O Sindicato Nacional dos Médicos de Angola (Sinmea) ameaçou hoje partir para uma greve, nos próximos dias, caso não haja resposta do Presidente da República, a quem foi enviado um manifesto da classe médica angolana. Não deveriam também ter enviado o manifesto ao Presidente do MPLA e ao Titular do Poder Executivo?

O presidente do Sinmea, Adriano Esteves, disse em conferência de imprensa que o sindicato está preocupado com o elevado número de médicos angolanos no desemprego, “o elevado índice de morbimortalidade” (relação entre doenças e mortes) nos hospitais e a falta de condições de trabalho.

Segundo Adriano Esteves, a exiguidade de médicos especialistas no país é também outra preocupação, bem como a criação de um sistema de saúde primário eficiente em Angola.

“Queremos manifestar o nosso descontentamento pelo facto de ainda termos médicos desempregados e o sindicato vai continuar a lutar no sentido de melhorarmos cada vez mais a prestação de serviço no nosso país”, referiu.

O dirigente sindical frisou que o Sinmea está a contar com todos os médicos, para “encontrar os melhores caminhos para diminuir o elevado índice de mortalidade e morbilidade no país”.

“Nós não vamos descansar, enquanto sindicalistas, enquanto a população de Angola não tiver as mesmas oportunidades, precisamos que cada um, seja rico ou pobre, tenha as mesmas possibilidades e não é o que observamos no nosso país”, vincou num gesto de santificada ingenuidade sobre uma realidade cuja cura é uma miragem há 45 anos.

O sindicalista salientou que o país tem actualmente no activo apenas 8.000 médicos, para uma necessidade de pelo menos 30.000 profissionais. Mas, contudo, continua a liderar o ranking da corrupção com duas características “sui generis”: Tem o maior número de corruptos por metro quadrado e são todos do… MPLA.

Por sua vez, a vice-presidente do Sinmea, Domingas Matos, apontou que apesar das várias reclamações e apelos feitos pelo sindicato não há qualquer resposta das autoridades governamentais. Compreende-se que os membros do Governo ainda não tenham tido tempo para entender as reclamações. Talvez tenham lido, mas como há uma substancial diferença entre ler e entender, devem estar à espera de um tradutor cubano.

“É nesta ordem, que não temos outra saída se não partirmos para as nossas acções reivindicativas, só não partimos para uma greve neste período devido à situação que o país e o mundo vive, estamos em situação de calamidade pública e juridicamente não é permitida a greve neste período”, disse a sindicalista. Acresce, recorde-se, que e qualquer atitude que desagrade ao Presidente da República (ou aos seus auxiliares directos que têm o cérebro nos intestinos) pode significar um atentado contra a segurança de Estado, crime que tem uma moldura penal máxima de obrigatoriedade de um processo de reeducação dado por jacarés famintos.

Contudo, prosseguiu: “Tão logo se levante este período, nós o sindicato partiremos para uma, duas, três, quatro, quantas greves forem necessárias para que sejamos ouvidos, para que os nossos documentos e os nossos pedidos sejam olhados com o merecer que se impõe e sejamos atendidos”.

Domingas Matos assegurou que, apesar da situação de calamidade, o sindicato não vai cruzar os braços e, embora não seja possível uma paralisação, há actividades que podem ser realizadas para fazer ouvir as suas vozes.

“A princípio começaremos por manifestações, faremos quantas forem necessárias e, se nos próximos 15 dias as respostas de tudo o que já foi apresentado não forem dadas, então daí mesmo o conselho nacional do sindicato vai reunir para sacar todas as actividades reivindicativas que sejam juridicamente aceitáveis nesta situação”, adiantou. E que tal, por exemplo, pedir a solidariedade dos colegas cubanos?

O sindicato apresentou, em 2018, um caderno reivindicativo ao Ministério da Saúde, dirigiu em Setembro de 2019 a todas as comissões de especialidade da Assembleia Nacional um manifesto, ambos (obviamente) sem resposta, e no dia 3 deste mês enviou uma carta ao Presidente da República, aguardando até ao momento por um pronunciamento. A missiva deve estar, e bem, em período de quarentena, pelo que se prevê que possa ter uma resposta nos próximos… 55 anos.

Já o responsável sindical de Luanda, Miguel Sebastião, lembrou que em Dezembro de 2019, o Ministério da Saúde realizou um concurso público, cujas listas finais foram publicadas este mês, seis meses depois, tendo inscritos 1.400 médicos para 1.200 vagas.

Miguel Sebastião sublinhou que Angola é um país com “carência gritante de médicos”, questionando-se como podem estar no desemprego 2.500 profissionais. Importa relembrar que, como muito bem sabe o Presidente da República, um médico cubano – por exemplo – vale 100 vez mais do que um seu colega angolano.

Não nos esqueçamos que o ministro de Estado e chefe da Casa de Segurança do Presidente da República, general Pedro Sebastião, disse no passado dia 9, em Luanda, que são os médicos cubanos que têm assegurado nas zonas mais recônditas do país, os serviços de saúde.

“Se nós olharmos para o país real que nós somos, olharmos ali onde o sol mais castiga, quem são os médicos que lá estão? Com todo o respeito que temos da classe, mas nós vamos encontrar aí, em municípios que todos nós conhecemos, esses médicos a emprestarem todo o seu profissionalismo, toda a sua entrega, dedicação, para minimizar os problemas por que nós vivemos hoje, com dificuldades de colocar profissionais da saúde em quantidade e qualidade nesses pontos”, frisou o general num manifesto, inequívoco e arrasador atestado de incompetência e falta de patriotismo aos nossos médicos.

Miguel Sebastião (o médico) realçou que no meio do concurso público Angola recebeu mais de 200 médicos provenientes de Cuba, colegas formados pelo Estado, que no regresso ao país se encontram “pura e simplesmente abandonados”.

“Até que ponto estamos a valorizar os quadros nacionais, formados no estrangeiro, que voltam ao país?”, questionou o sindicalista, notando que o médico formado no estrangeiro chega e “é abandonado” e o “colega com quem estudou, na mesma sala” chega a Angola “e directamente tem direito ao emprego”.

“Onde está o patriotismo deste país?”, perguntou Miguel Sebastião, referindo-se aos médicos importados de Cuba em detrimento aos angolanos formados no mesmo país.

De acordo com Sebastião (não o Pedro mas o Miguel), a situação dos médicos é a mesma para os enfermeiros e técnicos de diagnóstico.

Folha 8 com Lusa