O Presidente da República de Angola, João Lourenço, fez hoje mais algumas exonerações ao nível dos ministérios, nos governos de província e nas estruturas de empresas e institutos públicos. É uma rotina que o também Presidente do MPLA e Titular do Poder Executivo cumpre quase religiosamente. A bem, é claro, da nação do partido que está no Poder há 44 anos.

Em decretos assinados esta terça-feira, divulgados pela Presidência da República em comunicado, João Lourenço exonerou do cargo de secretário de Estado da Aviação Civil, António Cruz Lima, sendo substituído por Carlos Fernandes Borges.

O Presidente da República decidiu também exonerar dois vice-governadores da província de Cuando Cubango. Luísa Mateus, responsável pelo sector político social e económico, vai ser substituída por Carla Cativa, enquanto Bento Francisco Xavier, que tinha as áreas dos serviços técnicos e infra-estruturas, vai ser substituído por Afonso de Antas Miguel.

Já na província do Zaire, António Félix Kialunguila foi exonerado do cargo de vice-governador para o sector político, social e económico, assumindo agora essas funções Fernanda Guerra.

João Lourenço decidiu também exonerar os membros do Conselho de Administração do Grupo ENSA, liderado por Manuel Joaquim Gonçalves, cargo que vai ser ocupado por Carlos Duarte.

Foram igualmente exonerados os integrantes do Conselho de Administração da Agência Angolana de Regulação e Supervisão de Seguros – ARSEG, existindo também alterações no Conselho de Administração da Comissão de Mercado de Capitais.

O Presidente afastou ainda Licínio Contreiras do cargo de presidente do Conselho de Administração da Agência de Investimento e Promoção de Exportações, sendo substituído por António da Silva, mudando ainda os administradores executivos da Sociedade de Desenvolvimento da Zona Económica Especial Luanda-Bengo.

João Lourenço continua a dar prioridade máxima às exonerações e mínima (ou quase nula) à governação. Tudo normal, portanto. Talvez se consiga perceber a estratégia do Presidente, que no essencial se caracteriza por não ter estratégia, se nos recordarmos da exoneração do general Geraldo Sachipengo Nunda do cargo de Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas Angolanas, e da nomeação para o lugar do general António Egídio de Sousa Santos “Disciplina”.

A escolha do general “Disciplina” não poderia ser mais emblemática. Pôr no comando das FAA o seu chefe do Estado-Maior General adjunto para a Educação Patriótica, reflecte com exactidão o que João Lourenço quer dos seus colaboradores para que estes o possam ajudar a “educar patrioticamente” todos aqueles que não são do MPLA e, ainda, todos aqueles que sendo do MPLA possam estar a pensar mudar de rumo.

Fará sentido, quase 44 anos depois da independência, 17 após a paz total, falar-se de “educação patriótica”? Ter um chefe do Estado-Maior General adjunto exactamente para a Educação Patriótica? Pelos visto faz. É claro que se na Coreia do Norte faz sentido, em Angola também faz, considera certamente o MPLA. E considera bem, tanto que está no Poder desde 1975.

O chefe do Estado-Maior General adjunto das Forças Armadas Angolanas (importante: para Educação Patriótica), general Egídio de Sousa Santos “Disciplina”, explica tudo.

Ou seja, devido à sua posição geoestratégica e às suas potencialidades em recursos naturais, Angola tem sido alvo de várias tentativas de desestabilização através do incentivo – escreveu em tempos a Angop – “de reformas correntes à desobediência e desacatos às autoridades legalmente instituídas”.

O general fez estas afirmações quando, em 2015, discursava na abertura do 6º curso de estratégia e arte destinado a oficiais generais e almirantes das Forças Armadas Angolanas.

Será então de concluir, ou não fosse o general Egídio de Sousa Santos “Disciplina” responsável pela “Educação Patriótica”, que por exemplo os nossos jovens activistas se inserem nessa monumental e poderosa tentativa de desestabilização, exactamente por ausência da… educação patriótica. O mesmo se passou com todos aqueles que já foram exonerados.

De acordo com o oficial general, neste “sentido deve-se prestar maior vigilância a estes cenários para não permitir que a paz duramente conquistada à custa do suor e sangue de muitos filhos da pátria seja perturbada”.

Está bem visto. Provavelmente os jovens activistas (e não só eles) estariam, para além de um golpe de Estado, a preparar-se para a guerra, pondo a paz, “duramente conquistada à custa do suor e sangue de muitos filhos da pátria”, em causa. Já os políticos exonerados parece que também estavam a pôr em causa a mais emblemática regra de João Lourenço que, sendo contra a bajulação, exige que os seus colaboradores mostrem que o sabem lisonjear de forma servil.

Por hoje (amanhã logo se verá) estas são as mexidas agora decretadas. Mas, como é óbvio, a procissão ainda vai no adro e o MPLA ainda tem mais alguns peritos prontos a entrar no circuito governativo (em sentido lato) e mais uns tantos na linha de montagem da JMPLA. João Lourenço garante assim o cumprimento, embora parcelar, da promessa da criação de alguns dos 500 mil empregos, bem como a satisfação da máquina partidária.

Tentativa e erro é um método de resolução de problemas em que várias tentativas são feitas para chegar a uma solução. O MPLA adoptou essa estratégia há 44 anos e lá vai procurando, sempre com claros benefícios próprios, encontrar a solução para a quadratura do seu círculo de incompetências.

É um método básico de aprendizagem que essencialmente todos os organismos usam para aprender novos comportamentos. Tentativa e erro é tentar um método, observar se ele funciona, e se não funcionar tentar um outro novo método. Este processo é repetido (exonera, nomeia, exonera, nomeia) até que o sucesso ou uma solução seja alcançada, o que parece estar ainda muito longe de Luanda. Mas acredita-se que João Lourenço vai lá chegar. José Eduardo dos Santos andou a tentar durante 38 anos.

Por exemplo, imaginemos que João Lourenço quer mover um objecto tão grande como um sofá no seu Palácio Presidencial. Primeiro tentou movê-lo pela porta da frente, mas ele não passou. Em seguida, experimentou pela porta de trás mas o resultado foi o mesmo. Foi então que resolveu culpar o marimbondo do anterior inquilino por lá ter posto o sofá. Como nada resultava, exonerou o mordomo angolano contratando para o seu lugar um arquitecto cubano. O sofá continuava impávido e sereno. Sucediam-se as tentativas e os erros.

O Presidente teima em não perguntar à zungueira lá da esquina o que pensa do assunto. Para ele, se os génios do MPLA não encontram uma solução, é porque não há solução. Tivesse a coragem e hombridade de falar com a zungueira e a solução estaria encontrada. Ela diria: não tentem passar o sofá na horizontal mas sim na vertical…

Edward Thorndike , um pesquisador que estudou a teoria da aprendizagem por tentativa e erro usando gatos, fez especialmente uma “caixa quebra-cabeças”, estudou como os gatos aprenderam a escapar da caixa e concluiu que era através de tentativa e erro. Esta foi uma mudança de visão a partir da teoria da aprendizagem que propunha que a resolução de problemas acontece num súbito lampejo de entendimento, em vez de através de tentativa e erro.

Com razão, João Lourenço afirma que as “exonerações são actos de governação normal. É evidente que houve muitas exonerações, mas houve tantas quantas necessárias”, respondeu João Lourenço, em Janeiro de 2018, numa conferência de imprensa no Palácio Presidencial, em Luanda.

A sua quase patológica ânsia de exonerar levou-o mesmo, em Dezembro de 2017, a exonerar uma pessoa que já tinha morrido há dois anos (o engenheiro José Pedro Tonet, falecido a 23 de Dezembro de 2015, na África do Sul, sendo na altura da sua morte administrador não executivo da ENANA EP).

E quando assim é…

Folha 8 com Lusa

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