O Presidente da República portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa, disse à agência Lusa que foi “uma opção intencional” sua passar o terceiro aniversário do mandato em Luanda, Angola, país onde já esteve mais de 20 vezes, desde 1966. Se a isso juntar o aniversário natalício do anfitrião e excluir qualquer referência ao país real (o tal dos 20 milhões de pobres), é o climax da bajulação.

Nessas muitas viagens, Marcelo esteve pessoalmente com o anterior chefe de Estado angolano, José Eduardo dos Santos, com o líder histórico da UNITA, Jonas Savimbi, e também conheceu o actual Presidente de Angola, João Lourenço, há mais de vinte anos.

Marcelo Rebelo de Sousa foi a Angola pela primeira vez no verão de 1966, quando tinha 17 anos, em plena guerra colonial. “Conheci Angola toda, incluindo Cabinda”, referiu.

Agora, aos 70 anos, regressa em visita de Estado, numa visita que começa oficialmente na quarta-feira e termina precisamente na data em que completa três anos como Presidente da República (nominalmente eleito, ao contrário de João Lourenço), 9 de Março, sábado.

“Foi uma opção intencional minha e foi possível conjugar o programa”, disse o chefe de Estado, em resposta à agência Lusa, que o questionou sobre o significado de celebrar esse terceiro aniversário em Angola.

Nessa tarde, em Luanda, terá um encontro com membros da comunidade portuguesa em Angola, onde, segundo dados consulares de 2017, estão registados 135 mil cidadãos portugueses, a maioria com dupla nacionalidade.

“É a primeira vez que passo o mandato com as comunidades portuguesas no estrangeiro – e aí convirjo com o Presidente Cavaco Silva”, acrescentou Marcelo Rebelo de Sousa.

O seu antecessor celebrou o primeiro ano de mandato com os portugueses e lusodescendentes residentes no Luxemburgo, em 2007, e o segundo no Brasil, em 2008.

Antes do 25 de Abril de 1974, Marcelo Rebelo de Sousa passou por Angola “mais oito vezes, de passagem para Moçambique”, então uma província ultramarina de Portugal, da qual o seu pai, Baltazar Rebelo de Sousa, foi governador-geral entre 1968 e 1970.

Nas décadas de 1980 e 1990, calcula ter estado em Angola “mais 12 vezes”, até ao virar do século.

Uma dessas vezes foi em Abril de 1997, quando liderava o PSD (partido que está incondicionalmente e desde há muito com o MPLA), para a posse do designado Governo de Unidade e Reconciliação Nacional (GURN) angolano, cerimónia em que Jorge Sampaio, na altura Presidente da República Portuguesa, discursou.

Essa foi uma das ocasiões em que Marcelo Rebelo de Sousa esteve com José Eduardo dos Santos, Presidente de Angola (também nunca nominalmente eleito) e do MPLA (partido a quem Portugal ofereceu o Poder em 1975), e com Jonas Savimbi, líder histórico e fundador da UNITA, principal força da oposição, que também indicou representantes para aquele executivo – que, contudo, não poria fim à guerra civil.

Depois disso, como professor de direito, foi júri de provas académicas e deu aulas na Universidade Agostinho Neto, em Luanda, onde irá estar agora, durante a sua visita de Estado. Deu conferências e visitou outras instituições de ensino superior em Angola. Sempre manteve muto boas relações com os dirigentes do MPLA, manifestando um completo e total alheamento quanto ao facto de Angola ser um país em que poucos têm milhões e milhões têm pouco… ou nada.

“Foi na posse do GURN que conheci o [actual] Presidente João Lourenço, num jantar oferecido por ele”, adiantou Marcelo Rebelo de Sousa.

Já como chefe de Estado, deslocou-se a Luanda para assistir à posse de João Lourenço como novo Presidente de Angola, no dia 26 de Setembro, e na véspera foi recebido pelo seu antecessor, José Eduardo dos Santos.

Marcelo até leva na bagagem o… BE

O Bloco de Esquerda vai integrar, pela primeira vez, uma visita oficial a Angola e a deputada Maria Manuel Rola acompanhará a comitiva presidencial de Marcelo Rebelo de Sousa na deslocação.

“O Bloco de Esquerda vai estar presente com um deputado na visita a Angola do presidente da República. Acompanhamos a expectativa de quem, em Angola, luta pelos direitos humanos e pela democracia”, adiantou fonte oficial do partido que, cada vez mais, tenta esconder o rabo mas deixa o gato de fora.

Em Novembro do ano passado, uma comitiva do BE, da qual fazia parte a líder bloquista, Catarina Martins, já se tinha reunido com o presidente de Angola, João Lourenço, em Lisboa, durante a sua visita a Portugal. Fonte oficial do BE adiantou então que o encontro foi pedido pelo Presidente de Angola, não tendo sido divulgado antecipadamente.

À saída do encontro, em declarações aos jornalistas, Catarina Martins afirmou que “é sabido que o Bloco de Esquerda tem tido uma posição muito crítica sobre o regime angolano e sobre o MPLA”.

“No entanto, nós não deixamos de acompanhar a expectativa do povo angolano para que possam existir mudanças neste período”, destacou então. E, pelos vistos, Catarina Martins já conseguiu ver o que os angolanos ainda não vira: mudanças de facto e não apenas cosméticas, estruturantes e não apenas paliativas, necessárias e não só acerto de contas com a família de Eduardo dos Santos.

Segundo Catarina Martins, na reunião foi transmitido a João Lourenço que “as críticas que o Bloco tem feito ao regime angolano sobre as necessidades de liberdades políticas são críticas” que se mantêm. Mantêm? Não. Já pouco mais são do que uma mera recordação do passado.

“Reconhecemos que há alguns sinais de mudança e acompanhamos a expectativa do povo angolano numa mudança, achamos que é muito importante a colaboração da justiça de Portugal e de Angola porque há uma elite económica que se tem movido na sombra e que tem vindo a depredar os recursos tanto de um país como do outro”, elencou. A líder do BE garantiu que reiterou ao Presidente angolano “as posições de sempre do Bloco”.

Deve ter reiterado com uma tal convicção que, hoje, é voz corrente no sei do MPLA que o BE está “domesticado”.

“Exigências com liberdades democráticas, muita preocupação com a corrupção e, nomeadamente, com a elite económica que circula entre Portugal e Angola, que não é só um problema angolano, é também um problema português”, concretizou.

Sobre a avaliação que faz da governação de João Lourenço, Catarina Martins disse, apenas, que o BE acompanha “a expectativa do povo angolano de que os sinais se possam converter em mudanças muito concretas em nome do pluralismo, das liberdades e do desenvolvimento”.

Folha 8 com Lusa

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