A empresária angolana Isabel dos Santos afirmou à Lusa que o actual clima de “instabilidade” em Angola não dá confiança aos investidores e que é necessário assegurar que o país é um Estado de Direito “com separação de poderes”. Isabel está errada. Que melhor prova de que Angola é um Estado de Direito quando, como no tempo do seu pai, é governada há 44 anos pelo mesmo partido, o MPLA, que é presidido por João Lourenço que, aliás, é também Presidente da República e Titular do Poder Executivo?

“E stão a viver-se momentos difíceis, não há dúvida. Estamos a viver momentos de grandes dúvidas e o que é fundamental e importante é que se respeite o Estado de Direito. É muito importante que se respeitem as leis, é muito importante que não haja atropelos entre os três poderes, que as pessoas tenham confiança na Justiça”, começou por explicar a empresária, filha do ex-chefe de Estado angolano, José Eduardo dos Santos.

Em entrevista à agência Lusa, à margem da visita que realizou a Cabo Verde nos últimos dias, a empresária mostrou-se preocupada com os vários casos judiciais, mediáticos, em curso ou em investigação actualmente em Angola, a generalidade envolvendo elementos próximos do anterior Presidente da República e já apelidados por alguma opinião pública, como a própria Isabel dos Santos reconheceu, como uma caça às bruxas.

“Esses processos não são fáceis. Hoje, a título de exemplo, depois da minha saída da Sonangol [presidente do Conselho de Administração entre Junho de 2016 e Novembro de 2017], houve vários relatos na ‘media’ de possíveis inquéritos, processos ou inquietações, mas foram na ‘media’. E aí nós vivemos num clima de especulação entre o que vem na ‘media’ e o que efectivamente acontece ou não na realidade, o que cria muita confusão. Era importante, era bom haver um bocadinho mais de clareza do que se está a passar, porque as pessoas sentem que há confusão, que há muita informação que não é clara”, apontou a empresária.

“Portanto, há aqui alguma instabilidade que inspira uma falta de confiança”, afirmou.

Ao mesmo tempo, sublinha a preocupação com o pedido de renúncia ao cargo de presidente do Tribunal Supremo de Angola, apresentado este mês pelo juiz Rui Ferreira, que o próprio justificou com uma “campanha intensa e cruel de mentiras, deturpação de factos, intrigas, calúnias e insultos”.

“Como é que é possível haver campanhas de difamação ou de calúnia até ao ponto de um presidente de um Tribunal Supremo, que é um órgão importantíssimo, sentir a necessidade de não continuar no cargo que estava indicado para cinco anos. Eu acho que isso não é bom. Não transmite confiança aos investidores”, comentou Isabel dos Santos.

Considerada pela BBC uma das 100 mulheres mais influentes no mundo, Isabel dos Santos acrescenta que este episódio com Rui Ferreira – que, então juiz presidente do Tribunal Constitucional, deu posse a João Lourenço, em Setembro de 2017, como novo Presidente da República – “não transmite confiança às pessoas” em Angola.

“Hoje este clima não é de confiança para os investidores poderem investir e para continuarmos a apostar”, sublinhou, insistindo que é urgente “assegurar às pessoas que existe um Estado de Direito” em Angola e “que existe efectivamente a separação dos poderes”: “Que não há intervenção de um poder legislativo com os outros poderes, isso acho que vai ser um mudança muito importante de paradigma”.

Ainda assim, garante que o processo de “transição eleitoral” em Angola – em 2017, após o pai, José Eduardo dos Santos, ter deixado o poder, ao fim de 38 anos – “foi pacífico”.

“E é um exemplo em África de democracia, que é possível termos eleições democráticas, é possível haver uma passagem de poder pacífica. Eu acho que aí, o ex-Presidente José Eduardo dos Santos esteve muito bem porque inspirou outros líderes africanos que África também tem que ter essa tradição. Para nós, tem que ser normal haver eleições, tem que ser normal a passagem do poder. Mesmo que ele vá para um outro partido”, disse.

Já sobre a governação em Angola, ao fim de dois anos de mandato de João Lourenço, a filha de José Eduardo dos Santos admite que o cenário é de uma “crise económica muito complicada”.

“Reparamos que a nossa economia desde 2017, 2018, 2019 entrou num ciclo muito negativo. Isto é preocupante. A mim preocupa-me. Eu gostava de ver uma economia mais positiva, gostava de ver algumas decisões a serem tomadas que possam mudar o quadro e que consigam levantar potencial que Angola tem e conseguir dar aos angolanos oportunidade de terem uma vida melhor, uma vida boa”, sublinhou ainda.

Apesar deste cenário, Isabel dos Santos prometeu que vai continuar a investir em Angola – onde tem interesses na indústria, das bebidas aos cimentos, na distribuição e nas telecomunicações, entre outras actividades -, embora o faça agora de forma mais “tímida”, devido à crise: “Nós continuamos a investir. Este ano abrimos um novo estúdio, estamos agora a construir uma fábrica, que vai ser uma das maiores fábricas de vidro do país, estamos a olhar também para investimentos no sector agrícola. Continuamos a investir. É difícil investir hoje em Angola porque temos um problema de rentabilidade grande, o poder de consumo baixou, as pessoas compram muito menos do que compravam antes, as taxas de juros são elevadas”.

De onde vem, ou veio, o dinheiro?

Isabel dos Santos diz que as recorrentes dúvidas sobre a origem dos seus investimentos resultam de “narrativa negativa”, alegando que se tem endividado, para poder investir, sem recorrer ao erário público angolano.

“Trabalho com bancos em Cabo Verde, com bancos em outros países africanos, bancos que nos apoiam, que acreditam nos projectos, que acreditam na validade dos projectos que nós propomos. Portanto, tenho muitas dívidas, tenho muito financiamento por pagar, as taxas de juros são elevadas, nem sempre é fácil também ter essa sustentabilidade do negócio, para conseguir enfrentar toda a parte financeira dos negócios, mas também boas equipas e trabalhamos para isso”, afirmou a empresária.

Questionada sobre as recorrentes dúvidas sobre a origem dos seus investimentos, a empresária, com interesses na indústria, no sector da energia, na banca, na distribuição a retalho e nas telecomunicações, entre outras áreas, sobretudo em Angola e Portugal, afirma que está habituada a passar por complexos processos de avaliação de idoneidade, até tendo em conta as relações, nos negócios, com parceiros internacionais.

Algo que, diz, acontece “principalmente” quando se trata de “um empresário vindo de África, a quem são pedidas inúmeras informações sobre como é que vai financiar o seu negócio, qual a origem dos seus fundos, que planos é que tem para o seu negócio, etc.. Portanto, hoje em dia, todas as empresas de uma forma geral têm esses pedidos, são pedidos normais. No meu caso, eu até tenho mais [pedidos de esclarecimento] do que outras empresas porque obviamente há a questão das pessoas politicamente expostas e é certo, há sempre atenção de tentar perceber como é que são fundados e financiados os negócios”.

Actualmente diz que trabalha com mais de 15 bancos em todo o mundo e que não se preocupa com as dúvidas que habitualmente se colocam sobre os seus investimentos.

“Quando há rumores que falam de erário público, é falso. Felizmente nunca trabalhei com o erário público. Eu gosto de trabalhar com o mercado, com o sector privado, eu gosto de fazer um produto que as pessoas queiram comprar, mas queiram comprar porque ele é bom e tem um bom preço”, garantiu, apontando casos como o banco BIC ou a operadora de telecomunicações Unitel como exemplos de projectos privados que lançou com sucesso.

“Eu não tenho preocupações com as dúvidas [sobre a origem dos investimentos], porque como digo, sempre fui alvo de escrutínio e é normal, não é algo que me preocupa, tenho parcerias com empresas internacionais que estão obrigadas a um nível mais elevado de governança, antes de trabalharem com um parceiro têm que verificar que esta pessoa é idónea e que representa e que é aquilo que diz ser, trabalho com grandes grupos mundiais, com grandes multinacionais, com consultoras que são do top cinco mundiais, trabalho com bancos, com banca comercial”, enfatizou.

Ainda assim, observa que há mais susceptibilidade no mundo ocidental para aceitar “a ideia de que se o dinheiro vem de África, ou de empresários africanos ou angolanos, se calhar é duvidoso”.

“Muitas vezes isto está ligado ao preconceito. Existe um preconceito sim. Hoje acho que é muito à base de falta de informação. Quando olhamos para os ‘media’ hoje, a narrativa de que se fala de África é muito negativa, e praticamente de África só falamos de política, de governos, de guerras, de conflitos, de desastres. Raramente falamos de empresas, empresários africanos são muito pouco conhecidos, ou seja, os actores das economias africanas ainda são poucos conhecidos na Europa e no Ocidente. E isso traz um nível de desconfiança. E essa desconfiança, claramente, não é só comigo”, garante.

Na entrevista à Lusa, Isabel insistiu em recordar que o percurso como empresária começou em Angola, há mais de duas décadas. “Eu gosto que as pessoas se lembrem que eu não comecei a trabalhar ontem, não comecei a trabalhar em 2010, comecei a trabalhar nos anos 90, portanto é um percurso muito, muito longo, e ao longo deste percurso nós vamos construindo reputação, vamos construindo relações, com empresas, com bancos, e vamos crescendo, vamos sendo apoiados e efectivamente é assim que eu tenho que trabalhar”, sublinha.

A empresária diz que a chave do seu sucesso, tal como o de outros empresários, incluindo portugueses, foi o forte crescimento da economia angolana de 2002 a 2017, precisamente quando começou a investir em Angola.

“E tivemos sorte. Angola cresceu. A economia angolana de 2002 a 2017, durante 15 anos, teve um crescimento médio de quase 8-9%”, recordou, apontando que o Produto Interno Bruto (PIB) angolano cresceu, neste período, quase 900%, de 30 mil milhões para 130 mil milhões de dólares.

“Exactamente neste período houve também muitos empresários e muitas empresas portuguesas que ganharam dinheiro e lucro em Angola, centenas de milhões de euros, e estas questões nunca são postas em causa. Por isso, é preciso também não ter dúvidas que as empresas e os empresários angolanos neste mesmo meio ambiente de negócio obviamente também ganharam dinheiro, também trabalharam, investiram… Aliás, os investimentos estão presentes, os postos de trabalho são óbvios, os locais estão construídos, não são investimentos abstractos”, rematou.

Folha 8 com Lusa

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