Sílvio Dala, pediatra, morreu numa esquadra da Polícia. Para mim ele foi assassinado. Foi ele, como foram, como são, como serão muitos outros angolanos que o único “crime” que cometeram foi terem nascido. De facto, Angola não é um país, é um lugar muito mal frequentado por políticos esclavagistas. Fica a minha simplíssima homenagem a Sílvio Dala.

Por Orlando Castro

As minhas crianças de barriga vazia
passam ao lado de todos os natais,
esquecidas pelos que fazem poesia
para ser cantada nos seus funerais.
(…e assassinam um pediatra)
Os abutres do regime lá comem tudo,
esquecem que o povo morre à fome.
O poeta, esse mantém-se bem mudo
e tem como musa aquilo que come.
(… e assassinam um pediatra)
Na frente de um prato de lagosta cheio
nunca vê a fome que ao seu lado toca,
e por isso permanece absorto e alheio
aos que, ao lado, só comem mandioca.
(… e assassinam um pediatra)
O poeta é hoje apenas um mercenário
ao serviço do dono que o povo trama,
assume-se como um reles e ordinário,
escravo que chupa em qualquer mama.
(… e assassinam um pediatra)
Curva-se, aceita e amplia a ordem dada,
lambe sempre as botas do novo patrão.
Arrota, pois claro!, postas de pescada,
abomina de peito cheio o prato de pirão.
(… e assassinam um pediatra)
Cumpre ordens do dono e nada o abala
nessa sofreguidão de ter a barriga cheia.
Atirá-los, a todos, do alto da Tundavala
ainda seria pouco para uma tal alcateia.
(… e assassinam um pediatra)
Já não se lembram dos 30 angolares,
e trocaram o peixe podre por caviar.
Agora a colonial porrada se refilares
é para o Povo que querem escravizar.
(… e assassinam um pediatra)