A UNITA, o maior partido da oposição angolana enquanto o MPLA quiser, questionou hoje a “experiência” do novo governador de Luanda, Sérgio Luther Rescova, líder da Juventude do MPLA, partido no poder desde 1975, para dirigir aquela “complexa” província. Ninguém do Galo Negro parece ter aprendido as lições do seu fundador, Jonas Savimbi.

“L uanda é uma cidade que tem grandes desafios, veremos o que o novo governador irá fazer, não sei se ele terá experiência suficiente para estar à frente de uma estrutura tão importante como é Luanda, mas o tempo dirá”, disse hoje Alcides Sakala, porta-voz da UNITA, em declarações à agência Lusa.

Experiência? Capacidade? Integridade? Moral? Formação? Conhecimento? Honorabilidade? Claro que Sérgio Luther Rescova tem. Qualquer angolano de primeira, mesmo que para contar até 12 tenha de se descalçar, está apto a ser governador, ministro e até presidente. O simples facto de ser do MPLA dá-lhe, automaticamente, essa capacidade.

Alcides Sakala parece ter-se esquecido que Angola é o MPLA e o MPLA é Angola. Entre um néscio do MPLA e um génio da UNITA (ou até sem partido), quem é que João Lourenço escolheria para governador de Luanda? Sempre assim foi e sempre assim será.

Como o Folha 8 ontem noticiou, o Presidente João Lourenço exonerou Adriano Mendes de Carvalho do cargo de governador da província de Luanda, nomeando para aquelas funções, Sérgio Luther Rescova, primeiro secretário nacional da Juventude do Movimento Popular de Libertação de Angola (JMPLA).

Para Alcides Sakala, trata-se da “habitual dança de cadeiras” a nível da presidência angolana, afirmando que João Lourenço “vem tentando acertar a sua estratégia”. O problema é que em cada remodelação que faz, o Presidente da República baixa a fasquia da qualidade. Para além de ter de recorrer ao baú de José Eduardo dos Santos, já não tem gente de nível e com nível para ocupar os cargos.

“Mas, fica o benefício de dúvida para aferirmos depois”, disse Alcides Sakala, mostrando uma inversão estratégica dos ensinamentos basilares de Jonas Savimbi. O antigo Presidente da UNITA dizia que ia de derrota em derrota até à vitória final. Actualmente, o Galo Negro (já sem asas e depenado) vai de derrota em derrota até à… derrota final.

Questionado se anseia por dias melhores para capital angolana, província com cerca de sete milhões de habitantes, com a governação de Sérgio Luther Rescova, o também deputado à Assembleia Nacional falou em “ciclos incompletos” dos governadores de Luanda.

“O que temos verificado é que os governadores, muitas vezes, não terminam o seu ciclo de gestão da cidade e ficam depois programas incompletos, infelizmente tem sido assim”, salientou.

Contudo, acrescentou, “sem tirar conclusões antecipadas fica o benefício da dúvida para vermos como é que ele poderá lidar com uma situação tão complexa que a gestão de uma cidade que tem milhões de habitantes”.

Pois é. João Lourenço diz que quer implementar uma era de maior responsabilização, na qual não será tolerada a “má gestão financeira e patrimonial ou ainda o nepotismo praticado por alguns quadros responsáveis”. Como se comprova com este caso, ninguém reparou que no “contrato/promessa” que o Presidente “assinou” com os angolanos existe uma cláusula que diz: olhai para o que nós dizemos e não para o que fazemos.

Há pouco mais de dez anos (Agosto de 2008), o Jornal de Angola guinchou com todos os decibéis disponíveis, dizendo que “Fernando Heitor, com tiques savimbistas de triste memória, com esgares de Jack o Estripador, também falou de milhões de dólares desaparecidos no pântano da corrupção. Heitor e a UNITA devem saber para onde foram os biliões de dólares dos diamantes de sangue”.

Mesmo sem ter frequentado as aulas de educação patriótica (ainda está a tempo), o ex-deputado da UNITA resolveu em 2017 saltar a barricada e passar-se para o lado do MPLA. Não está em questão saber o montante da compra mas, apenas, esperar o que vai dizer o Jornal de Angola sobre esta comprada conversão.

Ainda segundo o Jornal de Angola, “Fernando Heitor, no seu discurso, ainda escorria umas gotas de raiva pelos cantos da boca. Um rapaz desempoeirado apareceu com a camisola do MPLA, disse que “o dinheiro é nosso” e despiu a camisola. Ficou nu da UNITA para cima. O dinheiro dos diamantes de sangue voa baixinho, como o galo negro”.

Pois é. Mas, agora, o comportamento de Fernando Heitor foi purificado e o ex-deputado (como outros ex-altos dirigentes da UNITA) passou de besta a bestial. É claro que Fernando Heitor não está preocupado. Os valores são outros e, como esperado, vai dizer cobras e lagartos de Jonas Savimbi e acrescentar que nunca ouviu falar dos princípios do Muangai.

Para evitar assassinar os dirigentes que restam à UNITA, o MPLA optou por oferecer prometer tudo a todos: cargos, carros, motas, bicicletas, comida, bebida, dinheiro etc.. Conseguiu até compram deputados da oposição interna, jornalistas, políticos e magistrados portugueses…

O caso Fernando Heitor

A 13 de Março de 1966, um grupo de nacionalistas liderado por Jonas Malheiro Savimbi, começou a escrever uma importante parte da história de Angola. Militantes como Fernando Heitor continuam a enterrar o espírito que deu corpo ao que se decidiu no Muangai.

Jonas Savimbi disse, em 1975, no Huambo: “a UNITA, tal como Angola, não se define – sente-se”. Mas para sentir é preciso ser muito mais que um mercenário, que um sipaio, não é Fernando Heitor?

Foi no Muangai, Província do Moxico. Daí saíram pilares como a luta pela liberdade e independência total da Pátria; Democracia assegurada pelo voto do povo através dos partidos; Soberania expressa e impregnada na vontade do povo de ter amigos e aliados primando sempre os interesses dos angolanos.

Resultaram também a defesa da igualdade de todos os angolanos na Pátria do seu nascimento; a busca de soluções económicas, priorização do campo para beneficiar a cidade; a liberdade, a democracia, a justiça social, a solidariedade e a ética na condução da política.

Será que Fernando Heitor ou até mesmo Isaías Samakuva sabem quem disse: ”Eu assumo esta responsabilidade e quando chegar a hora da morte, não sou eu que vou dizer não sabia, estou preparado”?

A UNITA mostrou até agora, é verdade, que sabe o que é a democracia e adoptou-a definitivamente. E é exactamente por isso que permitiu que no seu seio se gerasse gentalha como Fernando Heitor, Geraldo Sachipengo Nunda ou “Black Power”. Mas também é verdade que gerou Gente como Alda Sachiango, Isaías Samakuva, Alcides Sakala, Paulo Lukamba Gato, Samuel Chiwale, Jeremias Chitunda, Adolosi Paulo Mango Alicerces, Elias Salupeto Pena, Jonas Savimbi, António Dembo ou Arlindo Pena “Ben Ben”.

Isaías Samakuva mostrou ao mundo que as democracias ocidentais estão a sustentar um regime corrupto e um partido que quer perpetuar-se no poder. E de que lhe valeu isso? De nada. Esse regime corrupto continua, entre outros crimes, a comprar no mercado da UNITA.

Muitos desses craques (Fernando Heitor é apenas o mais recente exemplo) não conseguem olhar para além do umbigo, do próprio umbigo. Habituaram-se de tal maneira à lagosta que esqueceram a mandioca, que esqueceram que Savimbi também ensinava que era preferível ser livre de barriga vazia do que escravo com ela cheia.

Folha 8 com Lusa

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