A reestruturação da dívida alivia a pressão sobre as contas angolanas, mas “é preciso pagar este empréstimo” e não se sabe exactamente em que condições, disse o economista Carlos Rosado de Carvalho, mostrando-se preocupado com a (monstruosa) divida à China.

Como está “escrito” no ADN no partido que nos (des)governa há 45anos (o MPLA), o importante é pedir fiado para encher do bom e do melhor as “Lojas dos Dirigentes”, deixando a dívida para ser paga pelos autóctones, habituados que estão a frequentar as vazias “Lojas do Povo”.

A ministra das Finanças, Vera Daves, anunciou na sexta-feira que a renegociação da dívida angolana, dentro e fora do G20, permite poupar 6 mil milhões de dólares (5 mil milhões de euros) até 2023 e adiantou que o principal credor é a China, a quem Angola deve 20,1 mil milhões de dólares (16,9 mil milhões de euros).

Para Carlos Rosado de Carvalho, este é um alívio bem-vindo, mas realçou que se está apenas a adiar o problema do pagamento da dívida. Nada mais do que seguir a estratégia adoptada (desde 2002 sem a miraculosa desculpa chamada Jonas Savimbi) desde 1975, altura em que os “manetas” do MPLA se apresentaram como exímios jogadores de basquetebol.

“É um alívio, sim, não seria possível executar o orçamento sem esta reestruturação, mas não se sabe em que consiste esta moratória. Os pagamentos são suspensos? Vão acumular juros? É preciso saber porque isto na prática é um empréstimo”, observou.

Na realidade, “não se trata de uma poupança, é uma suspensão da dívida que terá de ser paga depois e não sabemos pormenores”, sobretudo no que diz respeito à China.

“Com a China não se sabe como vão ser feitos os pagamentos”, disse o economista, acrescentando que os detalhes do acordo com o Fundo Monetário Internacional, que anunciou na quarta-feira o desembolso de mais mil milhões de dólares (845 milhões de euros) deverão ser conhecidos nos próximos dias.

O também jornalista e professor universitários destacou que o desfecho positivo da terceira avaliação do FMI ao programa de assistência financeira a Angola se traduz numa mensagem muito importante, a de que “a divida é sustentável, a ponto de emprestarem mais dinheiro.

“O problema são os empréstimos chineses e a opacidade à volta de tudo isto. Com o FMI vamos saber em breve o que mudou, sabemos que emprestando mais dinheiro se esperam reformas, mas com os chineses não se sabe o que exigiram, quais são as contrapartidas, se exigiram activos, por exemplo”, justificou.

E se o facto de se se saber qual o montante da dívida à China é positivo, o desconhecimento quanto às condições da moratória preocupa Carlos Rosado: “Tenho dúvidas. Porque não conhecemos as condições, não sabemos quais são as contrapartidas”.

Numa conferência de imprensa em Luanda, na sexta-feira, Vera Daves, salientou que Angola está “no caminho certo” e que a dívida pública angolana, “apesar de estar sujeita a grande pressão, continua sustentável”, trazendo “tranquilidade no médio e longo prazo”.

A ministra agradeceu igualmente “movimento” dos credores internacionais que se solidarizaram com o Governo angolano devido à pressão da pandemia de Covid-19 sobre as contas públicas angolanas, adiantando que o ‘stock’ da dívida pública deve atingir 123% até ao final do ano.

Na ocasião referiu também que o valor real da dívida de Angola com a China está calculado em 20, 1 mil milhões de dólares, sendo este também o maior credor do país.

Deste valor, metade foi usado na capitalização da petrolífera angolana Sonangol (a máquina da corrupção do regime) e a outra parte para financiar vários projectos de investimento.

O total do programa de assistência financeira a Angola ascende agora a quase 4,5 mil milhões de dólares (3,8 mil milhões de euros).

O FMI anunciou na quarta-feira que a terceira avaliação positiva da ajuda financeira dada ao abrigo da Linha de Financiamento Ampliada permite o desembolso de mais mil milhões de dólares, perfazendo cerca de 2,5 mil milhões de dólares (2,1 mil milhões de euros) já entregues desde a assinatura do acordo, em 7 de Dezembro de 2018.

Na conclusão da terceira avaliação, o FMI avaliou também o pedido das autoridades para reforçar o empréstimo em 765 milhões de dólares (646 milhões de euros), que eleva o total para 4.465 milhões de dólares (3.771 milhões de euros), com o objectivo de apoiar “os esforços das autoridades para controlar a propagação da pandemia de Covid-19, atenuar o seu impacto económico e avançar na aplicação de reformas estruturais”.

Enquanto isso, a consultora NKC Research considerou que a moeda nacional, o kwanza (de Agostinho Neto e sem José Eduardo dos Santos), vai desvalorizar-se 50% este ano face ao dólar, com a inflação a chegar ao valor mais alto desde Dezembro de 2017.

No princípio de Setembro, apontam, um dólar valia 633 kwanzas, num contexto de descida dos preços do petróleo devido aos receios de uma recuperação mais lenta da procura mundial do que o esperado.

“A taxa de inflação continua a subir, tendo chegado em Agosto ao valor mais alto desde Dezembro de 2017, de acordo com os dados do Instituto Nacional de Estatística, que registou a subida dos preços em 23,4% em Agosto, aumentando face aos 22,9% de Julho”, lê-se numa análise desta subsidiária africana da Oxford Economics sobre a subida dos preços em Angola.

De acordo com o comentário dos analistas, a subida da inflação nos primeiros três trimestres deste ano “deve-se principalmente à descida dos preços do petróleo à liberalização cambial do último ano, que causou uma queda do valor do kwanza em 20% desde o início deste ano”.

“A moeda nacional angolana continua vulnerável às mudanças no sentimento global e deverá depreciar-se mais de 50% comparado com o valor do ano passado, o que vai continuar a colocar pressão nos preços do consumidor, devido à forte dependência de Angola dos produtos importados”, alertam os analistas, concluindo que a aplicação do IVA e o aumento das propinas universitárias vai também potenciar a subida da inflação.

Folha 8 com Lusa