Em Setembro de 2014 José Eduardo dos Santos exonerou o governador provincial de Luanda, Bento Francisco Bento, e mais dois dos três vice-governadores da capital. Em linguagem popular, mudou as moscas mas deixou a boiar a matéria putrefacta que as alimenta. Quase cinco anos depois, o país tem novas moscas mas o que está a boiar na nossa sociedade é a mesma matéria.

Por Orlando Castro

Que então as coisas na capital, tal como no país, não estavam bem, todos sabiam. Mas não estavam como continuam a não estar. Remendando aqui, esburacando ali, Angola continua a precisar sobretudo de uma governação competente e não, como acontece, de uma gestão casuística que há 44 anos potencia interesses individuais e marginaliza o colectivo.

Na altura, e mais uma vez, Eduardo dos Santos avançou com a emblemática criação de uma Comissão de Reestruturação do Governo da Província de Luanda. O que é que isso significou? Tão-somente a manutenção de tudo o que estava, embora com novas personalidades da sua inteira confiança a quem, necessariamente, era necessário dar protagonismo e rendimentos. Hoje, João Lourenço faz o mesmo.

Copiando, sem pagar direitos de autor, o que acontece em outras capitais do mundo, o então presidente incumbiu essa nova Comissão de implementar, após um estudo que se calculava demorado e caro, a desconcentração administrativa e a adopção de um modelo de administração local diferenciado das restantes províncias do país.

Pela aragem não era preciso grande sabedoria para se concluir que as mudanças, no embrulho, iriam apenas ocultar a fraca qualidade do produto. Para pôr a capital em ordem, o que é diferente de impor ordem na capital, seria necessário alterar o modo e o modelo de governação e não apenas os seus executores. O mesmo se aplica ao país, ou reino – segundo o ADN “profundo” do MPLA. Para isso teria o Presidente de escolher especialistas competentes, não confundindo a subserviência partidária com competência. Mas Eduardo dos Santos avaliava a competência pela concordância com as suas teses, como se verificou com a sua escolha de João Lourenço. Para estar sempre de acordo com a sua visão bastaria a própria sombra. Assim, na impossibilidade de nomear a sombra, escolheu os que mais se aproximavam dela.

Não faltam exemplos, muitos deles de elevada eficiência, de como se governam as grandes metrópoles. Mesmo sem sair do espaço da lusofonia, não falta matéria para adaptar, experiências para partilhar. Brasil, Moçambique ou Portugal estão aí à mão de semear. Mas não era isso que Eduardo dos Santos queria. Mas não é isso que João Lourenço quer.

A suposta reestruturação de Luanda (e a capital é apenas e só o paradigma do que o MPLA quer para o país) sempre se afigurou como um mega centro de emprego para os amigos. Tal como no poder central, mudam-se algumas pessoas para que tudo continue na mesma.

A isso acresce que por “ocupar” a mesma cidade, o poder central acha-se no direito de querer uma capital à sua imagem e semelhança, pelo que se calhar faria mais sentido Luanda não ter governador e a administração da província ser feita directamente pelo Presidente da República. Um pouco à imagem do que faz, embora de forma indirecta, com as restantes províncias do país. Colocar-se-ia certamente a questão dos tachos para a rapaziada do costume. Mas isso não seria problema. O Governo poderia criar para eles um ministério da reestruturação territorial, ou das infra-estruturas basilares etc..

E, convenhamos, se o Governo do país está em Luanda, é chato não ter ainda uma cidade feita à imagem e semelhança do Presidente, com exuberantes bairros dos Ministérios e dos ministros, com uma Torre João Lourenço ao estilo da do seu amigo Trump, ou com uma “Wall Street” do reino feudal. Acresce que, apesar de todos os malefícios herdados do colonialismo, será exequível dar à capital um outro nome, muito mais inclusivo, assertivo e internacional, tipo “JLo Town”.

Homenagear, eternamente, os (nosso) “deuses”

Por cá, os cientistas do MPLA terão descoberto uma espécie que há muito se suspeitava sobre a existência de uma desconhecida espécie de jacarés. Crê-se, embora ainda sem base científica, que essa rara espécie é de cor preta e vermelho-rubro, ostentando no dorso uma roda dentada e uma catana.

Os dados preliminares, recolhidos ao longo das últimas quatro décadas, permitem concluir tratar-se de um tipo de jacarés com elevado quociente de inteligência, pois só se alimentam de seres humanos considerados de segunda categoria, para além de respeitarem democrática e solenemente a escolha da ementa dos tratadores.

Embora se desconfiasse que a espécie existe há muitos anos, só em 2013 foi possível confirmar, através de insuspeitos testemunhos, que esses jacarés têm uma especial predilecção alimentar por cidadãos que antes tenham estado detidos e tenham sido torturados.

Embora existam muitos nomes passíveis de serem dados a estes jacarés, é tradição os cientistas respeitarem escrupulosamente a hierarquia política da pátria dos animais, homenageando as mais emblemáticas e divinas do país. Assim, à espécie foi dado o nome Crocodylus Eduardo dos Santos.

Entretanto, na mesma senda, “na província do Namibe, descobriu-se um sapo (“Poyntonophrynus pachnodes”) que se esconde debaixo das pedras e da camada de folhas, no solo húmido. É minúsculo e vive num único local do mundo – a Serra da Neve, na província do Namibe”. A característica mais distintiva desta nova espécie é ser um sapo pigmeu que não tem ouvidos.

O sapo pigmeu da Serra da Neve já tem inerente a si um mistério: não tendo ouvidos, como é que ouvirá os chamamentos de outros elementos da sua espécie?

Pois é. Exactamente porque o sapo não tem ouvidos e, por isso – presume-se – só ouve o que lhe interessa, deverá chamar-se (com toda a propriedade) “Poyntonophrynus pachnodes JLo”.

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