Ontem, 26 de Setembro, foi a enterrar minha avó Cessá. Triste! Muito! Era uma referência incontornável, pois preservava a imagem, também, do avô Maximbombo, paterno de mamãe e tios, não poucos, o cassule, foi gerado, estava ele, africanamente, falando, no esplendor da idade: 91 anos.

Por William Tonet

O conhecimento do infausto acontecimento, tive-o, na véspera, da sua inesperada partida. Deixou-me destroçado, pois estava na redacção, com o compromisso do fecho da edição impressa da semana.

A avó Cessá era, além de tudo, uma exímia “otchissanguista” (fazedora de bebida caseira, não fermentada, à base de milho, também conhecida, em Luanda, por Kissangua) e kitabista (kitaba), com banca, onde era uma referência: Mercado de São Paulo e do Beato Salú, no Bairro Operário.

Eu orgulhava-me de ser um consumidor regular dos produtos da avó, que semana sim, semana não, tratava de buscar o precioso liquido.

A avó Cessá nunca me proibiu de falar política, mas sempre alertou, para a necessidade de ter crença, em Deus e de não deixar de acreditar no sonho.

O sonho do caminho!
O sonho de não desistir de lutar.

Prometi-lhe muitas coisas, na euforia da revolução, na utopia de que seriam os homens dos movimentos de libertação capazes de dar a ela e demais avós, um futuro melhor do que usufruíam no tempo colonial.

Triste ilusão!

Ao longo dos anos de independência a vida das nossas avós regrediu e, em muitos casos, piorou mais do que no tempo do colono português.

Infelizmente, a incompetência do novo poder é tão grande que, muitas delas, nos seus inocentes lamentos perguntam: “quando vai chegar a independência”?

Desconsegui de lhe responder, porque, também, não fui capaz de lutar e liderar uma revolução de orgulho Bantu/Ngolensis, com a criação de um forte exército de educadores, com escolas e professores bem remunerados e enfermeiros/médicos, com hospitais espalhados pelo “solis” autóctone, de que o país carecia(e) desde a transição colono/ngolensis.

Mas eu tentei! Eu tento, todos os dias!

Sinto a cada dia, existir um eu, mais plural, que se multiplica, nas esquinas da discriminação, fome e miséria, preparando-se para explodir, com apoio da “ponda” (pano, geralmente, vermelho, que as mamãs amarram os panos, pela cintura) das avós.

Eu, lembro-me, avó Cessá, que chegado do campo de São Nicolau versus maquis; 1975, ao atravessar o beco dos matraquilhos da rua A, para a B, do Bairro Operário, dos pouquíssimos, senão o único musseque sem becos, no tempo colonial, ao dar-te o primeiro abraço, prometi que chegaria o dia, em que, orgulhosamente, iríamos passear, pela cidade baixa e alta, para mostrar-te o que uma revolução, verdadeiramente, comprometida com um “Projecto de Sociedade”, faria.

Enterraríamos o selo de povoamento colonial, emergindo uma nova política de sepultamento das diferenças entre brancos, pretos e mulatos, enquanto mosaico identitário dos ngolensis, assumindo, descomplexado o “jus solis” de cada uma das nossas raças, que sem racismo incubado, deveria exibir-se em cada documento individual: raça – preta; raça – negra; raça – branca; raça – mestiça é neste identitário que se esbatem as distancias, construídas pelo amor maternal e “avoal” das nossas velhas, ao longo dos anos, no amor que destilavam aos netos, que apenas o eram e são, ainda que distintos na raça.

Desconsegui mostrar a Cessá novas avenidas de uma sã convivência, porque demitidos, pela força das armas da intolerância dos novos colonos negros, que chegaram ao poder e adoptaram o refrão:

COLONO NEGRO É PIOR QUE COLONO BRANCO, pois, enquanto o colono estrangeiro não reconhecia a propriedade da terra (objecto e base da colonização), aos pretos, os colonos negros (diferentes dos pretos e minorias assumidas-maioria dos povos), complexados, assimilados e “bufos” (informantes) da época colonial, transformam a terra em propriedade fundiária do Estado, num fundiar especulativo, para proveito da nova e voraz burguesia.

Perdão avó!

Estes senhores, no pedestal de uma arrogância saloia e congénita incompetência, vêm eliminando, ao longo dos 45 anos, o sonho de milhões de avós, como a minha avó Cessá, através do assassinato ou afastamento compulsivo, as vozes diferentes, mesmo as vindas de antigos camaradas de trincheira: MPLA.

Os colonos negros foram, são e continuarão implacáveis, muitas vezes com requintes de masoquismo, quando esbarram com a justa insatisfação popular, se nada for feito de pragmático, permanente e em unidade, para evitar o mesmo de outras épocas, colhendo a omissão e medo.

Noutras épocas, o regime, direccionou rebuçados e chocolates, quais balas e obuses assassinos, de armas e canhões, lançados contra os corpos indefesos de jovens heróis, à sua época, tais como: Paganini, Matias Miguéis, José Miguel, Ferreaço, Sotto Mayor, Miro, Nito Alves, Zé Van-Dúnen, Fernando Tonet, Nandi Kassanji, Mirinha, Sitta Valles, Alberto Tonet, Zé Kandongo, Kiferro, Rui Coelho, Ricardo de Melo, Hilbert Ganga, Cassule, Kamulingue, Silvio Dala e tantos outros, que, engalanam a galeria do disco duro mental, dos intelectuais patriotas.

Por isso, nesta maré de tristeza, pelo partir, inesperado, da canoa branca, da avó Cessá, em direcção ao Pai Celestial, confesso, uma vez mais: fui impotente em não ter conseguido mobilizar, os milhões de pobres, desempregados, insatisfeitos e descrentes, para um palanque, onde hastearíamos a bandeira de uma nova independência, num Estado sério, com moralidade, sentido de responsabilidade, respeito da coisa pública e consideração cidadã.

Queria poder mostrar-lhe um país melhor, mais justo onde os rios da cumplicidade e do orgulho de sermos, um trio de raças, senhores do seu destino, escancararia as riquezas nacionais, ao serviço dos seus filhos, para os tornar fortes, primeiro, com uma visão de integração regional e continental e um modelo de programa económico, diferente da visão ocidental, principalmente, o assente no “criminoso” sistema neoliberalismo, que não deveria ser adoptado, nos países em vias de desenvolvimento, principalmente, os africanos, que viram nascer, crescer e morrer as nossas avós, autênticas economistas, que geriam e gerem as nossas lavras e sanzalas, com apurado esmero.

O neoliberalismo europeu é um crime, adoptado, em países subdesenvolvidos, em África, porque impõe a transferência da soberania económica, para os empresários ricos ocidentais, através de uma política de eliminação gradual de eventuais empresários nacionais, responsáveis pelo assassínio dos sonhos das nossas avós.

A actual política económica do Titular do Poder Executivo é criminosa e deveria ser julgada, como tal, pois todos os dias aumenta impostos e afunda o pouco de dignidade das nossas avós, que morrem sem terem o orgulho de verem um país diferente, para melhor, daquele governado pelo colono branco, no período colonial.

Avó Cessá, a semana foi terrível, disse-o a cada um de todos os tios, pois sentiremos a tua falta, a tua luta destemida de sobreviver na adversidade, com dignidade. Serás a contínua inspiração, pois, até ao último dia das tuas mais de 8 décadas de vida, não paraste de lutar, na busca de uma felicidade, que desde 1975, nos tem sido roubada, por um governo, cada vez mais anti-angolano.

Avó Cessá sei que partes com a certeza do dever cumprido, nós é que nem sempre te merecemos, pois não passamos da retórica acutilante, nos WC, salas de jantar ou mesas de bar, quando deveríamos agigantar a indignação pela má gestão da coisa pública, com a irreverência que só a rua é capaz de acolher e forçar o mal a sair das nossas vidas, da vida das nossas avós.

Te prometo, um dia, de um Novembro, de um ano indefinido, por não haver, em Angola, outro tempo verbal, que não seja o futuro indefinido, levarei a tua casa celestial flores novas de mudança, uma mudança que dá a melhor vacina do mundo, aos 20 milhões de pobres: COMIDA!

Até já avó, nós ainda ficamos com fome, miséria, sem educação, saúde, pão, água e saneamento, mas, talvez, não por muito mais tempo, pois o nível de injustiça e discriminação aumenta todos os dias e os tribunais com os estúpidos julgamentos encomendados, poderão ser um factor de ajuda para a “explosão” de revolta, visando o nascimento de novas esperanças, com a aprovação de novas leis, impeditivas da ascensão dos mesmos ou novos bruxos políticos e dráculas, ao poleiro, destruindo as lianas da força partidocrata, instalada nas Forças Armadas, Polícia e Segurança de Estado e também, na CNE (Comissão nacional Eleitoral) capital da fraude eleitoral, capitaneada por um juiz acusado de alta e refinada corrupção e incompetência jurídica.

Até breve, avó Cessá!