Oradores da Web Summit de Portugal vão participar no Fórum e Exposição Global de Tecnologias de Informação e de Comunicação, ANGOTIC 2020, que decorre de 11 a 13 de Junho, em Luanda, anunciou hoje a organização. Por outro lado, o Governo considerou que a entrada de novos prestadores de serviços das telecomunicações vai concorrer para a “melhoria dos serviços” prestados e trará um “impacto significativo sobre os custos” dos atuais serviços no país. Satisfeitos continuam os 20 milhões de pobres que a todo o momento vão anunciar que já conseguem viver sem… comer.

Segundo o secretário de Estado para as Tecnologias de Informação de Angola, Manuel Homem, além de palestrantes da cimeira tecnológica Web Summit em alguns painéis, o ANGOTIC 2020 global tem igualmente confirmado “participação considerável” dos países da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC).

O governante, que falava hoje, em Luanda, durante a conferência de lançamento da terceira edição do ANGOTIC 2020 deu conta também que representantes da União Internacional das Telecomunicações marcarão presença no evento.

“Isto surge no âmbito das parcerias com outros eventos internacionais com vista à internacionalização do ANGOTIC”, afirmou o governante, adiantando que a nível nacional a primazia será para oradores do interior de Angola.

Por seu lado, Emília Dias, administradora da Infrasat, unidade de negócios da Angola Telecom, apontou para a necessidade do surgimento de mais ‘start-ups’, empresas emergentes, durante o Fórum, que este ano vai criar um centro de investimentos.

De acordo com a responsável, o centro de investimentos ANGOTIC 2020 vai permitir que empresários façam pequenos financiamentos a projectos tecnológicos de ‘start-ups’ que poderão ser implementados em grandes empresas interessadas.

“Haverá também a parte de um centro de apoio ao empreendedor, em que o mesmo vem com a ideia e todo o processo da criação e legalização, e um centro de formação com formações mais técnicas na área da robótica e programação”, assegurou.

Este ano o Fórum e Exposição Global de Tecnologias de Informação e de Comunicação vai decorrer na Zona Económica Especial Luanda-Bengo, localizada no município de Viana, sul da capital angolana. O evento deve congregar mais de 10.000 participantes, entre nacionais e estrangeiros.

Novos prestadores de serviços das telecomunicações

Por outro lado, o Governo considerou hoje que a entrada de novos prestadores de serviços das telecomunicações vai concorrer para a “melhoria dos serviços” prestados e trará um “impacto significativo sobre os custos” dos actuais serviços no país.

“Os preços são conhecidos, todos temos acesso aos serviços das telecomunicações, é verdade que precisamos de continuar a trabalhar para criar um preço adequado ao custo do investimento que é feito nas telecomunicações”, disse Manuel Homem.

Sem comentar o anúncio sobre a libanesa Africell, seleccionada pelo Governo angolano para se tornar a quarta operadora de telecomunicações no país, Manuel Homem sublinhou apenas que a entrada de novos operadores vai “melhorar o espectro das telecomunicações e isto terá um impacto significativo sobre o custo”.

A libanesa Africell foi a candidata seleccionada pelo Governo angolano para apresentar uma proposta que visa a atribuição de uma licença para se tornar a quarta operadora de telecomunicações em Angola, conforme foi anunciado na segunda-feira.

Segundo o Grupo de Trabalho Interministerial – constituído pelos ministros das Finanças, das Telecomunicações e Tecnologias de Informação e da Economia e Planeamento – três empresas requereram peças do concurso (a MTN da África do Sul, a Africell Holding SAL do Líbano e o BAI Investimentos de Angola), mas só a libanesa formalizou a candidatura.

Actualmente, Angola conta com três operadoras, com a Unitel a liderar o mercado, com cerca de 80% de quota, à frente da Movicel, com um peso de cerca de 20% e a Angola Telecom (empresa estatal em processo de privatização) com uma posição residual.

Em relação aos temas que serão abordados nas 40 sessões do ANGOTIC 2020, Manuel Homem sublinhou a necessidade da literacia sobre a ciber-segurança, afirmando tratar-se de um problema mundial no contexto da utilização das novas tecnologias.

“Mas, para que possamos ter um ecossistema de ciber-segurança eficaz, é fundamental formarmos as pessoas, falarmos sobre a literacia. Este ano vamos ter um foco voltado para a literacia, mas também sobre as soluções de ciber-segurança”, indicou.

As cidades inteligentes, a ciber-segurança, o impacto das tecnologias de informação e comunicação na educação, “start-ups” tecnológicas e incubadoras, a regulação, transformações do 5G são outros temas que serão discutidos no encontro por especialistas angolanos e estrangeiros.

Questionado sobre o actual estado das tecnologias de informação e comunicação, o governante fez saber que Angola conta com uma rede de fibra óptica que cobre 22.000 quilómetros do país.

“Temos infra-estruturas necessárias para suportar a qualidade dos serviços de telecomunicações de que o país precisa”, adiantou, admitindo, no entanto, “não ser ainda o desejável”, pelo que o Governo “continua a fazer todos os investimentos que se julgam necessários”.

O Angosat, o espelho do MPLA

Dezembro de 2017. As autoridades do MPLA asseguravam que o primeiro satélite angolano, acabado de lançar, estava sob controlo, ao contrário de notícias indicando que a Rússia havia perdido o contacto com o aparelho. Ou seja, o Governo desmentia o que não fora dito e, involuntariamente, confirmava o que foi dito.

Na altura, nenhuma notícia, como se pode verificar abundantemente (aqui no Folha 8 por exemplo), dizia que as autoridades russas perderam o controlo sobre o satélite. Quanto a perder o contacto, o que é – pensamos – diferente de perder o controlo, a própria Corporação Estatal de Actividades Espaciais Roscosmos, órgão governamental responsável pelo programa de ciência espacial e pesquisa geral aeroespacial da Rússia, confirmava essa “dificuldade”, afirmando que “tudo indica que será um problema transitório”.

Em declarações no dia 27 de Dezembro de 2017 no final do Conselho de Ministros, o secretário de Estado para as Tecnologias de Informação, Manuel Homem, rejeitou que existissem problemas nos contactos com o satélite, cumprindo-se o que estava previsto.

Manuel Homem mostrou, claramente, que não sabia do que falava e, como habitual, não falava do que sabia. O que estava previsto era que o Angosat, depois de entrar em órbita, começasse a transmitir dados. E isso não aconteceu, o que levou os técnicos a falar de perda da telemetria.

“O contacto cessou temporariamente, perdemos a telemetria”, indicou fonte do cosmódromo à agência France Presse, dizendo esperar restabelecer o contacto com o satélite.

Manuel Homem perdeu igualmente a “telemetria” do MPLA/Governo, esquecendo-se que não estava a, supostamente, desmentir a KCNA (Korean Central News Agency) mas sim a France Presse.

Ora, segundo o governante angolano, o que “aconteceu é que de facto o lançamento do satélite ocorreu. O satélite fez o seu percurso normal, está na órbita para o qual foi planificado” e “temos sob controlo o satélite”, disse Manuel Homem, citado pela agência noticiosa angolana Angop, infelizmente ainda uma versão (apesar de tudo de melhor qualidade) da KCNA.

Manuel Homem remeteu para mais tarde mais informações oficiais sobre o estado do aparelho. Como? Estado do satélite? Então se estava tudo normal e como previsto, o que haveria a dizer sobre o estado do Angosat?

Na mesma altura o ministro das Telecomunicações e Tecnologias de Informação, José Carvalho da Rocha, disse que 40% da capacidade comercial do satélite já está reservada e que o Estado angolano estima a recuperação do investimento em pelo menos dois anos.

O ANGOTIC do contentamento… deles

A 18 de Junho de 2019, o vice-presidente angolano, Bornito de Sousa, afirmou, em Luanda, que os investimentos feitos por Angola nas telecomunicações vão continuar “fortes” e que já constituem uma “referência” na África subsaariana.

Bornito de Sousa discursava na abertura do Fórum Internacional de Tecnologias de Informação, ANGOTIC Angola 2019, em representação do chefe de Estado, João Lourenço, cuja presença estava prevista, acabando por ser alterada à última hora.

Segundo Bornito de Sousa, o Governo angolano tem em curso um vasto programa de modernização no quadro das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC), investimento que vai permitir, em breve, a chegada do “5G”, após a consolidação do “3G” e do “4G”.

“Vamos continuar a investir na infra-estrutura de banda larga, através da fibra óptica, em Abril a Angola Cables completou o cabo submarino entre Cabo Ledo [130 quilómetros a sul de Luanda] e Fortaleza [Brasil], com ligação a Miami [Estados Unidos da América], a cobertura de satélite [a Airbus está a construir o Angosat-3]. Estamos a melhorar o mundo digital em Angola”, afirmou Bornito de Sousa.

A intenção, prosseguiu, é tornar Angola uma “plataforma da modernização tecnológica no continente africano”, à semelhança do que está a ser feito no Ruanda, com as políticas de inclusão tecnológica do Presidente ruandês, Paul Kagamé.

“Estamos a criar parques tecnológicos, a promover a investigação científica, já criamos o SETI, um programa de modernização administrativa destinado a eliminar burocracia, e a massificar o uso da Internet nas escolas e nos espaços públicos”, sublinhou, destacando o polo importante da ciber-segurança, que está no centro das preocupações da estratégia do executivo angolano.

Segundo o porta-voz do ANGOTIC Angola 2019, António Sousa Simbo, assessor de imprensa do Ministério das Telecomunicações, o fórum reuniu em Luanda representantes das principais empresas mundiais do sector, agentes da indústria de “todo o ecossistema das TIC, num total de 8.000 participantes”.

Satélite no ar, fome na (nossa) terra

O Governo do MPLA (o único que os angolanos conhecerem desde 1975) não está com meias medidas e promete acabar com os 20 milhões de pobres. Ou melhor, promete o lançamento de satélites de teledetecção remota no âmbito do programa de Estratégia Espacial até 2025 que tinha como ponto central o lançamento do satélite AngoSat-1.

Segundo o documento, esta estratégia prevê o estudo da viabilidade da construção e lançamento de satélites de teledetecção remota, para observação da terra e meteorologia, por parte do Governo, entre 2019 e 2025. Em complemento, uma das estratégias constantes do programa espacial angolano implicaria ainda a construção de estações terrestres para recepção directa de imagens de satélite.

Outras estratégias a implementar até 2025 prevêem a implementação de um sistema de informação geográfica, um programa de observação da terra através de imagens de satélite, um sistema nacional de comunicações por satélite e o lançamento do AngoSat-1.

“A estratégia especial permitirá à República de Angola construir um edifício ambicioso e sustentável como instrumento do seu progresso socioeconómico e de afirmação internacional, cumprindo deste modo, de forma eficaz e inovadora, os propósitos estratégicos gerais e sectoriais do país”, lê-se no documento.

O AngoSat-1 iria – disse o ministro José Carvalho da Rocha – “não só prestar serviços à população, como a toda a região, e também provocar uma revolução no mundo académico angolano, com a transferência de conhecimento”.

“O satélite vai cobrir todo o continente africano e uma parte da Europa. Nós vamos ter capacidade para servir as nossas necessidades e prestar serviços a outros países da região de cobertura do AngoSat. Temos que procurar aqueles projectos que possam trazer divisas para o nosso país”, explicou o ministro.

Ao contrário do que pensavam os angolanos, o satélite e projectos similares não vai trazer comida, nem medicamentos, nem casas, nem escolas, nem respeito pelos direitos humanos. Importa, contudo, compreender que há prioridades bem mais relevantes. E o satélite é uma delas.

“Este Satélite é o primeiro e marca a entrada de Angola numa nova era das telecomunicações, o que pressupõe a condução de um programa espacial que inclua, futuramente, o lançamento de satélites subsequentes,” referiu em 2012 o então coordenador do projecto, Aristides Safeca.

Ao que tudo indica, com esta estratégia espacial o nosso país deixará de ter 68% da população afectada pela pobreza, ou uma das mais altas taxas de mortalidade infantil no mundo.

Será também graças à estratégia espacial que não mais se dirá que apenas um quarto da população tem acesso a serviços de saúde, que, na maior parte dos casos, são de fraca qualidade, ou que 12% dos hospitais, 11% dos centros de saúde e 85% dos postos de saúde existentes no país apresentam problemas ao nível das instalações, da falta de pessoal e de carência de medicamentos.

Do mesmo modo, com a estratégia espacial do Governo não mais se afirmará que a taxa de analfabetos é bastante elevada, especialmente entre as mulheres, uma situação agravada pelo grande número de crianças e jovens que todos os anos ficam fora do sistema de ensino. Ou que 45% das crianças sofrerem de má nutrição crónica, sendo que uma em cada quatro (25%) morre antes de atingir os cinco anos.

Folha 8 com Lusa