O líder do MPLA, partido no poder em Angola desde 1975, disse hoje, em Luanda, que não haverá uma nova Lei de Amnistia para os crimes previstos nas duas leis de repatriamento de capitais aprovadas em 2018. Presume-se que, nesta matéria, o Presidente do MPLA, João Lourenço, conte com o total apoio do Titular do Poder Executivo e do Presidente da República…

João Lourenço discursava na abertura da VII sessão do Comité Central do MPLA, que hoje finge discutir, entre outros temas, o alargamento do número de membros daquele órgão do partido.

O também chefe de Estado, tal como os seus antecessores não foi nominalmente eleito, referia-se a alguns comentários “em certos círculos” que defendem uma amnistia para os crimes económicos, certamente como forma de reduzir o número de criminosos (todos do MPLA) por metro quadrado.

Sobre a luta contra a corrupção que o governo supostamente leva a cabo, João Lourenço criticou alguns dentro do partido, do qual é o líder e pelo qual chegou a Presidente da República, que “insistem em criticar” a determinação, “augurando mesmo um previsível fracasso”, ignorando deliberada e conscientemente uma das principais bandeiras do programa que o MPLA submeteu às “eleições”.

A mesma bandeira fez parte do programa eleitoral do MPLA quando José Eduardo dos Santos era Presidente e João Lourenço ministro e vice-presidente, e o resultado está à vista.

Segundo João Lourenço, as pessoas que não aproveitaram o período de graça de seis meses dado pelas duas leis são essas que agora optaram por criar e disseminar “tanto quanto possível a ideia segundo a qual esta cruzada contra a corrupção está a fragilizar o partido e pode mesmo levar à sua divisão”.

João Lourenço puxa para a ribalta todo o dramatismo propagandístico, só faltando “decretar” o dilúvio ou recapitular o 27 de Maio de 1977, chamando fraccionistas aos que não estão com ele. Já terá faltado mais, é verdade.

“Nada mais falso e enganador. Se tivermos em conta que nas duas últimas eleições gerais, embora tivéssemos ganho, o partido perdeu em cada uma delas cerca de 10 pontos percentuais com relação às eleições precedentes”, disse o presidente do partido.

Deste cenário, concluiu João Lourenço, facilmente se pode compreender que a razão dessa diminuição terá sido “castigo” que os eleitores infringiram “pela forma como muitos se serviram impunemente dos bens públicos em benefício próprio, pela forma como o partido lidou com o problema, não passando do discurso”.

Para João Lourenço, é certo que se nada se fizer para combater a corrupção, o MPLA irá ficar mais fraco. Tem razão. Mas para grandes males, grandes remédios. Que tal uma guerrazinha com um país vizinho? Dá votos, estimula o patriotismo e cerra fileiras. Ou uma purga que aniquile os marimbondos do partido? Ou uma tentativa de golpe de Estado, eventualmente liderada por Isabel dos Santos?

“Se continuássemos a agir assim, a médio, longo-prazo, o partido cairia no descrédito com sérias consequências para a nossa manutenção como força governante. É isto que pretendemos evitar”, disse João Lourenço. Ele não disse mas, como todos sabemos ser a base do ADN do MPLA, a filosofia estratégica continua a ser a de sempre. Se não puderem ganhar usando a força da razão, entra em campo a razão da força.

De acordo com o líder do MPLA, o país já começou a beneficiar da luta contra a corrupção, lembrando a recuperação, em 2018, de 500 milhões de dólares desviados do Banco Nacional de Angola e, mais recentemente, de três mil milhões de dólares, parte dos cinco mil milhões de dólares do Fundo Soberano de Angola, naquela é uma história muito mal contada e que será analisada ao pormenor na edição impressa do Folha 8, amanhã em circulação.

“Com estes resultados encorajadores vamos continuar a trabalhar no repatriamento coercivo de capitais e na perda alargada dos bens daqueles que arrogantemente optaram por ignorar e desperdiçar a oportunidade ímpar dada até 26 de Dezembro de 2018”, disse.

Folha 8 com Lusa

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