhado para esse dinheiro”, rematou a activista social, defendendo que todo o governo se devia demitir, por que “o problema está no próprio Presidente da República”.

A marcha parou na zona da Mutamba onde um cordão policial travou os manifestantes e impediu que se aproximassem da Cidade Alta, centro do poder político em Luanda, que alberga o Palácio Presidencial. Nas democracias é mesmo assim. Em caso de dúvida basta ver o que se passa nesses dois baluartes que dão pelo nome de Guiné Equatorial e Coreia do Norte.

O caso que envolve o chefe de gabinete de João Lourenço foi noticiado, numa fase mais recente pela estação televisiva portuguesa TVI e envolve a contratação de uma empresa de consultoria de Edeltrudes Costa num negócio que tinha como objectivo a modernização dos aeroportos angolanos e terá rendido vários milhões de euros em contratos públicos que foram autorizados pelo chefe de Estado angolano.

Em Fevereiro deste ano foi revelado pelo jornal português Expresso que em 2013 foram transferidos milhões de dólares para uma conta de Edeltrudes Costa. A origem? Ninguém sabe. Isabel dos Santos referira-o na altura como importante na sua entrada na Sonangol.

Alguns observadores admitiram na altura que João Lourenço poderia exonerar Edeltrudes Costa. Certo é que se o Presidente começar a exonerar os corruptos (ou suspeitos) que o rodeiam e não aceitar nomear os que o querem rodear, não terá ninguém para ocupar os cargos e o governo terá de declarar… falência.

O actual chefe de gabinete do presidente João Lourenço recebeu a 25 de Julho de 2013 uma soma de 17,6 milhões de dólares na sua conta bancária, quando era ministro de Estado e chefe da Casa Civil do antigo presidente, José Eduardo dos Santos. Ninguém sabe a origem do dinheiro e Edeltrudes Costa “não o explicou ao Expresso”, revelou o semanário português.

Edeltrudes Costa, que tem uma larguíssima fortuna, em 2013 era ministro de Estado e chefe da Casa Civil do pai de Isabel dos Santos, viu serem-lhe depositados 16,7 milhões de dólares na conta bancária que tinha no BAI – Banco Angolano de Investimento.

Essa não terá sido a única transferência suspeita para contas bancárias do actual chefe de gabinete do presidente João Lourenço. Cerca de um mês depois da transferência mais avultada, foram depositados na sua conta 5 milhões de dólares pelo empresário Domingos Manuel Inglês. “Ao longo” do mesmo mês terá levantado, “em numerário, 1,25 milhões de dólares”, acrescentava o Expresso, citando documentos a que teve acesso.

Ao semanário, o político angolano limitou-se a dizer: “Os recursos que recebi, tanto no exercício de funções públicas como no exercício da minha actividade profissional ou em resultado de investimentos pontualmente realizados, foram atempadamente declarados e sujeitos a escrutínio pelas autoridades angolanas competentes, sendo as minhas fontes de rendimento perfeitamente claras e legais”.

Numa entrevista ao também português jornal Observador, a empresária Isabel dos Santos, cujas contas e participações em empresas foram arrestadas por decisão política rotulada de judicial — é suspeita de ter sido favorecida pelo regime do MPLA em mais de mil milhões de euros, juntamente com o marido —, mencionara o nome de Edeltrudes da Costa.

Isabel dos Santos falava sobre a sua escolha para a administração da empresa pública angolana Sonangol quando lembrou que a “comissão de reestruturação petrolífera” – que supostamente a escolheu para CEO da petrolífera estatal – era “liderada por Edeltrudes”, o “director de gabinete do Presidente João Lourenço”.

A invocação e a referência a Edeltrudes Costa soaram a uma tentativa de dar credibilidade à sua escolha, já que o então líder da comissão petrolífera veio a tornar-se braço-direito de João Lourenço. Isabel dos Santos não referiu, contudo, que Edeltrudes Maurício Fernandes Gaspar da Costa fora antes disso ministro e chefe de Casa Civil do anterior presidente, seu pai.

Foi então que o Expresso revelou que o antigo líder da comissão de reestruturação petrolífera, entidade alegadamente imparcial e que elegera Isabel dos Santos pelos seus méritos empresariais, recebeu 13 milhões quando era ministro de José Eduardo dos Santos.

Folha 8 com Lusa
Foto: AMPE ROGÉRIO/LUSA