Ao longo dos mais de 700 dias que decorreram desde que assumiu a presidência de Angola, João Lourenço tem mantido aquilo que o regime do MPLA (e não só) entende como uma intensa diplomacia político-económica, que já o levou a mais de 20 países. Para um país que (não) está em crise, que (só) tem 20 milhões de pobres, é de louvar a estratégia…

Na semana em que se assinalam dois anos desde a sua tomada de posse, a 26 de Setembro de 2017, um balanço feito pela Lusa revela que João Lourenço visitou, neste período, 23 países, de forma oficial, a título privado ou participando em cimeiras e outros encontros de alto nível, e recebeu outros tantos chefes de estado e de governo.

É claro que os resultados da dita diplomacia político-económica não tardaram. Em Angola, segundo a FAO, “23,9% da população passa fome”, o que equivale a que “6,9 milhões de angolanos não tenham acesso mínimo a alimentos”. Já imaginaram o que seria se João Lourenço não andasse por esse mundo, com uma mão à frente e outra atrás, a pedir fiado?

A ronda diplomática europeia começou por Bruxelas (Bélgica) e França, em Maio de 2018, com vista ao reforço da cooperação bilateral e terminou, nesse ano, com uma visita a Portugal, em Novembro onde foram rubricados treze protocolos de cooperação.

Antes, em Setembro, o primeiro-ministro português, António Costa, tinha sido já recebido em Angola pelo presidente João Lourenço, que acolheu também, alguns meses depois, em Março de 2019, o seu homólogo português, Marcelo Rebelo de Sousa, que se celebrizou como “Ti Celito” por terras angolanas e onde Portugal reforçou a sua posição de liderança no “ranking” da bajulação ao MPLA, o único partido que governou Angola desde a independência.

No roteiro diplomático de João Lourenço esteve também a Ásia com duas passagens pela China – em visita oficial, em Outubro de 2018, onde foi recebido pelo presidente Xi-Jinping, e no III Fórum de Cooperação China-África (FOCAC), em Setembro do mesmo ano – e uma, mais recente, pelo Japão, no âmbito da Conferência Internacional de Tóquio sobre o Desenvolvimento de África (TICAD), onde foi recebido pelo primeiro-ministro, Shinzo Abe e saiu com promessas (por algumas coisa o Presidente é conhecido também por João Promessas) de mais investimento japonês.

Ainda na Ásia, destaque para a visita, alguns dias depois ao Qatar, a 7 de Setembro de 2019 também para assinar acordos de investimento que, na Angola profunda, são chamados de fiado.

Inevitavelmente, e a exemplo dos seus antecessores Agostinho Neto e José Eduardo dos Santos, João Lourenço também já fez a primeira deslocação oficial à Rússia, tendo-se encontrado no Kremlin com o seu homólogo Vladimir Putin, que o condecorou com a Ordem Agostinho Neto, certamente em homenagem aos muitos milhares de angolanos que Agostinho Neto mandou assassinar nos massacres de 27 de Maio de 1977.

As Américas fizeram também parte do périplo diplomático do presidente angolano (também não nominalmente eleito e que é ais mesmo tempo Presidente do MPLA e Titular do Poder Executivo), que fez a sua primeira visita de estado a Cuba em Julho, prolongando a estada já em registo de férias, e esteve a título privado nos Estado Unidos da América, em Março de 2018.

Como seria de esperar, África foi o continente mais visitado, com deslocações a onze países: África do Sul, República Democrática do Congo (RD Congo), Congo, Ruanda, Cabo Verde, Namíbia, Zâmbia, Costa do Marfim, Zimbabué e Moçambique.

João Lourenço esteve na tomada de posse do presidente sul-africano Cyril Ramaphosa, em Maio de 2019, e foi convidado a participar na 10ª Cimeira dos BRICS (bloco que integra o Brasil, China, Rússia, Índia e África do Sul), que teve lugar a 27 de Julho, em Joanesburgo, na África do Sul.

Participou ainda noutras cimeiras de alto nível, destacando-se duas assembleias gerais da ONU e duas cimeiras dos Chefes de Estado e de Governo da SADC (Comunidade de Desenvolvimento da África Austral), em Agosto de 2019 na Tanzânia e, no ano anterior, na Namíbia.

A nível lusófono, recebeu líderes partidários, parlamentares e ministros da Defesa da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e esteve na cimeira realizada em Julho na ilha cabo-verdiana do Sal, onde se mostrou favorável à melhoria da mobilidade entre os vários países por trazer várias vantagens, entre as quais, a aproximação dos povos.

Angola vai assumir a presidência rotativa da Comunidade em 2020 e deverá ser aqui que vai ser assinado o acordo de mobilidade e circulação de pessoas na CPLP que tem estado a ser negociado.

João Lourenço orientou igualmente, em Luanda duas cimeiras quadripartidas, que contaram com os chefes de Estado do Ruanda, Paul Kagame, do Uganda, Yoweri Museveni, da RD Congo Felix Tshisekedi, e ainda do presidente do Congo, Denis Sassou Nguesso, que participou como convidado especial do país anfitrião.

As cimeiras, para pôr fim às tensões entre o Ruanda e o Uganda, culminaram na assinatura de um acordo, tendo o papel de João Lourenço na mediação entre os dois países e na pacificação da região dos Grandes Lagos sido destacado na imprensa internacional.

O chefe do executivo angolano orientou ainda a cimeira da África Central em Agosto de 2018 acolhendo os seus homólogos da República do Congo, Denis Sassou-Nguesso, e do Gabão, Ali Bongo.

No mesmo ano, em Abril recebeu em Luanda os seus homólogos da SADC numa cimeira extraordinária para analisar a situação na RD Congo e no Lesoto e no mês anterior participou em Kigali (Ruanda) numa outra cimeira extraordinária de Chefes de Estado e de Governo da União Africana (UA).

Em Fevereiro de 2018 tinha participado em Kinshasa, na RD Congo, numa outra cimeira, ao lado do homólogo do país anfitrião, o então presidente Joseph Kabila, e de Dennis Sassou Nguesso, um encontro que aconteceu três meses depois de uma outra reunião tripartida, desta vez em Brazaville, no Congo, para analisar a paz na RD Congo.

Em Janeiro de 2018, João Lourenço marcou presença em Davos, na Suíça, no Fórum Económico Mundial, a primeira vez que Angola esteve representada ao nível do Chefe de Estado, desde a sua criação em 1971.

Na agenda, levou um conjunto de medidas económicas e políticas que diz quer implementar na “Nova Angola” para apresentar aos “mais ricos do mundo.

Em Novembro de 2017, participou na cimeira entre a União Europeia e a União Africana, em Abidjan, a capital económica da Costa do Marfim, encontrando-se na altura com António Costa.

Durante o actual mandato, João Lourenço visitou ainda, a título privado, Espanha e Moçambique, em 2019. Assistiu igualmente às exéquias de Etienne Tshisekedi, antigo líder da oposição congolesa na RD Congo, em Maio, e do ex-presidente do Zimbabué, Robert Mugabe, juntamente com outros chefes de estado africanos.

Em Luanda, recebeu diversos chefes de estado incluindo, os Presidentes de Madagáscar, Hery Rajaonarimampianina, do Botswana, Mokgweetsi Masisi, do Gabão, Ali Bongo, do Zimbabué, Emmerson Mnangagwa, da República Centro-Africana Faustin Archange Touadera, do Gana, Nana Addo Dankwa Akufo-Addo, do Chade, Idriss Déby Itno e o sheik do Dubai, Ahmed Dalmoor Al-Maktoum.

Recebeu ainda os primeiros-ministros de Itália, Paolo Gentiloni, Lesoto, Thomas Thabane e da Federação Russa, Yuri Trutnev, bem como os lusófonos Ulisses Correia e Silva, primeiro-ministro de Cabo Verde, e o seu homólogo são-tomense, Jorge Bom Jesus.

O próximo ponto alto da agenda diplomática do chefe do executivo angolano deverá ser um novo encontro com Vladimir Putin, na cidade russa de Sochi, durante o Fórum Rússia-África, que acontece a 24 de Outubro.

Portugal também merece destaque

Para além de num passado (ainda) recente pôr de joelhos e de mão estendida políticos como José Sócrates, Passos Coelho, Paulo Portas, Jerónimo de Sousa e Cavaco Silva, o MPLA na era de João Lourenço juntou ao seu séquito de sipaios o primeiro-ministro António Costa, a líder do CDS (Assunção Cristas) e o líder do PSD (Rui Rio).

O processo português de bajulação do dono de Angola (para Lisboa não importa quem seja, desde que seja do MPLA) começou, de facto, há muito tempo. Recorde-se, por exemplo, que o então presidente da Assembleia da República de Portugal elogiou no dia 17 de Dezembro de 2007 (era de José Eduardo dos Santos), em Luanda, a política externa angolana e deu os “parabéns” ao país pela “ambição” de um papel cada vez maior no continente africano e no Atlântico Sul.

“Um país com estas capacidades, aliando o seu potencial económico à sua diplomacia criativa e à capacidade militar, tem que ter uma ambição regional. Parabéns Angola por ter uma ambição regional!”, felicitou Jaime Gama num discurso aplaudido e que, mais coisa menos coisa, poderia ter sido feito por um qualquer deputado da maioria, ou seja do MPLA.

E disse, com nova revoada de aplausos das bancadas do Parlamento, que Angola “olha de igual para igual” para os principais protagonistas do Atlântico Sul, como o Brasil, Argentina ou África do Sul: “Parabéns Angola por olhar para o Atlântico Sul.”

O discurso apologético de Jaime Gama poderia, igualmente, ter sido feito por qualquer um dos actuais palhaços de plasticina que estão na ribalta dos areópagos políticos, partidários e parlamentares de Portugal. Atá há pouco tempo a única excepção era o Bloco de Esquerda. Hoje já não é.

Com todo este suporte bajulador, o MPLA continua a encher o peito e a garantir que os angolanos não vão deixar que “os mentirosos, os demagogos e os caluniadores cheguem ao poder”.

“Aqueles que teimam em fomentar agitação, instabilidade e negar o que toda a gente tem diante dos olhos terão a devida resposta nas urnas”, avisou em tempos José Eduardo dos Santos.

Rui Rio, que agora discute o lugar de primeiro-ministro com António Costa, bajula o MPLA, ocultando deliberadamente os crimes cometidos desde 1975 por este partido que continua a vangloriar-se da tese de que o MPLA é Angola e de que Angola é o MPLA. O líder do PSD (tal como o PS, CDS, PCP e BE) julga que somos todos matumbos e que o MPLA é o único partido existente no país.

Folha 8 com Lusa

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