O sipaio que o patrão colocou como chefe de posto do Grupo Parlamentar do MPLA, Américo Cuononoca, afirmou que Angola está sem condições para institucionalizar as autarquias locais em 2020, por causa dos condicionamentos da Covid-19. Todos os que, mesmo no partido, não têm o cérebro no intestino (serão poucos) viram confirmado que Covid é sinónimo de MPLA, variando apenas o número: não é 19 mas 45.

Esta foi a segunda vez que os sipaios do MPLA (partido no Poder desde 1975) assumem, com a clara autorização do chefe do posto, que o MPLA é Angola e que Angola é do MPLA. Se não fosse via Covid seria via 27 de um qualquer mês, não obrigatoriamente Maio. Já antes o secretário para os Assuntos Eleitorais do MPLA, Mário Pinto de Andrade, afirmara não haver “condições objectivas” para levar o escrutínio avante, no meio da pandemia.

Numa altura em que o MPLA colocou o PRA-JA em estado de coma e apertou a coleira à UNITA, não restam dúvidas que haverá eleições (autárquicas e outras) apenas quando o MPLA quiser, se quiser, não obrigatoriamente em 2021 ou 2022. Cada vez mais os angolanos sabem que o MPLA não é um uma solução para o problema mas, antes, um problema para a solução.

Mas o que é que podem fazer? Não podem escolher (ou acreditar) numa alteração por via eleitoral. Se não há eleições… Acresce que o MPLA sabe que o Povo tem razão mas não tem força. E o Povo sabe que o MPLA não tem razão mas tem força.

A maioria dos que, no Parlamento, não são do MPLA (há quem lhe chame “oposição”), com a qual o MPLA está a ficar farto e mostra o ADN do partido de João Lourenço, que só consegue viver em guerra ou num sistema de único partido, considera que o adiamento das eleições autárquicas “é um subterfúgio para esconder a falta de vontade política” do partido no poder.

Em declarações à Rádio Nacional, Mário Pinto de Andrade (secretário para os Assuntos Eleitorais do MPLA) sustentou que a experiência dos países da África Austral que realizaram eleições legislativas foi “muito má”, o que exige muita cautela. De facto, é complicado. Como é que o MPLA poderá aceitar ser derrotado por um vírus que, ainda por cima, foi gerado nos históricos amigos chineses? Melhor mesmo seria fazer umas eleições autárquicas indirectas em que apenas votassem os deputados do reino…

“Aliás, nós temos estado, ao nível do MPLA e dos partidos da oposição, a participar (em encontros) online de outros países aqui da África Austral que realizaram eleições legislativas, e em que as pessoas pedem-nos para termos cautela porque a experiência deles foi, de facto, muito má”, sublinhou Pinto de Andrade.

E tem razão. Como sempre o MPLA tem razão. Porque o MPLA é Angola e Angola é do MPLA, não há razões para respeitar a democracia (que, ainda por cima, como disse Eduardo dos Santos, “nos foi imposta”). Além do mais, as eleições custam muito dinheiro que, na verdade, faz falta para ajudar os dirigentes do MPLA a comprarem mais casas no estrangeiro.

A UNITA, o PRS e a CASA-CE recordam que desinteresse do MPLA na realização do escrutínio, em 2020, foram dados com a não aprovação do pacote eleitoral autárquico e com o facto de o actual Orçamento Geral do Estado não contemplar qualquer verba para as eleições autárquicas.

O secretário-geral da UNITA, Álvaro Chikuamanga, afirmou que “estes foram sinais mais que evidentes de que o MPLA tinha alguma coisa que não ia ao seu agrado”. A UNITA não pode “espingardar” muito. Lá vai dando uns tiros de pólvora seca, mas sabe muito bem que – respeitando a separação de poderes – o Presidente do MPLA pode ordenar a um qualquer tribunal que faça à UNITA o mesmo que fez ao PRA-JA. Aliás, poderá acontecer aos dirigentes da UNITA o mesmo que aconteceu a Jonas Savimbi.

O vice-presidente da CASA-CE, Manuel Fernandes, também entende que “a pandemia não poder ser responsável pela não aprovação do pacote autárquico, nem pela não realização das eleições”.

No dia 10 de Janeiro, o MPLA disse que “não tem medo” das eleições autárquicas, afirmando ser “o mais interessado”, enquanto a UNITA admiti vontade política para as autarquias, defendendo “respeito de opiniões contrárias”.

Hoje o MPLA tem medo. Aliás, como se comprova com os massacres de 27 de Maio de 1977, o MPLA tem sempre medo quando é obrigado a ouvir o que o Povo tem para dizer. Mas não há razões para isso. Bem que o partido de João Lourenço poderia até divulgar agora os resultados das próximas eleições… ficando estas adiadas “sine die”.

“Nas eleições de 2017, dos 164 municípios do país o MPLA ganhou 156, isto é para ter medo? O MPLA é um partido de consenso, é uma máquina que trabalha, prepara muito bem, não tem medo”, afirmou em Janeiro o tal sipaio presidente do grupo parlamentar do MPLA, Américo Cuononoca.

Ora aí está. E nos 164 municípios só não ganhou 180 porque não quis. 180 se só existiam 164? Perguntarão os nossos leitores. Pois é. Mas se o MPLA já nos habituou a ter em determinados círculos eleitorais mais votos do que eleitores inscritos, se consegue até que os mortos votem no MPLA, nada é impossível para quem é patrão, entre outros organismos, da CNE (Comissão Nacional Eleitoral).

Segundo o chefe de posto parlamentar do partido dirigido pelo “querido líder” João Lourenço, “é uma falsa expectativa” pensar-se que o seu partido tenha medo das eleições autárquicas porque “quem está mais interessado para que estas eleições se realizem é o MPLA”. Mentira, é claro. Por alguma razão o MPLA tem adiado sucessivamente essas eleições. Agora agarra-se com unhas e dentes à Covid-19 para engavetar a democracia.

“Não há outro partido mais interessado em realizar eleições autárquicas que são uma promessa eleitoral. Prometemos realizar eleições autárquicas neste mandato, de tal sorte que o MPLA ter medo? Pelo contrário”, notou.

Pois é. E promessas são coisas que não faltam ao MPLA. Já em 1975 Agostinho Neto prometeu resolver os problemas do Povo e o resultado (20 milhões de pobres, por exemplo) está à vista. Aliás, o querido presidente de Américo Cuononoca conseguiu – reconheça-se – resolver o problema dos milhares e milhares (cerca de 80 mil) de angolanos que mandou assassinar nos massacres de 27 de Maio de 1977.

Para o presidente do grupo parlamentar da UNITA, o maior partido da oposição que o MPLA (ainda) permite que exista, Liberty Chiyaka, as autarquias “são um compromisso do Estado que deverá ser assumido”, referindo que “existe tempo e vontade política para as pessoas consertarem”.

“Independentemente dos interesses de grupos e partidários há um interesse nacional a salvaguardar, a defesa da democracia e realização da dignidade da pessoa. Acho que há sim esta abertura, o ambiente de trabalho e pelo que senti hoje há sim esta vontade”, disse.