15 ou 19 de Maio de 1991, impõe um Ponto Prévio: Antes de entrar na abordagem vale lembrar que há imprecisões de dados na recente revelação de Gonçalves Cahilo segundo as quais foi ao seu pai , o malogrado jornalista Paulo Cahilo a quem a UNITA interceptou via rádio transmitir e não a William Tonet, dando lugar ao primeiro encontro no Alto Kauango, entre FALA e FAPLA, em Maio de 1991.

Por José Gama
Jornalista

O oficial das extintas FALA que fez a intercepção na altura, confirmou ao autor destas linhas que apenas interceptou as comunicações de William Tonet que era o correspondente da VOA, mas contudo pede-me que apresente saudações aos filhos de Paulo Cahilo, que ele considera um herói e que veio a conhecer num segundo encontro entre as FALA e FAPLA, em Sangondo, num dos bairros do Luena.

Em finais de 80, a UNITA preparava-se para organizar o seu II congresso extraordinário que teve lugar algures na Jamba. Fernando Norberto de Castro, na altura porta-voz da UNITA, em Lisboa, organizou um grupo de jornalistas para se deslocarem à Jamba, a fim de mostrar a realidade da resistência que Jonas Savimbi travava contra o governo a partir do sul de Angola. Na caravana, foram despachados mais de 12 jornalistas estrangeiros dentre os quais o antigo correspondente da VOA, William Tonet, (único jornalista negro do grupo) que nessa altura estava baseado na capital portuguesa. Viajou também um outro angolano Jonuel Gonçalves.

Ao chegarem à Jamba passaram pela revista dos “serviços de imigração” que detectaram que o correspondente da VOA trazia um passaporte angolano, e um esboço biográfico que indicava ter passado pelas comunicações das extintas FAPLA. Na linguagem militar, “telecomunicações” significa “ligação aos serviços de segurança”, o que levou à detenção de Tonet por três dias, por suspeitarem tratar se de um “espião”. Foi solto por pressão de Washington e na ocasião avistou-se com Arlindo Chenda Pena “Ben Ben” que fora seu colega no tempo de estudante no Huambo.

Em Fevereiro de 1991, decorriam em Lisboa discretas conversações entre o governo de Angola e a UNITA. Entre Abril/Maio do mesmo ano as forças de Savimbi haviam sitiado por 45 dias a cidade de Luena, uma vez que nas conversações em Lisboa estabeleciam que no dia 15 daquele mês seria a data da cessação das hostilidades e que depois dos acordos finais de paz, cada um ficaria com as partes territoriais conquistadas antes do fim do conflito. A UNITA tinha o seu quartel general nos fundos do Kuando Kubango e pretendia assinar os acordos de Paz de Bicesse tendo para si, uma capital de província.

Havendo previsão de haver cessar-fogo no dia 15, o jornalista José Fragoso, citado no livro “Luena 45 dias de batalha” de Esmael Silva, relata numa reportagem para o Jornal “Publico” e “Jornal de Angola” que ele e um grupo de jornalistas foram surpreendidos com uma viagem de Luanda a Luena com escala em Saurimo. Saíram de Luanda – rumo a Saurimo no dia 13 de Maio, onde dormiram e no dia 14 receberam ordens para avançar para Luena. Os profissionais da comunicação social, segundo o livro, viajaram com o então coronel Higino Carneiro.

No seu despachado para o jornal “Público”, José Fragoso conta que “a noite que passamos no Luena era aguardada com grande ansiedade, uma vez que , a partir da meia noite (zero horas do 15), soaria do gongo da paz, hora a que os combates deveriam interromper de ambos os lados”.

“A partir das zeros horas, todos os nossos combatentes da UNITA, em todas as trincheiras, deverão cessar-fogo”, declarara Jonas Savimbi à rádio VORGAN, do seu partido, contrapondo as afirmações das FAPLA, segundo as quais: “Só responderemos com fogo, se formos atacados”.

PassadA a meia noite do aguardado dia 15 de Maio, foi notado sinais de flagelo contra a cidade representando incumprimento ou falhas no cessar fogo determinado pelos negociadores em Lisboa. Esmael Silva que esteve na cidade descreve no seu livro que “apesar de a UNITA sempre ter negado os ataques aos Luena, afirmando apenas que estava a consolidar as suas posições no terreno e a defender-se dos ataque aéreos do MPLA, os sinais de bombardeamento de artilharia e o numero de ferido…”.

Durante estes dias o correspondente da VOA, William Tonet que ali estava a fazer cobertura da cessação das hostilidades, ligou o seu “rádio satélite” para fazer ligação para Washington a fim de pedir preparação da linha para enviar um dos seus despachos. Ao fazê-lo as suas frequências foram interceptadas pelo então responsável das telecomunicações das FALA, Adriano Makevela Mackenzie, que se identificou e o desafiou a fazer uma reportagem mais completa cobrindo o outro lado. A corrente entre as partes garantia segurança, uma vez que William Tonet era conhecido pela UNITA desde a ida à Jamba.

Ao autor destas linhas, Mackenzie explicou que interceptou a comunicação de William Tonet porque era correspondente da VOA e na altura uma informação imparcial impunha-se já que decorriam negociações em Portugal entre o Governo e a UNITA.

William Tonet aceitou o desafio de cobrir o outro lado e por entender que não fazia sentido haver hostilidade quando se estava a ocorrer negociações em Lisboa propôs às duas partes para um encontro que teve lugar no dia 19 de Maio. Antes ele foi ao lado da UNITA atravessando a fronteira, e regressou para passar a mensagem às FAPLA.

“Perguntei-lhe se não seria possível um cessar-fogo, já que estávamos a negociar em Portugal. Este mostrou-se sensível à minha iniciativa e prometeu contactar Savimbi, que na altura estava no exterior de Angola. Na madrugada do dia seguinte Savimbi liga-me para saber da minha ideia. Mostrou-se muito desconfiado e quase não acreditava na iniciativa, mas deu-me a sua primeira anuência e parti para o outro lado para negociar com o General Higino e Sanjar e tive igualmente de fazer o mesmo com o Presidente José Eduardo dos Santos”, recorda William Tonet, numa entrevista dada ao jornalista Felix Miranda.

No dia 17, o repórter da RTP, Carlos Albulquerque havia já noticiado que apesar de ter havido ordens do ministro da Defesa de Angola em se cumprir o cessar fogo, na manha daquela dia as FAPLA estabeleceram contacto via Rádio com um oficial superior da UNITA que se encontrava num posto de combate a 40 km da cidade de Luena.

Entretanto, para a conclusão do cessar-fogo, as partes sentaram-se sobre mediação de William Tonet, na zona Alto Kauango, em que se comprometeram a “Regularização das tropas da UNITA que fizeram movimentações depois dos dias 14 e 15.05.91, para o interior e proximidade do Luena”, tal como o “Estabelecimento de corredor de segurança num raio de 10 quilómetros entre as duas forças.” As partes acordaram a troca de informações diárias por via rádio, no Luena e agradeceram, no seu ponto 18, “a mediação do senhor Jornalista, William Tonet, que permitiu a realização do encontro”.

Dois anos depois, as Forças Armadas angolanas levaram novamente o jornalista William Tonet para um segunda mediação a fim de intervir junto a Jonas Savimbi para o fim das hostilidades, na cidade do Huambo. Aqui o jornalista já não teve êxito na missão uma vez que os confrontos militares tornaram-se intensos tendo o mesmo acabado por ficar “retido” nos arredores da cidade com as forças do general das FAA, Jorge Sukissa e mais tarde evacuado para Benguela depois de ferido durante os tiroteios. Para além do clima ter estado tenso, Jonas Savimbi faria uma comunicação pela Radio Vorgan retirando a sua confiança a William Tonet justificando que interceptou uma conversa sua com o general João Batista de Matos que se encontrava na Catumbela.

Conheça, em pormenor, o texto do Acordo de Paz do Alto Kauango.
https://jornalf8.net/acordo-de-alto-kauango/