A UNITA, o maior partido da oposição que o MPLA ainda permite que exista em Angola, exprimiu hoje inquietação face ao elevado custo de vida no país, com os salários afectados pela “galopante e imparável inflação”, sem soluções apresentadas pelo Governo. Novidade? Nenhuma. Mais do mesmo? Não exactamente. No caso o Galo Negro quer trocar seis por… meia dúzia.

A posição é expressa no comunicado final da reunião do conselho da presidência e da segunda reunião ordinária do comité permanente da comissão política, realizadas na segunda e terça-feira, respectivamente.

No documento, a UNITA realça igualmente os crescentes níveis de desemprego que afecta principalmente jovens, que “tornam insuportável a situação de numerosas famílias, que sobrevivem da informalidade económica”.

Brilhantemente, como é normal a um partido que depois de 2002 não… nem sai de cima, insta o Governo a considerar a retoma da normalidade de todos os sectores da vida do país, acompanhada da prática rigorosa das medidas de biossegurança face à pandemia de Covid-19, que passam pela educação dos cidadãos.

Uma reflexão sobre a real eficácia da manutenção da cerca sanitária de Luanda, “que provou estar na base da aceleração da falência de muitas empresas, do aumento do desemprego e da instabilidade social”, é também um ponto que a UNITA pede ao Governo para ter em consideração. Pede com a humildade própria de quem tem medo. Muito medo. Medo compreensível, acrescente-se. Como dizia Jonas Savimbi, para se falar de paz é preciso ter força para fazer a guerra. Ora, nesta altura, a UNITA só tem força para fazer o que o MPLA quer.

No que se refere ao capítulo político, a UNITA lamentou e condenou a estagnação da agenda política do país e o adiamento pelo MPLA, partido no poder há 45 anos, da institucionalização das autarquias locais, cujas primeiras eleições estavam previstas para este ano e que, como outras, terão lugar (se tiverem) quando o MPLA quiser.

“Reiterar que as autarquias locais em todo o território nacional são uma pedra angular indispensável para o lançamento das bases de construção da nação angolana”, lê-se na nota, que considera também urgente a conclusão do pacote legislativo autárquico, com a aprovação da lei que institucionaliza as autarquias locais em Angola.

A nível interno, os membros daqueles dois órgãos do partido exortaram o aprimoramento das medidas permanentes da consolidação da unidade do partido e da coesão da sua liderança, “a fim de guindar a UNITA à conclusão do amplo movimento democrático para a alternância que a maioria dos angolanos tanto anseiam”.

“Encorajar o presidente do partido, Adalberto da Costa Júnior, a persistir na senda do diálogo patriótico com o Presidente da República para o alcance dos consensos necessários para a viabilização de Angola como Estado e nação em construção, que beneficie todos os seus filhos”, destaca o comunicado.

Bem dito. Diálogo patriótico nunca esquecendo que o MPLA é Angola e que Angola é do MPLA. Savimbi bem disse que “vocês estão a dormir e MPLA está a enganar-vos”. Mas, pelos vistos, a lagosta faz com que os dirigentes da UNITA gostem de ser enganados. E como gostos não se discutem…

Sobre a situação social, a UNITA questiona a eficácia das medidas de gestão da pandemia de Covid-19 pelos órgãos instituídos, “que se têm revelado insuficientes para a contenção da propagação do vírus pelo país”.

A realização de testes massivos às comunidades e a urgente necessidade de ultrapassar as restrições colocadas “por interesses meramente comerciais”, bem como acabar com a exclusividade do Ministério da Saúde na realização de testes da Covid-19 “a preços escandalosos e inacessíveis para a esmagadora maioria da população” foram também recomendações da organização política.

A UNITA diagnostica com alguma precisão, reconheça-se, a enfermidade de um doente que, por exemplo, tenha Covid-19. Mas quando toca a ministrar a medicação… fecha os olhos e especta a injecção no doente ao lado que ali está a tratar uma bitacaia.

Chamar os jornalistas para lhes dizer o que eles já sabem, chamá-los para que o MPLA saiba que a UNITA assim pensa, foi, é e será gozar com a chipala do pessoal. O regime está-se nas tintas para a UNITA e, como acontece crescentemente desde 2002, os angolanos também. É que o Galo Negro só cacareja. Não age, apenas (e quando o rei faz anos) reage.

As teses de Adalberto da Costa Júnior, tal como as de Isaías Samakuva, apesar de correctas, são ineficazes. Os angolanos continuam sem saber se qualquer reflexão que ultrapasse o círculo de bajuladores (é tal e qual o que se passava com Eduardo dos Santos e agora se passa com João Lourenço) serve para acordar aqueles que sobrevivem com mandioca ou, pelo contrário, apenas se destinam a untar o umbigo dos que se banqueteiam com lagostas em Luanda.

Perante os sucessivos desastres eleitorais, a UNITA continua a querer ir de derrota em derrota até à…. derrota final. Limita-se a posições cosméticas para tudo ficar na mesma. Não percebe, afinal, que a UNITA enquanto principal partido da Oposição está em cima de um tapete rolante que anda para trás. Por isso limita-se a andar. E, é claro, fica com a sensação de estar a ganhar terreno mas, no final de contas, está sempre no mesmo sítio.

Adalberto da Costa Júnior é o líder que os militantes queriam. No entanto não está a ser a alternativa que os angolanos gostavam de ter. Longe disso. Ao contrário de Jonas Savimbi que, mesmo errando muitas vezes, agia, Adalberto limita-se a reagir. Em vez de entender a mensagem, manda “abater” o mensageiro.

Alguém sabe se a UNITA vai conseguir viver sem comer? UNITA no sentido dos homens e mulheres que tinham orgulho no Galo Negro que transportavam no peito. Um dia destes o MPLA virá dizer, com uma lágrima no canto do olho (sorridente) que exactamente quando estava mesmo, mesmo quase a saber viver sem comer, a UNITA morreu.

A UNITA, e nisto foi até agora igual ao MPLA, prefere ser assassinada pelo elogio do que salva pela crítica. E quando assim é… não há memória que a salve, nem mesmo a do Mais Velho.

Folha 8 com Lusa