Uma decisão. Uma vontade. Um eterno unanimismo. Uma nota. Uma (mais uma) megalomania responsável por despesa financeira desnecessária, quando se deveria atender ao tsunami da fome e miséria que assolam 20 milhões de pobres e cerca de 2,5 milhões de desempregados.

Por William Tonet

Estimado Presidente da República, João Manuel Gonçalves Lourenço: Com o respeito que lhe tenho, por amor a Angola e aos autóctones angolanos, depois de ver as milionárias notas “netoianas” fiquei com a nítida sensação de haver uma espécie de covil de “víboras” venenosas, no seu gabinete.

É indescritível a opção tomada e o vazio justificativo, capaz de fazer correr lágrimas de revolta, na face de qualquer verdadeiro nacionalista, comprometido com a racionalidade na gestão da coisa pública.

Presidente, digo-lhe, frontalmente, ter sido um erro político crasso, a opção “notal” e, como não sou covarde, nem cínico, não me coíbo de lhe transmitir, com sentido de responsabilidade e patriotismo, principalmente não fazendo parte da galeria dos que lhe escondendo a verdade, não deixam, também, de lhe praguejar, pelas costas. É mesmo pelas costas, Presidente.

Sempre, mas sempre, até na dor, vou alertá-lo sobre eventuais erros e desvarios de governação, principalmente, se o viés continuar a ser partidocrata, discriminatório e em prejuízo dos milhões de desempregados e miseráveis, por acreditar ser a melhor forma de o ajudar.

Serei incompreendido por uns mas, acredite, a crueza das palavras e a dureza da verdade, são o melhor elixir numa relação de respeito, consideração e amizade.

O país vive um momento delicado de desemprego, inflação, altos impostos, carestia dos produtos alimentares, sistema judicial partidarizado e, principalmente, falta de esperança, na maioria da juventude desejosa em emigrar (mais do que no período da guerra), para outras paragens, mesmo em tempo de pandemia mundial, por descrença nas políticas actuais do executivo e no futuro de um país, que tendo tudo para dar certo, não acerta na escolha da elite dirigente.

Senhor Presidente, muitas das opções descontextualizadas da realidade socioeconómica, cultural e tradicional dos povos angolanos, que vêm sendo, voluntária ou involuntariamente, tomadas, ao longo deste curto mas atribulado consulado, exigem não só um olhar crítico em prol da defesa da Mãe Angola, mas, também, de envio de sugestões, ainda que não sejam tidas em conta.

Por isso desafiei-me para lhe dizer que gastar dinheiro, 30 milhões de euros, para fazer dinheiro, em tempo de crise, quando existem situações sensíveis, adiadas, tais como a malária, febre amarela, doença do sono e outras, por alegada falta de recursos financeiros, foi uma má decisão política, que poderá custar-lhe caro, num futuro próximo.

Senhor Presidente. Acredito, como historiador, ter noção de Agostinho Neto não ser um político consensual, na realidade poucos o são, mas ele supera em larga escala os demais, pelas acusações, muitas fundadas de ter impressões digitais em crimes hediondos, imprescritíveis e insusceptíveis de amnistia, pelo que a sua aparição isolada, neste período, numa família de notas, configura branqueamento de imagem, principalmente, depois da criação da Comissão para Resolução dos Conflitos Militares e do 27 de Maio de 1977.

Inicialmente, ainda conseguiu dividir as claques, mas rapidamente uniu todas as franjas políticas discriminadas, ante a imposição de uma agenda, a colocação dos algozes como inocentes (tendo sido parte) e a obrigatoriedade das vítimas pedirem desculpas mesmo tendo sido, assassinadas, encarceradas, torturadas, sem culpa formada e julgamentos justos, numa clara confirmação da preparação mental, para justificar um investimento milionário visando as celebrações de um apoteótico centenário de Agostinho Neto. Felizmente não estamos todos distraídos e, por esta razão, ao abrigo do propalado novo paradigma na comunicação social, lhe pergunto senhor Presidente: Está de acordo com a descabida ira do bureau político, da Fundação Agostinho Neto, da ERCA e dos órgãos públicos de comunicação social, que agem como apêndice do MPLA, ao apelarem ao “assassinato” (encerramento) do Folha 8, sem o cometimento de nenhum crime, salvo o de dar voz aos que não têm voz, e aos amante da liberdade, democracia e esperança?

Senhor Presidente, um dia a moeda nacional teria (e vai ser) de ser mudada, mas totalmente, desde a denominação às imagens identitárias e o texto força, logo as duas actuais esfinges; de José Eduardo dos Santos acusado de marimbondo-mor e maior corrupto e de Agostinho Neto denunciado como genocida, pelos crimes hediondos de 27 de Maio de 1977, não terão lugar, sendo substituídos pelas de Nzinga Mbandi, Ekuikui, Mandume, Mwantchianvua, Kimpa Vita, etc.. A moeda poderia, em homenagem aos nossos ancestrais fundadores dos reinos Ngola, voltar a chamar-se ZIMBO, com o texto forte evocando “Unidos em Nzambi”.

O contrário é destapar a tampa de uma panela, suspeita de vaporizar, levianamente, raiva e ódio, quando se exige razoabilidade e sentido de Estado, em períodos conturbados.

FANFARRA DESPESISTA E CORRUPTA

A fanfarra de 07.07, do governador do Banco Nacional de Angola, na apresentação das notas milionárias, dispensáveis num momento de agonia económica e urgências imprescindíveis, como as de alimentar os 20 milhões de pobres, deixou evidente ser mais importante satisfazer as vaidades de um núcleo restrito do poder, do que a agonia de milhões de autóctones.

Senhor Presidente a culpa não é toda sua, mas também e principalmente de juristas, criminosos do direito, que impediram (desde o tempo de Agostinho Neto e calcinados no de José Eduardo dos Santos) e impedem, com apoio político, é claro, a existência de órgãos de soberania, fortes e independentes, capazes de escrutinar e responsabilizar actos governativos, considerados como crimes económico-financeiros.

Isso porque os caprichos pessoais não podem, não devem, continuar a suplantar, a necessária responsabilização dos governantes, sempre que andarem em sentido contrário, a uma correcta e criteriosa gestão dos parcos recursos financeiros, como a de gastar, por vaidade umbilical, 30 milhões de euros, para tirar das notas a face de um considerado “corrupto”, deixando a de outro considerado “assassino”, aumentando a ofensa contra a maioria de angolanos que já não se revê, em falsos heróis.

A corrupção apenas mudou de cor, aprimorando, com verniz opaco, os métodos de rapinagem, como no caso vertente, de alegadamente, ter havido a incorporação de uma comissão, avaliada em 4 (quatro) milhões e 500 mil euros, no contrato directo para a feitura das novas notas “netoianas”.

Senhor Presidente, a sua equipa, principalmente a do jardim infantil, no MPLA e gabinete executivo, vai continuar a bater-lhe palmas, pela frente, ufanando, vitória sobre “o gajo, o corrupto-marimbondo-mor” (pese ser presidente emérito do MPLA, um verdadeiro contra-senso, além de violação ao código de disciplina do partido) e ditador”, tirado das notas, numa vitória de Pirro, por ser mais uma de tantas borradas que lhe impingem, com resultados desastrosos e comprometedoras para o seu futuro político.

Não se iluda, a turma silenciosa do pescoço elástico: “yes man” (sim, camarada presidente), pode não ser muito confiável, vai abandoná-lo, na primeira esquina e, apunhalá-lo, na segunda, quando achar necessário, com base na experiência do passado recente…

Esta é a visão de um crítico, que lhe antecipa sobre a tempestade que se avizinha, na direcção em que tem a embarcação. Ajuste a bússola! Mude de rumo, para bem do seu consulado! São muitos silêncios, acumulados nas nuvens, sem iCloud…

Senhor Presidente, quando uma liderança se confunde com autoritarismo, ela resvala para a sarjeta do totalitarismo, militarismo, fascismo e outros ismos ditatoriais, que esmagam a sapiência académica e profissional, despreza a humildade, promove a intolerância e afunda o país, por isso, muitos intelectuais, em momentos de crise, não se esquecem do pensamento controverso do filósofo e escritor francês, François – Marie Arouet, mais conhecido por Voltaire (1694-1778), século XVIII, enquanto reformador da liberdade de imprensa, da tolerância religiosa, da tributação proporcional e da redução dos privilégios da nobreza e do clero, que dizia haver duas classes de ladrões: o comum e o político.

O ladrão comum te escolhe, para roubar, enquanto o ladrão político é escolhido por você, em eleições, para te roubar…

O ladrão comum rouba a tua carteira, a botija de gás, o celular, o fio de ouro, a bicicleta ou o carro, para ludibriar a falta de educação, oportunidade e emprego.

O ladrão político rouba o teu futuro, o teu conhecimento, os teus sonhos, a tua saúde, a tua educação, o teu salário, as tuas forças, o teu sorriso, paradoxalmente, através da legitimidade conquistada nas urnas.

Uma grande diferença entre estas duas classes de ladrões é de o ladrão comum ter sempre a polícia no seu encalço e a intolerância e discriminação do poder judicial, quando julgado, enquanto os ladrões políticos, são protegidos pela corporação policial e obtêm a benevolência e tolerância dos juízes, muitos alimentados, sub-repticiamente, com dinheiro de sangue.

Posto isso, urge questionar; será um crime de lesa pátria, um cidadão, com personalidade jurídica, ao abrigo da Constituição, no pleno gozo dos seus direitos e deveres fundamentais, encontrar semelhanças com a nossa realidade?