A UNITA, o maior partido da oposição angolana, assegura que as cerimónias fúnebres do seu antigo líder e fundador, Jonas Savimbi, vão acontecer este ano, “mobilizando milhares de angolanos”, mesmo que sem honras de Estado, como já avisou o Governo.

Por Orlando Castro

“Q ueremos entender as declarações do general [ministro de Estado e Chefe da Casa de Segurança do Presidente angolano] Pedro Sebastião como uma posição em que tomamos boa nota, mas o importante é que prevaleça a vontade de cooperação manifestada pelo senhor Presidente da República”, diz Alcides Sakala, porta-voz da UNITA.

Em declarações à Lusa, o político do Galo Negro referiu que Jonas Savimbi, morto em combate, em 2002, “não foi uma pessoa qualquer” e que a cerimónia das suas exéquias “vai mobilizar milhares de angolanos que virão de todos os cantos do país”.

Não foi, de facto, uma pessoa qualquer. Mas, tanto quanto parece, a UNITA de hoje tem medo de exigir que o Estado/MPLA reconheça que Savimbi não só lutou pela independência de Angola como foi signatário (entre outros) do Acordo de Alvor que levou o país à independência, pelo que – conjuntamente com Agostinho Neto e Holden Roberto – deve figurar como um dos três fundadores do país independente.

E se antes foi o tempo dos contratados e escravos ovimbundus ou bailundos irem para as roças do Norte, agora é o enxovalho (mesmo que mitigado e maquilhado) de dizer aos dirigentes da UNITA que ou se portam como o Estado/MPLA determina, ou terão de transportar pedras à cabeça para ter “peixe podre, fuba podre… e porrada se refilarem.”

Talvez (sejamos ingénuos) os dirigentes da UNITA, a começar por Isaías Samakuva, não tenham ouvido o clamor do Povo quando Jonas Savimbi morreu: “Sekulu wafa, kalye wendi k’ondalatu! v’ukanoli o café k’imbo lyamale!”. Ou seja, morreu o mais velho, agora ireis apanhar café em terras do norte como contratados, ou ser escravos na terra que ajudaram a, supostamente, libertar.

É verdade que Savimbi nem sempre tinha razão. Quando dizia “Ise okufa, etombo livala” (prefiro antes a morte, do que a escravatura ), estava muito longe de saber que a sua mensagem não faria escola entre os principais dirigentes da UNITA que, hoje, preferem a escravatura de barriga cheia e não trocam a lagosta (que o MPLA lhes dá) pela mandioca, ou farelo, que mantém milhões de angolanos mais ou menos vivos.

A UNITA chegou a criar, em Maio de 2014, uma comissão para tratar do processo de exumação dos restos mortais de Jonas Savimbi, que foi sepultado, logo após a morte, no cemitério de Luena, Moxico, e trasladação para o cemitério da família, na aldeia de Lopitanga, município do Andulo, a cerca de 130 quilómetros a norte do Kuito, província do Bié.

“Durante esse período das chuvas [entre Agosto e Maio] fica, de facto, muito difícil acolher um grande número de pessoas, a localidade e a região não têm capacidades para albergar milhares de pessoas nesse espaço, mas consideramos um passo importante esse processo”, indicou Alcides Sakala.

Para o também deputado da UNITA, o programa das exéquias do líder histórico do partido deve ser feito “num ambiente de serenidade de espírito”. Isto é, segundo Alcides Sakala, sem hostilizar o senhor colonial (MPLA), não vá ele zangar-se e – como dono do país – dar ordens para que tudo fique na mesma.

O Governo angolano garantiu na quarta-feira que “estão criadas as condições” para a exumação dos restos mortais do antigo líder da UNITA, mas avisou que o funeral do fundador da maior força da oposição “não terá honras de Estado”. Convenhamos que ter honras de um Estado nado e criado à imagem do MPLA não é propriamente uma honra.

“Eu estou sempre acordado porque estou em constante movimento. Vocês é que estão a dormir… por isso é que o MPLA está a aldrabar-vos”. Não somos nós os autores desta afirmação que, embora dita há muitos anos, mantém toda a actualidade. Quem a disse foi Jonas Savimbi.

A posição de não haver honras do Estado do MPLA foi transmitida pelo ministro de Estado e Chefe da Casa de Segurança do Presidente angolano, Pedro Sebastião, que falava aos jornalistas, na quarta-feira, sobre o funeral de Jonas Savimbi.

“Uma vez que o antigo presidente da UNITA não pertencia à família governamental quando faleceu”, justificou o governante. Pedro Sebastião esqueceu-se de referir que Jonas Savimbi – segundo o MPLA – também não pertencia à família angolana e não integrava a linhagem dos dirigentes impolutos, honoráveis e incorruptíveis (esses são apenas os do MPLA).

Pedro Sebastião frisou que não existem razões para se fazer paralelismos com o recente (2017) funeral de Estado do general Arlindo Chenda Pena “Ben-Ben”, antigo chefe-adjunto do Estado Maior General das Forças Armadas Angolanas (FAA) e ex-comandante do antigo exército da UNITA, cujos restos mortais permaneciam desde 1998, na África do Sul.

Alcides Sakala, que se recusou (bem dizia Savimbi que “vocês é que estão a dormir… por isso é que o MPLA está a aldrabar-vos”) a comentar as declarações de Pedro Sebastião, argumentou que o seu partido “tomou boa nota” desta posição, acrescentando que o “mais importante é que prevalece o espírito” de trabalhar em conjunto, no âmbito das duas comissões criadas, entre a UNITA e o Governo angolano.

Galo nunca mais voará

Desde 2002 o Galo Negro deixou de voar. O visgo do MPLA mantem-no colado às bissapas. Os angolanos de segunda, que não os seus dirigentes, estão apanhar café às ordens dos novos senhores coloniais.

Houve uma altura em a UNITA resolveu o problema do visgo. Calculou-se então que o Galo iria voar. Ledo engano. O MPLA/Estado tinha-lhe cortado as asas.

De uma forma geral a memória dos angolano, neste caso, é curta. Importa por isso ir relembrando algumas coisas, mesmo quando se sabe que se não fosse o MPLA a cortar as asas ao Galo Negro, alguém da própria UNITA se encarregaria de o fazer.

Com a independência, os camponeses do planalto e sul de Angola sonharam (ainda hoje continuam a sonhar) com o fim do seu recrutamento forçado como escravos para as roças coloniais. A reedição da estratégia colonial por um governo supostamente independente foi um golpe duríssimo na sua ilusória liberdade.

O então líder da UNITA, Jonas Savimbi, agastado com a fraqueza e quase exaustão das forças que conseguiram sobreviver à retira das cidades, em direcção às matas do leste (Jamba), onde reorganizou a luta de resistência, aproveitou esse facto, bem como a presença de estrangeiros, para mobilizar os angolanos.

E agora? Agora (e depois de ter sido assassinado por alguns dos seus próprios militares) os seus discípulos mais ilustres preferem a escravatura de barriga cheia do que a liberdade com ela vazia.

Será que se lembram dos que só foram livres enquanto andaram com uma arma na mão? Há muito que, por obra e graça do MPLA mas – igualmente – por incapacidade dos seus quadros, se prevê o fim da UNITA.

Jonas Savimbi morreu no dia 21 de Fevereiro de 2002, em combate e às mãos de alguns dos seus antigos generais. Foi nesse dia que começou a morrer a UNITA. De morte lenta, é certo, mas igualmente (tanto quanto parece) de forma irreversível.

Talvez pouco adiante continuar a dizer que a vitória seguinte começou com a derrota anterior. Isso faria sentido se o Mais Velho ainda andasse por cá.

Apesar de todas as enormes aldrabices do MPLA, as eleições acabara sempre por derrotar em todas as frentes não só a estratégia mas a sua execução, elaboradas por alguns dos “generais” da UNITA.

As hecatombes eleitorais, sociais e políticas mostram que a UNITA não estava, como continua a não estar, preparada para ser governo e quer apenas assegurar alguns tachos e continuar a ser o primeiro dos últimos.

O sacrificado povo angolano, mesmo sabendo que foi o MPLA que o pôs de barriga vazia, não vê na UNITA a alternativa válida que durante décadas lhe foi prometida, entre muitos outros, por Jonas Savimbi, António Dembo, Paulo Lukamba Gato e Samuel Chiwale.

Terá sido para ver a UNITA a comer e calar, a ser submissa, a ser forte com os fracos e fraquinha com os fortes, que Jonas Savimbi lutou e morreu? Não. Não foi. E é pena que os seus ensinamentos, tal como os seus muitos erros, de nada tenham servido aos que, sem saber como, herdaram o partido e a ribalta da elite angolana. É pena que os que sempre tiveram a barriga cheia nada saibam, nem queiram saber, dos que militaram na fome, mas que se alimentaram com o orgulho de ter ao peito o Galo Negro.

Se calhar também é pena que todos aqueles que viram na mandioca um manjar dos deuses estejam, como parece, rendidos à lagosta dos lugares de elite de Luanda.

Por último, se calhar também é de lamentar que figuras sem passado, com discutível presente, queiram ter um futuro à custa da desonra dos seus antepassados que deram tudo o que tinham, incluindo a vida, para dignificar os Angolanos.

Não creio que Homens como Paulo Lukamba Gato, Kamalata Numa e muitos, muitos, outros, tenham deitado a toalha da luta política ao tapete. Também não creio que aceitem trair um povo que neles acreditou e que à UNITA deu o que tinha e o que não tinha.

E é esse povo que, de barriga vazia, sem assistência médica, sem casas, sem escolas, reclama por justiça e que a vê cada vez mais longe. E é esse povo que, como dizia o arcebispo do Huambo, D. José de Queirós Alves, não tem força mas tem razão.

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