O general Higino Carneiro tem todo o direito de não gostar do que o Folha 8 escreve. Poderia reagir usando o direito de resposta. Não o fez, preferindo outros meios ao seu dispor, mais direccionados aos seus acólitos, evitando assim o escrutínio público, nacional e internacional. Contudo, não tem o direito de reagir usando questões pessoais relativas ao nosso Director, em resposta a um texto cujo autor nem foi William Tonet. Nem todos têm carácter. Uns têm preço, outros têm valor.

Por Orlando Castro

Vamos ao filme do que ontem, sexta-feira, se passou. Na sua página do Facebook, o general Higino Carneiro escreveu (ipsis verbis): «Dia 15 de Maio de 1991 é uma data inesquecível para mim e para todos quantos ainda em vida protagonizaram aquele memorável encontro entre as Chefias das FAPLA e da das Forças Militares da Unita na nascente do Rio Cauango-Moxico. Recordo com saudade o estreitar de mãos entre militares desavindos que apesar do ulterior desfecho da guerra permitiu que nos conhecêssemos e respeitássemos com Angola em Paz as diferenças de cada um».

Higino Carneiro acrescentou: «Ao General Amós Chilingutila, ao General Makenzie pessoas que comigo ainda resistem aos ventos do tempo e jubilam de alegria com todos os Angolanos em Paz , o meu abraço de profundo respeito nesta data.

Ao William Tonet o meu abraço de camarada por ter estado comigo e com todos os presentes naquele encontro delicado para o momento. Soubeste com a tua pena de jornalista ajudar a divulgar aquele feito histórico, que permitiu a cessação das hostilidades militares, precedendo a Assinatura dos Acordos de Bicesse, que teve posteriormente lugar, em Lisboa, no dia 31 de Maio de 1991.

Rendo sentida homenagem aos Generais Agostinho Nelumba” Sanjar, Arlindo Chenda Pena” Ben Ben”, José Nogueira Kanjundo e ao Brigadeiro Consagrado que há muito partiram deste mundo e que não podem hoje, conosco, recordar com nostalgia está data.

Ao Tenente General Manuel José Ribeiro da Fonseca ”Neco” então Comandante da 3 Região Militar os meus e nossos agradecimentos e por seu intermédio a todos os Oficiais, Sargentos e Soldados por terem assegurado que o encontro tivesse decorrido sem sobressaltos».

Reagindo a esta tese, e por solicitação do jornalista que escreveu sobre o assunto, William Tonet não teve problemas (quem não deve não teme) em dar o seu contributo sobre o que o seu “amigo Higino escreveu”:

“Entendo que a pressão e a nostalgia, nos levam a antecipar o tempo e omitir, alguns factos. Ninguém pode, os vivos, esquecer a tua participação, como uma das partes subscritoras, mas não operacional, para a sua realização. A história impõe-nos um certo rigor, no complemento dos factos e dados.

No essencial, o post do general Higino Carneiro tem uma visão do encontro, mas é preciso recordar que no dia 15.05 não houve nada, pois, nessa data eu ainda estava do lado da UNITA a encetar as bases para a negociação, quer com o general Ben Ben, quer com Jonas Savimbi.

Esse dia (15.05) foi importante, mas este encontro, em que eu apareço, não como jornalista, mas como mediador (ou será por ser preto, que isso não é relevado?), ocorreu no dia 19 de Maio de 1991.

O local confere, com a descrição. Mas é preciso, por uma questão de honestidade, reconhecer o papel do hoje general Marques Banza, esse sim, foi quem, do lado do governo (FAPLA) garantiu as condições de segurança, mais do que o general Neco que se encontrava no bunker. Outro, importante foi o do general Mackenzi, que ao interferir, nas minhas comunicações, por satélite, desafiado por mim, encetou os contactos com o seu alto comando, para que eu pudesse ir para o lado das trincheiras da UNITA.

Sem o contacto do general Mackenzi, a minha ida às posições avançadas das FALA (como elemento neutro) e confiança que Ben Ben e Savimbi tinham, não haveria esse contacto histórico. Essa é a verdade.

Depois é preciso, também, destacar o papel do general José Maria, que viabilizou os contactos telefónicos, entre mim e o Presidente José Eduardo dos Santos (e, outras vezes, o general Miala) durante quatro dias, para o consentimento, do lado governamental, para que os seus oficiais se sentassem para negociar, havendo igual anuência de Jonas Savimbi, o primeiro Acordo de Paz de Angola, mediado por um angolano, por sinal, jornalista”.

Eis então que o general Higino Carneiro resolve voltou a reagir, pelos mesmos meios, descarregando o carregador da sua arma sobre William Tonet, misturando confidências pessoais, uma longa amizade, respeito e famílias num só alvo. Contudo, apesar de ter disparado mais de 600 balas por minuto com a sua “Uzi” de general agora incompreendido e perseguido pelos seus pares, não conseguiu acertar no alvo. Estamos, aliás, convictos que muitas dessas balas irão fazer ricochete e vitimar o próprio atirador, tão mesquinha e infame foi a escolha do alvo.

Num assunto eminentemente político e histórico, o general Higino Carneiro resolve iniciar o seu libelo acusatório dizendo: “Eu sempre nutri respeito e simpatia por ti. Até dei a minha amizade e a da minha família a tua também. A minha e a do General João de Matos sempre estiveram presentes na tua também. Quando privávamos em tua casa em família e na minha e no Restaurante do teu cunhado no Prenda, nunca soubemos que eras da Unita. Confidenciaste-me sim, que o dr Jonas Savimbi até te chegou a mandar sapatos ou ténis para os teus filhos como forma de te aliciar. Mas caro companheiro, a história não se apaga. E ela deve ser escrita e contada com factos reais . Esta é uma delas. Nunca deixei de ser teu amigo. Creio que tens isso presente. Fico estupefacto quando escreves com pensamentos racistas o que na verdade nunca observei de ti antes. Mas os tempos mudaram mesmo!”

Correspondendo ao repto de Higino Carneiro, “agora vamos aos factos”.

“Nunca poderias (William Tonet) ser Medianeiro no Processo de Paz em curso na medida que a mediação era feita por Portugal e com os observadores da Rússia e dos EUA. Já havia data marcada para a assinatura dos Acordos de Bicesse. O que se protagonizou na nascente do Rio Cauango no dia 15 de Maio de 1991 foi um encontro de risco mas para cessar as hostilidades Militares”, diz o general. Então, quando os militares dos dois lados da guerra, acordam calar as armas, isso é um acordo de quê? De guerra?

“Depois deste encontro outros se seguiram mas só depois da Assinatura dos Acordos de Bicesse. Que o digam a Luísa Ribeiro, o Benjamim Formigo e a Luísa Rogério entre outros jornalistas. Eu não me reuni com ninguém no dia 19 de Maio. Deve ter sido um outro Higino Carneiro. Os oficiais, os sargentos e soldados sabem disso. O Comandante da 3 Região Militar era o Tem. Gen. Neco . O Marquês Banza estava lá mas não era o Chefe. O contacto que foi interceptado pelo Gen. Makenzie não foi em comunicação por Satélite foi através da Rádio local cujo radialista na época era o Paulo Cailo. Contacto com o Presidente José Eduardo dos Santos fi-lo eu pois era minha responsabilidade pois, se não sabias eu era na época o Chefe do Estado Maior Geral em exercício e nomeado coadjutor do Ministro da Defesa Pedale. Falaste com o Presidente José Eduardo Santos porque eu te levei ao Futungo para o efeito. Nesse encontro pediste ajuda para o teu jovem jornal. Foi orientado dar-se essa ajuda através do Gen Zé Maria que mais tarde soube por ti que não o havia feito. Enfim poderia dizer-te outras coisas para te recordares e compreenderes os factos. A tua presença foi importante naquele encontro. Não levei jornalistas estrangeiros porque não me interessava, porquanto a decisão era minha. Hoje mesmo e agora que te falo muitos ex-militares da Unita me chamaram e escreveram para recordar esta data. Não procurei ao escrever este artigo na minha página para promover a minha imagem. Não, nunca fiz isso. Os meus feitos falam por si. Escrevi para recordar apenas”.

O general Higino Carneiro concedeu, no dia 3 de Abril de 2015, uma entrevista à RNA onde, reiteramos, mentiu descaradamente, sobre a Mediação dos Acordos do Alto Kauango (ou Cauango),

Higino Carneiro não conhecia, antes do dia 19 de Maio de 1991 (e foi mesmo a 19 de Maio, como atestam os documentos da altura), o General Ben Ben (Arlindo Chenda Pena) ou, pelo menos, não tinha com ele nenhum contacto oficial.

Higino Carneiro mentiu quando disse ter pedido a William Tonet para redigir o comunicado final. Primeiro, Tonet não era seu empregado nem subordinado, logo actuou como mediador, por consenso das partes.

Higino Carneiro mentiu, pois ele não convidou os jornalistas. Estes estavam em Saurimo e seguiram depois no mesmo helicóptero, com autorização do então chefe do Estado Maior e do comandante da Frente que era o já falecido general Agostinho Fernandes Nelumba “Sanjar”, pois Higino Carneiro não foi responsável pela defesa daquelas posições.

Dúvidas? Que tal questionarem o General Mackenzi que era das comunicações da UNITA, que iniciou contacto directo com William Tonet, e o General Chilingutila, militares íntegros que certamente não fazem, como Higino Carneiro, da mentira uma forma de vida?

A História escreve-se com a verdade que, mesmo quando bombardeada insistentemente pela mentira, acabará por se sobrepor a todo o género de maquinações e acções de propaganda. É, por isso, legítimo que se faça pedagogia e formação quando, por razões mesquinhas, alguns tentam apagar o que de bom alguns, muitos, angolanos fizerem pela sua, pela nossa, terra. E tentam apagar, revelando um manifesto complexo de inferioridade e um mal resolvido complexo rácico, por temerem que a verdade os mate. Esquecem-se que, mesmo recorrendo à história, a salvação só se consegue com respeito pela verdade.

E não é por esconder a verdade que ela deixa de existir. Em 1991, quando as forças da UNITA sitiaram por 57 dias a cidade do Luena, Tonet, que cobria o conflito por parte das tropas do “Galo Negro”, abordou o seu amigo General “Ben Ben” e um outro general das FAPLA, Higino Carneiro, que aceitaram a sua proposta de tréguas que ficou conhecida como os acordos do Alto Kauango e que foram a “mãe” dos acordos políticos de Bicesse.

Não adianta o MPLA, o regime, Higino Carneiro e outros que se julgam donos da verdade, “esquecerem” a verdade dos factos. Eles são exactamente isso, factos. E um deles, o de ter sido um angolano a mediar pela primeira vez o conflito entre angolanos, deveria ser motivo de regozijo e de reconhecimento interno e externo. Só a mesquinhez de uns tantos, agora revitalizada por Higino Carneiro, pode levar a que se tente, sem sucesso – é certo, apagar esta verdade. Uma de muitas outras que, infelizmente, ainda se encontram enclausuradas por medo de represálias.

O facto de o cidadão, jornalista, William Tonet ser inimigo público do regime, mau grado a sua luta ter sido sempre em prol dos angolanos, de todos os angolanos, revela igualmente que na História que o regime quer que se escreva só têm lugar os que são livres para estarem de acordo com ele.

Por fim, Higino Carneiro pode ficar descansado. Para William Tonet, o que é do foro privado, familiar, confidencial assim ficará para sempre. Nem mesmo em legítima defesa quebrará os valores que para ele são sagrados.