O Governo do MPLA acusou hoje a UNITA de ser um “elemento perturbador” no processo das exéquias fúnebres do fundador e líder histórico do “galo negro”, Jonas Savimbi, ao perseguir “objectivos políticos” em detrimento da questão familiar. E se o MPLA o diz é porque é (e é mesmo)… mentira.

A acusação foi feita pelo general Pedro Sebastião, ministro de Estado e Chefe da Casa de Segurança do Presidente das República, numa conferência de imprensa, em Luanda, em que – na impossibilidade de responsabilizar o próprio Jonas Savimbi – culpou a UNITA (é isso que faz há 44 anos) pelas complicações dos últimos dias, resultantes da entrega dos restos mortais de Savimbi.

Pedro Sebastião, que coordena a Comissão Multissectorial para o Processo de Exumação, Transladação e Inumação dos Restos Mortais de Jonas Savimbi, criada em 2018 pelo Presidente João Lourenço, voltou a garantir que a UNITA sabia que o corpo de Savimbi seguiria do Luena (província do Moxico), onde esteve sepultado 17 anos, sob sequestro do MPLA – foi morto em combate em Fevereiro de 2002 -, para o Andulo, norte da província do Bié, sem passar pelo Cuíto, a capital provincial onde a família, dirigentes do partido e jornalistas aguardaram, terça-feira, pela entrega dos restos mortais.

“A Comissão reunia com regularidade e estivemos reunidos na véspera para ultimar os detalhes. Todos os procedimentos foram tratados. Os procedimentos no Luena, no Bié. Quer a família quer o partido estavam em sintonia. O que se passou deixou-nos meio surpreendidos, o que nos leva a pensar que talvez seja melhor o diálogo ser com a família, porque a família tem os laços biológicos, afectivos, e está profundamente interessada em que o seu ente querido seja inumado com a serenidade que merece”, defendeu o general Pedro Sebastião que – como o general Presidente do MPLA – continua a ver em Jonas Savimbi (apesar de morto há 17 anos) o seu pior inimigo.

“Enquanto que outros componentes, no caso concreto da UNITA, ao que parece, persegue objectivos políticos, e atrapalha tudo aquilo que se vai decidindo em termos de comissão. (…) Enquanto o contacto foi apenas com a família, começamos a encontrar alguns procedimentos que, de certa maneira, beliscavam essa relação, que culminou com o que assistimos ontem [terça-feira]. São elementos um pouco estranhos à vontade expressa da família, com quem temos dialogado sem sobressaltos”, acrescentou.

Para o general Pedro Sebastião, “não há qualquer interesse” do Governo em manter-se na posse dos restos mortais de Savimbi, que se encontram numa unidade militar no Andulo “que não está vocacionada” para o efeito, pelo que, se o processo continuar a demorar, “sem que se justifique”, a urna terá “outro destino”, que não especificou.

Pelo sim e pelo não, ainda vamos ver os corajosos líderes militares do MPLA a mostrar a força e a coragem que não tiveram enquanto Savimbi estava vivo, mandando dinamitar a urna…

“Os restos mortais estão neste momento numa unidade militar, que não está vocacionada para isso. Num dado momento, os restos mortais vão ter de sair e ter outro destino. Foi nessa perspectiva que abordamos. O Governo cumpriu as formalidades legais dará destino se houver demora que se justifique”, avisou.

Questionado sobre se o executivo estará representado na cerimónia de inumação, marcada para 1 de Junho em Lopitanga (província do Bié), onde Savimbi afirmou, em vida, desejar ser sepultado, Pedro Sebastião lembrou que o Presidente João Lourenço o indigitou como coordenador daquele comissão, pelo que assumirá o seu papel “desde que se encontre da outra parte [UNITA] uma postura adequada ao dossiê e que não estejamos a perder tempo com idas e vindas desnecessárias”.

“Acredito que seja a última conferência de imprensa. Acredito piamente que as coisas estejam perfeitamente esclarecidas. Precisamos apenas de uma postura adequada ao dossiê. Quem está mais interessado no desfecho de tudo isso é a família biológica, que está a passar por momentos alheios à sua vontade, por capricho de outras pessoas que não o Governo”, afirmou.

O general Pedro Sebastião lembrou, também, que Savimbi, enquanto cidadão, não terá um funeral de Estado. E, pelos vistos, por vontade do MPLA nem sequer terá… funeral.

As exéquias fúnebres de Jonas Savimbi, garantiu hoje a UNITA, vão decorrer no próximo sábado no cemitério de Lopitanga, onde estão sepultados os seus pais.

Nascido na localidade de Munhango, na província do Bié, a 3 de Agosto de 1934, Jonas Savimbi morreu, em combate, no Lucusse, província do Moxico, a 22 de Fevereiro de 2002, tendo sido sepultado, por decisão governamental, no cemitério municipal do Luena. Neste aspecto, recorde-se, a família foi manda às urtigas, estando o MPLA nas tintas para o que o general Pedro Sebastião chama agora de “sofrimento dos familiares”.

Por outras palavras, e é bom que a UNITA perceba isso, as cerimónias fúnebres terão lugar apenas, onde e quando o MPLA entender por conveniente.

Folha 8 com Lusa

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