A UNITA, o maior partido da oposição que o MPLA ainda permite que exista em Angola, manifestou preocupação com “uma forte campanha” para tentar criar “falsos factos atentatórios” da imagem e honra do seu líder, Adalberto da Costa Júnior. Bem vistas as coisas, não é novidade e vem, aliás, confirmar que não há mesmo jacarés… vegetarianos.

Em comunicado, o secretariado executivo do Comité Permanente da Comissão Política da UNITA sublinha que estas tentativas coincidem com “a entrada em cena de um tal gabinete de inteligência e acção psicológica na Presidência da República”.

De acordo com a segunda (porque nunca houve eleições livres) maior força política do país, o estado de confinamento, criado pela conjuntura que o mundo vive, tem sido, lamentavelmente, aproveitado pelo Governo de Angola “para desenvolver a sua estratégia de único protagonista político, para ofuscar a oposição”. Mais uma vez nada de novo. Por alguma razão Jonas Savimbi dizia: “Vocês é que estão a dormir… por isso é que o MPLA está a aldrabar-vos”.

“A UNITA está particularmente preocupada com este grupo que configura um grave retorno ao Estado de partido único ou a um estado em guerra, apoiados em ardilosos aparelhos de intoxicação e propaganda, que atentam contra a pluralidade das instituições políticas e contra a liberdade dos cidadãos”, frisa-se no documento.

Segundo a UNITA, um gabinete de acção psicológica “é típico de regimes antidemocráticos ditatoriais e totalitários”, sublinhando ainda que, “em Estados democráticos e de direito, a existência de uma tal estrutura é totalmente inaceitável”. E então a existência de, nas Forças Armadas, existir uma “cátedra” obrigatória de “Educação Patriótica”?

A nota realça que “a Presidência da República deve ser o órgão da unidade, da reconciliação e da representação de todos os cidadãos”, mas, pelo contrário, testemunhou que “o titular deste gabinete, da Presidência da República de Angola, proferiu descaradas inverdades, assentes em notícias encomendadas, criando falsos cenários, na comunicação social, procurando atentar contra o presidente da UNITA”.

A UNITA esclarece que o líder do partido, igualmente deputado à Assembleia Nacional, não tem no parlamento faltas injustificadas, conforme conferem as actas das sessões plenárias, ao contrário do que indicou o titular do gabinete de Acção Psicológica da Presidência da República.

Sobre a problemática que envolveu “o bom nome do presidente da Assembleia Nacional não foi, nem de perto nem de longe, uma invenção da UNITA”, mas resultou “da investigação de um jornal da praça, o Expansão”.

“Lamentavelmente são vários os factos e dados que indicam jogadas da Presidência da República de manipulação das instituições, no sentido de obter vantagens partidárias, quando as mesmas instituições deviam ser respeitadoras e promotoras da lisura democrática”, realça-se no comunicado.

A concluir, a UNITA reafirmou o seu comprometimento de continuar a bater-se por uma reforma do Estado, “tão necessária e urgente para a criação de instituições que sirvam, realmente, o cidadão, a liberdade e a democracia e cooperem para o seu desenvolvimento”.

Educação Patriótica para defender o nepotismo do MPLA

As Forças Armadas Angolanas foram exortadas, no Huambo, a “revestir-se” (o termo é da Angop) de alto sentido de fidelidade patriótica que o conduz a nunca trair o juramento prestado à Bandeira Nacional e os interesses superiores da Nação. Hoje, tal como ontem, importa manter na ribalta a “educação patriótica”, seguindo as metodologias das ditaduras.

A exortação veio do então Chefe do Estado-Maior General adjunto das FAA para Educação Patriótica, general Egídio de Sousa Santos “Disciplina” (hoje Chefe do Estado-Maior das FAA), quando falava na abertura do 16º seminário metodológico dos órgãos de Educação Patriótica das FAA, que decorreu sob o lema “Pelo reforço da organização e disciplina – revitalizemos o trabalho de educação patriótica das FAA”.

O general lembrou aos militares que ao abandonarem a unidade onde estiverem colocados ou a farda a si atribuída por imperativo do compromisso assumido com à Pátria, cometem acto de deserção, susceptível de constituir crime militar, por ser infiel ao seu juramento.

“O militar que age desta forma não é um patriota que esteja realmente comprometido com a defesa dos mais altos interesses da Nação angolana e nem é digno de ser considerado um bom cidadão, capaz de contribuir com o seu esforço na defesa da independência nacional, da integridade do solo pátrio, nem tão pouco no desenvolvimento económico-social do país e do bem-estar da população”, asseverou o general nesta lição de patriotismo.

Incorrem no mesmo crime, segundo Egídio de Sousa Santos, os indivíduos que colaboram com este tipo de militares, facilitando a sua colocação noutras unidades, sem a prévia anuência do comandante da unidade de origem, visto que a instituição castrense existe para cuidar do homem em todas as suas dimensões, designadamente física, espiritual, moral e humana.

Neste sentido, o responsável militar orientou os órgãos de Educação Patriótica a trabalhar, de forma conjunta com os de Educação Jurídica, para elevar os sentimentos de patriotismo, civismo, liberdade e de justiça.

O general afirmou que os órgãos de Educação Patriótica são importantes ferramentas para que o efectivo tenha um comportamento baseado no cumprimento da missão na estrita observância consciente das normas e regulamentos militares.

“Esta coordenação entre os órgãos patrióticos e jurídicos das FAA deve ser comparada aos fármacos combinados no organismo humano, quando se pretende combater determinadas enfermidades, de modo a que os oficiais, sargentos e praças compreendam e aceitem a observância das normas da vida castrense que em nenhuma outra instituição social se podem exigir”, disse.

Participam no seminário, comandantes adjuntos para Educação Patriótica dos três ramos das FAA (Exército, a Força Aérea e Marinha de Guerra), chefes das direcções de educação patriótica, das repartições da direcção principal desta área e comandantes adjuntos das unidades de subordinação central.

Desde a barriga da mãe, MPLA sempre

Perante a necessidade patriótica, talvez fosse aconselhável instituir, com força de lei, a obrigatoriedade da educação patriótica começar logo quando as nossas crianças ainda estão na barriga da mãe.

Por alguma razão a Organização Nacional de Pioneiro Agostinho Neto (o célebre genocida dos massacres de 27 de Maio de 1977) almeja apostar na educação patriótica, cívica e moral das crianças angolanas, sendo estas o futuro do país. Na Coreia do Norte o sistema é o mesmo e funciona. Portanto…

Em tempos, curiosamente também no Huambo, a então secretária nacional para a organização de quadros da OPA, Maria Luísa, disse que a continuidade do processo de desenvolvimento de Angola passa, necessariamente, por uma boa educação das crianças em todas as vertentes.

E educação tem de ser “patriótica”? Pelos vistos, sim. Não basta ser educação. Maria Luísa realçou ainda que a família desempenha um papel preponderante na educação patriótica, moral e cívica dos menores, para melhor se integrarem na sociedade. Apelou também às crianças para se dedicarem à formação académica, com vista a participarem, no futuro, activamente no processo de desenvolvimento do país.

Oficialmente o objectivo desta massiva campanha de patriotismo tem como objectivo elevar o espírito patriótico dos menores, bem como dar a conhecer os benefícios da independência. Tal e qual como nos tempos da militância marxista-leninista do pós-independência (11 de Novembro de 1975), o regime do MPLA continua a reeducar o povo tendo em vista e militância política e patriótica… no MPLA.

De facto, tanto a militância política como a patriótica são sinónimos de MPLA. E a educação patriótica começa ainda dentro da barriga da mãe. Ou até antes, se for possível. Basta ver, mas sobretudo não esquecer, que o regime mantém, entre outras, a estrutura dos chamados Pioneiros, uma organização similar à Mocidade Portuguesa dos tempos de um outro António. Não António Agostinho Neto mas António de Oliveira Salazar.

Num Estado de Direito, que Angola diz (apenas isso) querer ser, não faz sentido a existência de organismos, entidades ou acções que apenas visam a lavagem ao cérebro e a dependência perante quem está no poder desde 1975, o MPLA. Dependência essa que, como todas as outras, apenas tem como objectivo o amor cego e canino ao MPLA, como se este partido fosse ainda o único, como se MPLA e pátria fossem sinónimos.

Por norma os trabalhos de lavagem cerebral dos putos e dos jovens incide sempre sobre os “princípios fundamentais e bases ideológica do MPLA”, os “discurso do Presidente”, os “princípios fundamentais de organização e funcionamento da MPLA” e “o papel da juventude na conquista da independência Nacional e na preservação das vitórias do povo angolano”.

Nem no regime de Salazar se fazia um tão canino culto do regime e do presidente como o faz o MPLA, só faltando (e já esteve mais longe) dizer que existe Deus no Céu e o MPLA na terra. Não nos esqueçamos, por exemplo, que o regime tem comandantes militares cuja exclusiva função é a Educação Patriótica.

Tantos anos depois da independência, 18 depois da paz, a estrutura militar e civil do regime continua a trabalhar à imagem e semelhança dos Khmer Vermelhos de Pol Pot. Nos anais da história do regime, tal como na do anedotário nacional, consta uma intervenção, Setembro de 2009, em que o substituto do comandante da Região Militar Norte para Educação Patriótica do MPLA, Coronel Zeferino Sekunanguela, enaltecia, no Uíge, o contributo do primeiro presidente de Angola, António Agostinho Neto na luta de libertação nacional. O oficial superior da tal “Educação Patriótica”, que falava na palestra sobre “Vida e obra de Doutor Agostinho Neto”, disse que Neto foi o Fundador do movimento nacionalista, da Nação angolana e contribuiu para a luta de libertação nacional.

Assim sendo, “Educação Patriótica” é sinónimo do culto das personalidades afectas ao regime do MPLA, banindo da História de Angola qualquer outra figura que não se enquadre na cartilha do partido que, cada vez mais, não só se confunde com o país como obriga o país a confundir-se consigo.

Folha 8 com Lusa