Morreu mais uma. Paz à sua alma. Mais uma mulher. Uma mãe zungueira. Inocente. Morreu nas mãos de um energúmeno assassino, vestido com as cores do Estado (que Estado, afinal?), postando um colete azul, identificado mais com a morte do que com a pedagogia, mais com ódio do que com o civismo.

Por William Tonet

O crime pelo qual mereceu tão cruel, covarde e selvática sentença foi o de trabalhar honestamente, rasgando as ruas de uma cidade (sem oportunidades empregantícias públicas e privadas), vendendo hortícolas, para alimentar sete filhos, um dos quais deficiente, mãe, duas sobrinhas órfãs e marido desmobilizado das Forças Armadas, sem pensão de reforma.

Com o sangue escorrendo-lhe pelo corpo, segurando a dor causada pela bala assassina, alojada no peito, ela, num esforço hercúleo não deixou estatelar-se no chão, sem antes proteger e aparar o filho que trazia nas costas, que num choro inocente e revoltante assistiu à partida definitiva da mãe, Maria Ngola, no dia 20 de Agosto de 2019, na rua 12 do São Paulo (imediações da Administração do Sambizanga).

Porra, porra, porra! Não consegui evitar esta morte, pese a revolta interior, ao presenciar tão hediondo acto. Senti-me bwé traído. Fiquei impávido e sereno, com a sensação de covardia, por na tentativa impulsiva de aproximação, rapidamente os covardes assassinos montaram um cordão, apontando as baionetas, contra qualquer ousadia de indagação ou de indignação.

É demais, a continuação desses actos, onde a culpa assassina continua a morrer solteira, como se existisse um livro branco das administrações municipais e provinciais, para se investir contra os pobres que dignamente (e como ninguém) lutam pela sobrevivência, em oposição ao alistamento nos exércitos da prostituição e da delinquência.

Até quando vamos assistir ao show da barbárie, sem uma indignação pública, face ao silêncio de quem de direito, como se a vida não tivesse valor, nem protecção constitucional e a pena de morte, fosse uma instituição legal.

Os agentes de Fiscalização das administrações devem ser, têm de ser, funcionários íntegros para, nos actos quotidianos, constituírem-se num exército de valores morais, éticos e republicanos, que honrem a imagem do Titular do Poder Executivo e do Estado angolano.

A fiscalização deve ser talhada, não para fazer uso da força bélica, assassinando ou roubando os parcos haveres das vendedoras e vendedores ambulantes, mas, para, no cometimento de infracções, saber aplicar coimas ou multas, aos infractores.

Nunca, num verdadeiro Estado de Direito e Democrático, a lei da bala deve ser avocada como recurso primário, na litigância, entre agentes da autoridade e cidadãos, sendo, por via disso, um crime grave (salvo se estivermos na presença de um exército secreto), também, os agentes da Fiscalização portarem armas de fogo, na actividade do dia a dia, nas cidades e vilas, contra quem luta pela vida.

Porra! Qual era a necessidade destes agentes andarem armados ou terem autorização para usar armas de fogo, se na maioria das vezes, estes, não têm o discernimento e serenidade para não premir o gatilho, contra pacatos e inocentes trabalhadores, atirados para a marginalidade.

É preciso o Titular do Poder Executivo dar um basta, havendo real interesse, em colocar ordem, nestes agentes públicos, cada vez mais fadados, face às práticas dantescas, em transformarem-se (será que já não o são?), numa grande organização criminosa, com objectivo único de combater, roubar, prender e assassinar, trabalhadores liberais pobres.

Porra! É muito difícil, quem de direito, perceber, não haver trabalho, mas fome. Muita fome, senhores e, para não morrerem na indigência extrema, o recurso dos pobres é a lei da sobrevivência digna, conceito inexistente no dicionário de muitos dos endinheirados, que nos (des)governam.

Eu penso ser possível, havendo bom senso, dos órgãos do poder, regular o comércio ambulante sem combater os pobres, roubar os seus haveres, matar os seus sonhos, em nome da redução da pobreza, que grassa pelo país, recorrendo, somente, a leis justas, cidadãs e um verdadeiro olhar republicano, passando-se a colocar o pobre no centro do orçamento.

Partilhe este artigo