A consultora Fitch Solutions considerou que Angola deverá manter o ritmo de implementação de reformas, mas alertou que a atracção de investimento estrangeiro é dificultada pela corrupção e que há potencial para mais contestação. Mas para “alterar” a percepção dos investidores estrangeiros, João Lourenço tem a solução: dar instruções aos tribunais para crucificar Isabel dos Santos.

“Na Fitch Solutions, esperamos que o Governo de João Lourenço mantenha um nível relativamente robusto de fôlego nas reformas em Angola nos próximos trimestres, e que continue de forma abrangente a luta contra a corrupção”, escrevem os analistas desta consultora detida pelo mesmo grupo que é dono também da agência de “rating” Fitch.

E o que quererá dizer a Fitch com “reforma abrangente”? Segundo o MPLA isso significa abranger todos os que não vão à missa do “querido líder”, excluindo todos aqueles que rezam com João Lourenço, mesmo que sejam – como é o caso – dos mais corruptos.

Numa nota sobre a economia de Angola em 2020, a Fitch Solutions alerta, no entanto, que “a eficácia destas reformas na atracção de investimento directo estrangeiro vai ser limitada pelas contínuas percepções de corrupção e de fracas condições macroeconómicas” num país que está em recessão há cinco anos.

Se lesse o que escrevem Ana Gomes, Rafael Marques e mais uns tantos escribas, a Fitch saberia que a culpa é só, apenas e exclusivamente do clã Eduardo dos Santos, pelo que quando todos os membros do clã forem banidos… o paraíso abre as portas. Se ler o que dizem os que usam a cabeça certa para pensar, chegará à conclusão que – afinal – João Lourenço e os seus sipaios são igualmente membros do mesmo clã.

Na análise, os consultores escrevem ainda que há o risco de estas condições económicas negativas, que incluem não só a recessão económica, mas também a subida da inflação e o aumento da pobreza, poderem aumentar a contestação social.

Na verdade, nem nós percebemos esta alusão que a Fitch faz ao aumento da pobreza. Afinal, Angola só tem… 20 milhões de pobres. Além disso, segundo as estatísticas do MPLA, há cada vez mais angolanos a (quase) saber viver sem… comer.

“Sublinhamos o potencial para mais descontentamento social, alimentado pelo alto nível de desemprego e pela inflação como o principal risco para a implementação de políticas”, lê-se no documento enviado aos clientes. Essa de falar de desemprego quando se sabe que João Lourenço prometeu criar, na legislatura, 500 mil novos empregos, não tem piada.

“O Governo vai continuar a apresentar medidas destinadas a melhorar o sentimento dos investidores; apesar de estipular metas ambiciosas, que são difíceis, acreditamos que medidas como a privatização de 195 empresas públicas entre 2019 e 2022 e a definição das responsabilidades da Sonangol vão ser vistas como positivas pelos investidores”, acrescentam os analistas.

As melhoras no sentimento dos investidores, no entanto, não compensam o difícil ambiente operacional, a que se juntam as fracas condições macroeconómicas.

“Angola deverá registar o seu quinto ano consecutivo de recessão económica em 2020, devido aos baixos preços do petróleo e ao declínio da produção, que influenciam negativamente as exportações e as receitas fiscais”, dizem os analistas, que sublinham ainda o fraco poder de compra e a desvalorização de 44% no kwanza desde Janeiro de 2019 como factores negativos.

O risco da realização de mais manifestações surge também destes factores, a que acresce o “falhanço de João Lourenço na promessa de um milagre económico feita em 2017″, e que é aferido tendo em conta o elevado nível de desemprego, inflação e grandes desigualdades no rendimento”.

As costas largas, muito largas, de Isabel dos Santos

O processo contra Isabel dos Santos pode ser “fait-divers” para esconder a miséria em que sobrevivem os angolanos? Há quem diga que pode. Nós dizemos que é. Pode ser para esconder o estrondoso falhanço da economia angolana? Há quem diga que pode. Nós dizemos que é. Pode ser para vender gato por lebre aos investidores estrangeiros? Há quem diga que pode. Nós dizemos que é.

“Ninguém ainda conseguiu dizer o valor dos bens que saiu do país ou que foi retirado ilegalmente ao Estado, nem o Banco Nacional de Angola, nem o próprio Governo”, afirmou recentemente o economista e director do Centro de Estudos e Investigação Científica da Universidade Católica de Luanda, Manuel Alves da Rocha.

Manuel Alves da Rocha considera que o processo de arresto de bens da empresária Isabel dos Santos pode ser uma distracção, face à “situação de miséria” que Angola está a atravessar. Ele diz que pode. Nós dizemos que é.

“Não sei até que ponto é que este processo de arresto dos bens de Isabel dos Santos não teve a intenção de, de certa maneira, ser um ‘fait-divers’ relativamente à grande crise económica e social que Angola vive”, disse o director do Centro de Estudos e Investigação Científica, da Universidade Católica de Luanda.

Questionado sobre o que está em causa no arresto de bens da empresária, do marido e de um seu colaborador português, no valor de 1,1 mil milhões de dólares, Alves da Rocha disse: “Ninguém ainda conseguiu dizer o valor dos bens que saiu do país ou que foi retirado ilegalmente ao Estado, nem o Banco Nacional de Angola, nem o próprio Governo”.

Ao falar-se de 1.100 milhões de dólares (987 milhões de euros), “que foi o valor que foi atribuído sem se perceber como, evidentemente que isso é uma gota de água nas necessidades de financiamento da economia angolana e nas necessidades de investimento na diversificação”, defendeu o professor universitário.

“O arresto de bens na luta contra a corrupção é uma maneira relativamente enviesada, já me perguntei se haverá outras razões que levem o Presidente João Lourenço a focalizar-se na família, parental e política de José Eduardo dos Santos”, afirmou o economista.

Há, com certeza, outras, muitas outras razões. É que enquanto se fala do arresto e sucedâneos ninguém pergunta, ou recorda, que João Lourenço deveria prestar contas do seu património, deveria explicar em quanto milhões a Sonangol sempre financiou as campanhas eleitorais do MPLA, incluindo aquela em que o próprio João Lourenço foi “eleito”.

Instado a aprofundar a ideia, Alves da Rocha acrescentou: “Há razões políticas, ele pretende posicionar-se dentro do partido com força e já há análises feitas que dão conta de discrepância sobre o poder que João Lourenço tem no Governo e o poder que tem no MPLA, que são poderes desequilibrados, mas haverá seguramente outras razões, não estritamente políticas, mas pessoais, sobre situações que aconteceram entre os dois”.

Pelos vistos existem dois cidadãos com o mesmo nome: João Manuel Gonçalves Lourenço. Um sempre foi um homem do sistema, do regime: Secretário do Comité Provincial do MPLA e Governador Provincial do Moxico; 1º Secretário do Comité Provincial do MPLA e Governador Provincial de Benguela; Deputado na Assembleia do Povo; Chefe da Direcção Política Nacional das FAPLA; Secretário da Informação do MPLA; Presidente do Grupo Parlamentar do MPLA; Secretário-geral do MPLA; Presidente da Comissão Constitucional; Membro da Comissão Permanente; Presidente da Bancada Parlamentar; Vice-presidente da Assembleia Nacional; Vice-presidente do MPLA; Ministro da Defesa.

O outro é o actual Presidente do MPLA, Titular do Poder Executivo e Presidente da República, que chegou a Angola há pouco mais de dois anos com a nobre, emblemática e divina missão de nos levar para o paraíso…

Comentando a actual situação política em Angola, Alves da Rocha defendeu que “o Presidente João Lourenço, de alguma maneira, tem vindo a perder algum apoio popular porque representou a mudança, uma nova organização da economia e da sociedade, só que os resultados não estão a aparecer”.

“As vozes de alguns ministros que dizem que as coisas não acontecem da noite para o dia, e que as reformas precisam de tempo, é verdade, mas será que as reformas vão no sentido correcto?”, questionou o académico.

Para Alves da Rocha, “o acordo com o Fundo Monetário Internacional não é o acordo de que Angola necessita para resolver os problemas económicos, promover a diversificação, atrair investimento estrangeiro e simultaneamente aliviar as tremendas carências sociais na saúde, na educação, nos rendimentos, no emprego, que a população tem”.

Angola, lembrou, está em recessão desde 2015, “e isso tem reflexos profundos sobre a situação social do país e não vemos, para os próximos tempos, a possibilidade de se alterar este percurso decrescente da economia nacional, não só pela evolução do petróleo, mas sobretudo pela falta de reformas que Angola devia ter encetado com dinamismo e persistência” ainda durante a governação de José Eduardo dos Santos.

O anterior Presidente, acusou, “promoveu o facilitismo, promoveu a acumulação de riqueza e agora estamos aflitos sobre a maneira de reverter isto, e não é com o FMI que Angola reencontra o caminho de crescimento económico sustentável”.

Folha 8 com Lusa

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