Governo talvez comece
a governar lá para 2050

A Sonangol quer aumentar a produção nos blocos em que opera dos actuais 2% para 10% em 2027, o que significa um aumento de quase 100 mil barris por dia, anunciou a administração da petrolífera estatal angolana. Em matéria de perspectivas e de venda da banha de cobra, é previsível que o Governo do MPLA comece a governar em 2050 e, se assim for, em 2100 terá criado mais 500 mil novos empregos…

“Um dos principais objectivos é alcançar um número mínimo de 10% para produção própria operada pela Sonangol neste país”, anunciou o presidente do Conselho de Administração da empresa, Sebastião Pai Querido Gaspar Martins, em conferência de imprensa para assinalar o 44º aniversario da empresa que, ao longo da sua história, tem sido a galinha dos ovos de ouro do… MPLA.

Em 2027, acrescentou, a Sonangol ambiciona tornar-se “uma empresa de referência do sector petrolífero no continente africano”, alcançando os 10% de produção como operador do total de produção de Angola.

O presidente da comissão executiva da Sonangol, Ricardo Van-Deste, adiantou que actualmente a Sonangol é responsável apenas por 2% da produção, o que equivale a 27 mil barris por dia.

“Em 2027 queremos 125 mil barris de petróleo nos blocos onde a Sonangol opera hoje ou quer operar no futuro”, destacou o mesmo responsável.

Segundo Sebastião Pai Querido Gaspar Martins as áreas de exploração petrolífera em que a Sonangol está envolvida, através de acordos com concessionárias de blocos petrolíferos ou operando de forma autónoma representaram em 2019 uma produção estimada de 237 mil barris/dia, uma queda de 0,2 % face ao ano anterior, mas que representa hoje 17% da produção total de Angola.

Sebastião Pai Querido Gaspar Martins é um homem de palavra. Basta dizer que, como João Lourenço, teve também a confiança de José Eduardo dos Santos. Foi nomeado pela primeira vez para o Conselho de Administração da Sonangol, em 2010, na altura, presidido por Manuel Vicente, e na altura em que Manuel Nunes Júnior era ministro de Estado para a Coordenação Económica.

Governar ou falar? Falemos, diz o MPLA

Em Janeiro, a ministra das Finanças, Vera Daves, afirmou, em Davos, que é necessário “respeitar o trabalho dos órgãos judiciais” nos casos de alegada corrupção em Angola, lamentando que “apenas alguns” sejam mediáticos. Ainda mais lamentável é serem todos do… MPLA.

Questionada sobre se as acusações de corrupção relacionadas com os Luanda Leaks, Vera Daves disse, em declarações à Euronews em Davos, na Suíça, que as investigações “estão a acontecer a tantos níveis que é uma pena que apenas parte sejam mediáticas”. Tem razão. Se calhar seria bom descobrir uma outra zungueira que fosse mediática.

“Acho que temos de respeitar o trabalho dos órgãos judiciais e ver os resultados disso chegar à nossa sociedade, com uma normalização da forma como os negócios são geridos, da forma como os serviços públicos são providenciados, e a forma como os bens e serviços são entregues aos nossos cidadãos”, afirmou Vera Daves.

A ministra das Finanças, presente no fórum económico mundial de Davos, disse ser “claro” que parte da agenda do governo angolano é o combate à corrupção. Daí, reconheça-se, ainda não ter tido tempo para começar a governar, prevendo-se que o venha a fazer em 2050. Tem havido, acrescente-se, uma confusão “linguística” no seio do Executivo. É que os auxiliares do Titular do Poder Executivo (ministros e secretários) ainda não o informaram que, embora rimem, as palavras propagandear e governar têm significados diferentes.

Acresce que, parafraseando o Presidente João Lourenço, se “haver” necessidade podem comprar um dicionário e, mesmo tendo de se descalçar para contar até 12, descobrir as diferenças.

“Claro que parte da nossa agenda é lutar contra a corrupção, para todas as entidades, todas as empresas e para todas as pessoas. Todas as pessoas devem respeitar a lei”, afirmou a ministra, reconhecendo “alguns casos mais mediáticos do que outros”, mas omitindo – legitimamente – que todos (mediáticos ou não) pertencem ao partido que o governa o país há 44 anos, o MPLA.

A ministra manifestou o desejo de que quem actue em Angola, “como gestor público ou investidor privado”, deva “respeitar a lei”. Foi isso mesmo que fez durante décadas João Lourenço, respeitando a lei de José Eduardo dos Santos e, como vice-presidente do MPLA e ministro da Defesa, fazendo-a respeitar.

“Os órgãos judiciais estão a fazer o seu trabalho, assegurando que quem não respeitar a lei pague as consequências de não a respeitar”, disse a ministra. E se a titular da pasta das Finanças fala assim, o que não diria, ou dirá um dia destes, o ministro da Justiça e dos Direitos Humanos?

Vera Daves salientou ainda o objectivo de “manter o foco em criar as condições para a economia de Angola crescer de uma maneira inclusiva”. E se a titular da pasta das Finanças fala assim, o que não diria, ou dirá um dia destes, o ministro da Economia?

“Estamos num caminho de reconstruir a confiança de investidores nacionais e internacionais em Angola, na maneira como fazemos negócios, e na maneira como nos mostramos”, disse a ministra, acrescentando que estar em Davos é uma “oportunidade” para mostrar como Angola pretende “diversificar a economia, num modelo onde o petróleo contribui para se ver mais sectores a contribuir para o crescimento”.

Viajar, exonerar e propagandear (sem governar) ou propagandear, viajar e exonerar (sem governar) é há dois anos e meio o grande trunfo do “triunvirato” que comanda o país: Presidente do MPLA, Presidente da República e Titular do Poder Executivo. Como se isso não bastasse, nenhum deles (ou, já agora, os “três”) percebeu que em vez de serem uma solução para o nosso problema são, de facto, um (enorme) problema para a solução.

O Presidente da República colocou – por exemplo – o programa de reestruturação das Forças Armadas como uma prioridade do governo, dotando-as de “meios técnicos e equipamentos modernos” que permitam uma “permanente prontidão operacional”.

É mesmo uma espécie de rabo escondido com gato de fora. Antes que os militares lhe dissessem na cara que ele é que é o problema principal do país, João Lourenço acenou-lhes com mais uns milhões. Mais uma vez os militares vão comer e calar. O Presidente, general e ex-ministro da Defesa, sabe disso.

“Não obstante as limitações com que o país se debate em consequência de factores sobejamente conhecidos, aproveito esta ocasião festiva para reafirmar o propósito do Governo angolano no quadro do Programa de Reestruturação das FAA (Forças Armadas de Angola) em continuar a apetrechá-las com meios técnicos e equipamentos modernos que lhes permitam manter a sua permanente prontidão operacional”, reafirmou João Lourenço, numa mensagem de felicitação (com laivos de bajulação) a todas as patentes da instituição na comemoração dos seus 28 anos de existência.

O líder supremo das Forças Armadas de Angola destacou a formação de especialistas “a todos os níveis” e a melhoria das “condições de vida e de trabalho dos quadros de comando e chefia e das tropas em geral” como outros questões que vão “continuar no centro das prioridades dos órgãos competentes”.

Na mensagem, o chefe de Estado fez um breve resumo das FAA, criadas “nos primórdios da década de noventa [1990]” e que foram capazes “de ultrapassar momentos de crise e de profunda desconfiança entre as partes signatárias dos Acordos de Paz”, reorganizando-se e adaptando-se “às difíceis condições que o país então vivia”. Pena que, neste aspecto, os louros não possam ser atribuídos, como tanto gosta o MPLA, a Agostinho Neto.

João Lourenço destacou que factores como “heroísmo, firmeza e determinação” dos membros da FAA foram essenciais para que a “grande batalha pela paz e o progresso social” fosse vencida… provavelmente como fizeram as FAPLA na batalha do Cuito Cuanavale, não é Presidente João Lourenço?

O Presidente dos angolanos do MPLA advertiu que há “novos desafios” pela frente, resultantes das “transformações ocorridas nos últimos tempos no cenário político regional e internacional”, sendo estes “consubstanciados fundamentalmente nas operações de manutenção da paz e do apoio humanitário às populações carentes, sem desprimor pela garantia da defesa de integridade” de Angola.

João Lourenço concluiu a mensagem com “uma profunda homenagem de respeito, admiração e apreço” pelos militares que, ao serviço das FAA, se sacrificaram pelos “valores mais nobres do povo angolano” e com uma nova nota de felicitação aos “bravos militares e trabalhadores civis das Forças Armadas Angolanas”.

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