Em memória das vítimas do 27 de Maio de 1977, aquelas sem a sublime voz de indignação, mas com história, dignidade e exemplos de verticalidade, nacionalismo e patriotismo, recuso-me consciente e determinadamente a engrossar, mesmo no aplauso, a comissão criada pelo ministro da Justiça e dos Direitos Humanos, para analisar os conflitos armados.

Por William Tonet

Primeiro, em se tratando da vida humana, a verdade impõe rigor, respeito e imparcialidade, ao que parece, ausente da partidocracia mental do proponente.

O 27 de Maio de 1977, não foi um conflito armado!

O 27 de Maio foi um dos maiores GENOCÍDIOS, depois da II Guerra Mundial, a sul do Sahara!

Dura lex sede lex!

O ministro de um pelouro com “Direitos Humanos” na epígrafe, está proibido, em nome da Declaração Universal dos Direitos Humanos, de confundir focinho de porco com tomada eléctrica, pese as semelhanças dos orifícios.

Branquear a morte de muitos milhares de inocentes, não é simples presunção, mas a violação grosseira e criminosa de todos os factos, ainda frescos no nosso disco duro mental.

É preciso que o ministro, independentemente da pressão ideológica, se respeite como jurista, seja “escravo” da Ciência do Direito e não pense que todos somos matumbos.

Continuando submisso à mentira partidocrata de branquear a verdade, nunca terá o meu respeito, não só por, conscientemente, aceitar o desvio da norma jurídica, como aceitar fugir à verdade para manter as mordomias, enquanto ministro.

A vida humana vale muito…

O 27 de Maio tem um valor indescritível na memória de milhões, que propaganda alguma conseguirá apagar…

E, ainda que uns poucos, o aplaudam, a maioria, em respeito aos milhares de camaradas selvaticamente assassinados, já se habituou a viver com honra e dignidade, mesmo com as migalhas.

Quero encontrar o Joy.

Onde andas?

Se me estás a ler ou o Nzunzi Dya Ngana liga-me no off.

Joy era um menino, tinha 12 anos, doze anos de idade, suplantou-me (17) e estava nas fedorentas masmorras da Casa da Reclusão. Foi protegido pelos kotas, muitos, dentre eles Makala Tonet e o Dya Ngana…

Felizmente conseguiu sobreviver ao não responder a três chamadas, por conselho dos mais velhos, que o poderiam levar à morte.

Formou-se em engenharia de petróleos e a última informação é de que estaria a trabalhar na SONANGOL.

É a história! Dói mas liberta!

Qualquer negociação séria, em memória das vítimas do 27 de Maio, que não peça PERDÃO, nem reconheça, de início, ter havido em 1977 um genocídio e um genocida, cujos crimes, quer à luz da Lei Constitucional do MPLA de 1975, emprestada à República Popular de Angola, como a do art.º 61.º da atípica Constituição (Fev. 2010), são imprescritíveis e insusceptíveis de amnistia, comete um novo crime, desonrando, ainda mais, a memória dos assassinados.

É da mais pura e abjecta sacanagem, tentar apagar a realidade!

PERDOAR SIM, ESQUECER NUNCA

Defendo o diálogo sério, que não desculpe nenhuma das partes, apenas trate de incluir a verdade, na agenda dos negociadores, para a competente aproximação dos dados e factos ocorridos, naquela data fatídica.

Perdão, sim, mas nos trilhos da VERDADE.

Perdoar ou negociar fingindo que o algoz ensinava as vítimas a ler a Bíblia é da mais vil heresia, pois os números são aterradores.

Uns defendem o assassinato de 80 mil.

O regime de 300 camaradas, outros, ainda, de 40 mil militantes, todos, exclusivamente, do MPLA, por crimes de delito de opinião.

Para o Direito, não importa, agora, tanto o número das vítimas, mas o que prescrevia a constituição e a lei à época. A de 10 de Novembro de 1975, aprovada exclusivamente pelo comité central do MPLA e assinada, igual e, exclusivamente, pelo presidente do MPLA, António Agostinho Neto, não previa a pena de morte, mas admitia a ampla defesa do acusado. Tendo-lhes sido, gratuitamente, retirado o direito de defesa, pelo bureau político do MPLA, ao instigar a “caça e morte aos assassinos fraccionistas”, e Agostinho Neto, numa poltrona baloiçando dito: “não vamos perder tempo com julgamentos”, ditaram o assassinato em larga escala, tornando-se no maior genocídio a sul do Sahara depois dos praticados por Adolf Hitler.

Ninguém pode esquecer, pelo menos os que trilharam as masmorras fedorentas da DISA, que os mercenários comiam bife ao matabicho (pequeno almoço) e tiveram direito a advogados de defesa, no seu julgamento, enquanto aos nossos camaradas lhes restou, contentarem-se com o cheiro nauseabundo de fezes e sangue dos camaradas, mortos, a todas as horas, todos os dias e todas as noites.

Porque razão, Diógenes Boavida (falecido), Manuel Rui Monteiro, jurista, Artur Pestana Pepetela, Luandino Vieira, escritores tendo conhecimento das leis e integrando a célebre Comissão das Lágrimas se recusaram a permitir, um direito consagrado, nada fazendo para Agostinho Neto, tal como o fez aos mercenários estrangeiros, autorizasse a ampla defesa e advogados aos seus antigos camaradas do movimento, que o salvaram, inclusive de uma derrota humilhante no Congresso de Lusaka de 1974, onde perdeu nas urnas para o primeiro presidente do MPLA, democraticamente eleito, Daniel Júlio Chipenda?

A sua continuidade à frente do MPLA apenas se deveu a uma estratégia de Nito Alves ao sugerir a sua retirada da sala no dia de votação, regresso a Brazzaville e envio de uma delegação a Luanda, onde as populações não sabiam do congresso em Lusaka.

Três anos depois, Neto nem sequer permitiu que fosse ouvido, num tribunal, em declarações, o homem, Nito Alves, que o havia salvo de uma saída sem honra, nem glória da liderança do MPLA.

É fácil esquecer isso?

Não!

Mas é possível perdoar.

Eu poderei perdoar ao meu algoz, o Cajó (Carlos Jorge), um dos maiores sanguinários da época, tal como o Pelinganga, Wadjimbi, Veloso, Moscovo e tantos outros, mas nunca esquecerei o que eles fizeram, masoquistamente.

É triste, mas é a realidade e, a ferida, só será capaz de sarar com o reconhecimento desta verdade histórica, que calcorreia nos arquivos mentais da maioria dos angolanos, que perdeu um ente-querido.

44 anos depois, o país precisa que sejamos coerentes e honestos para com a HISTÓRIA! As letras garrafais são propositadas para enfatizar, o mínimo que as almas dos nossos camaradas esperam dos sobreviventes…

Que honremos a sua memória.

Eles, seguramente, não fariam diferente, tanto assim é que a coerência os ceifou.

Sem ponto prévio, sem um claro pedido de perdão, recuso-me a ver alguns camaradas de infortúnio sentados com algozes, como se nada tivesse ocorrido, inclusive com a violação das leis, nacionais e internacionais.

Houve excesso gratuito.

Houve canibalismo!

Houve masoquismo!

O passado não volta, mas reconhecer o mal, nele praticado, torna leve a compreensão, esbate a raiva e o ódio, abrindo verdadeiras avenidas para o perdão, passando ainda um testemunho as gerações (presente e futura) de reconhecimento, respeito, humildade e magnanimidade.

Até isso não acontecer, continuarei, ainda que sozinho a reunir mais provas, para junto da Comissão Internacional das vítimas do Holocausto ver reconhecido os crimes do 27 de Maio de 1977, como de GENOCÍDIO.

Camaradas, juro-vos, jamais esquecerei a vossa bravura, patriotismo e convicção de verem realizado o sonho de uma Angola, justa capaz de orgulhar todos os seus filhos.

Honrarei sempre a vossa memória, ainda que alguns dos nossos consofredores, sob as mais diversas razões, uma das quais, o cansaço imposto pelos algozes prefiram claudicar…

Eu sou 270577 que quebra mas não verga a coluna vertebral.

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