O Presidente português, Marcelo Rebelo de Sousa (o tal que felicitou João Lourenço pela vitória mesmo antes de os resultados oficiais terem sido divulgados), afirmou hoje que na relação entre Portugal e Angola só há “boas notícias” e foram essas que marcaram a agenda de um encontro de quase uma hora com o seu homólogo angolano, João Lourenço.

Questionado pelos jornalistas, o Presidente português negou que os dois tenham discutido eventuais implicações do arresto movido pela Procuradoria-Geral da República (PGR) angolana das contas e participações da empresária angolana Isabel dos Santos, que detém interesses em Portugal.

“É uma temática alheia àquilo que tratámos hoje, não me vou pronunciar sobre ela”, referiu após o encontro, à saída do qual o Presidente angolano, João Lourenço, não prestou declarações.

Marcelo disse que “o encontro correu muito bem” e que só houve matérias “sensíveis” no bom sentido da palavra, ou seja, acerca “das boas notícias que há”. E, de facto, há tantas. Portugal considera boas notícias todas as que o MPLA entende que são boas. Já era assim entre Marcelo Rebelo de Sousa e José Eduardo dos Santos, e assim será agora.

“É um momento único em termos políticos, diplomáticos, económicos, financeiros. Um momento em que verdadeiramente só há boas notícias, ou quase ou a caminho”, referiu, relegando para as declarações dos ministros dos Negócios Estrangeiros quaisquer detalhes.

Os dois chefes de Estado participaram hoje em Maputo, durante a manhã, na tomada de posse do Presidente moçambicano, Filipe Nyusi, para um segundo mandato.

Durante a tarde, encontraram-se num hotel da capital, primeiro apenas os dois, durante cerca de meia hora, entrando depois o resto das delegações de cada país – incluindo os respectivos sipaios/chefes da diplomacia – para a continuação da reunião.

“As relações bilaterais são excelentes”, descreveu o ministro dos Negócios Estrangeiros português, Augusto Santos Silva (foi sé repetir o que dizia quando estava com Eduardo dos Santos), até para as empresas portuguesas, com “expectativa positiva de participar na agenda de desenvolvimento e no plano de privatizações” de Angola.

Questionado também sobre se foram discutidas questões de justiça, o governante português limitou-se a dizer que foram tratadas “questões que são dos executivos”, sem detalhes.

Santos Silva acrescentou que “as relações político-diplomáticas entre os dois países não podiam ser melhores”.

“As relações económicas entre Portugal e Angola são crescentes, estão muito sólidas e assim vão continuar. Quanto mais sólidas forem as suas bases, mais as relações se desenvolvem e não há que ter nenhum receio nesse propósito”, concluiu.

Manuel Augusto, ministro das Relações Exteriores de Angola, acrescentou que os dois países estão a “beneficiar da troca de visitas ao mais alto nível, em especial no ano passado, e do ambiente que estas visitas criaram”.

O Tribunal Provincial de Luanda anunciou em 30 de Dezembro que decretou o arresto preventivo de contas bancárias pessoais de Isabel dos Santos – filha do antigo Presidente de Angola José Eduardo dos Santos -, do marido, Sindika Dokolo, e do português Mário da Silva, além de nove empresas nas quais a filha do antigo Presidente angolano detém participações sociais.

Em Portugal, Isabel dos Santos detém participações em Portugal em sectores como a energia (Galp e Efacec), telecomunicações (NOS) e banca (EuroBic).

Na sequência do anúncio da decisão do tribunal, a empresária afirmou que nunca foi notificada ou ouvida no âmbito no inquérito que levou ao arresto das suas contas em Angola, negando as acusações em que é visada num processo que afirma ser “politicamente motivado”.

Recorde-se que Augusto Santos Silva assegurou no passado dia 6 que a cooperação entre Portugal e Angola “estende-se a todos os domínios” e “está a funcionar”. Hoje repetiu. Os sipaios dizem sempre o que o chefe do posto (seja ele quem for) quer ouvir. Ontem era José Eduardo dos Santos, hoje é João Lourenço. Ontem era Santos Silva, hoje é… Santos Silva.

Augusto Santos Silva falava à imprensa à margem do Seminário Diplomático, que decorreu em Lisboa, e respondia a uma pergunta sobre a disposição de Portugal para colaborar com o processo de arresto de bens lançado pelo Presidente angolano (via sucursal para a justiça) a Isabel dos Santos.

“Nós hoje cooperamos com Angola em todos os domínios: político, diplomático, político-militar, educativo, cultural, económico. E também há cooperação entre as duas administrações fiscais e entre as autoridades judiciárias”, disse o ministro socialista português.

Paralelamente ao facto de, como fez a troika, a Europa ter decidido, e bem, acabar com os intermediários, o que a levou durante anos a debater com Isabel dos Santos a resolução dos problemas de Portugal, os ministros lusos vêm regularmente a despacho (“resolução de autoridade superior sobre pretensões ou negócios”) com sua majestade o rei angolano. Antes era com José de Eduardo dos Santos, agora é com João Lourenço.

É isso que o sipaio servil e bajulador ministro português dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, faz com Angola. E, sem meias palavras, o perito dos peritos lusos disse em Fevereiro de 2017: “O presidente José Eduardo dos Santos mandatou-nos a nós para acertarmos a data da visita do primeiro-ministro português a Luanda”.

Ora aí está. O ministro Santos Silva fora, finalmente, mandatado por quem manda (também) no seu país para tratar da agenda do bajulador-mor, o primeiro-ministro António Costa.

Embora estas vindas a despacho não sejam novidade, pelo contrário, foi a primeira vez que um ministro português reconheceu que foi mandatado pelo presidente de um outro país. O respeitinho (e a subserviência) é muito bonito e sua majestade o rei José Eduardo dos Santos gostava. E, como qualquer outro rei, João Lourenço também gosta. E para Portugal o que conta é estar sempre com quem está no Poder.

Folha 8 com Lusa

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