O chefe de Estado anunciou agora um corte no seu salário e no dos ministros, numa tentativa de aliviar as tensões e críticas da população devido ao aumento nas tarifas da electricidade e dos combustíveis. As tarifas de electricidade para particulares vão subir 115% a partir de 01 de Janeiro, anunciou a agência de regulação de electricidade.

Os aumentos já foram sentidos nos combustíveis, com a gasolina e o gasóleo a aumentarem 10% e 11% respectivamente, o que motivou críticas e reacções da população indignada com este facto.

Esclarecimento: Estamos a falar do chefe de Estado da Zâmbia, Edgar Lungu. Claro!

“Por mais que o aumento dessas taxas fosse inevitável, era necessário mitigar seu impacto”, refere a presidência da Zâmbia.

O principal opositor na Zâmbia, Hakainde Hichilema, classificou a redução do salário do presidente como “insignificante”. É “uma gota no oceano”, referiu na sua conta da rede social Twitter.

Hakainde Hichilema disse que o aumento nas tarifas de electricidade é o resultado do “fracasso da Zesco”, a companhia nacional de electricidade atormentada pela “corrupção”.

Na quinta-feira, a agência reguladora de energia deu luz verde à Zesco para aumentar as suas tarifas, devidos aos “graves problemas financeiros” que o grupo público está a enfrentar.

Um outro exemplo

“A nossa economia está falida”, alertou em Janeiro de 2018 o então recém-eleito presidente da Libéria (ex-jogador de futebol), George Weah. Mas disse mais. Queria revogar o artigo da Constituição que só permite a “pessoas de cor” adquirirem a cidadania liberiana e anunciou que iria cortar o seu salário em 25%.

“Devido à muito rápida deterioração da situação da economia, estou a informar-vos que, com efeitos imediatos, vou reduzir o meu salário e benefícios em 25%”, anunciou George Weah, citado pelo jornal The Guardian. Esses 25% seriam depositados num fundo de desenvolvimento para a Libéria.

“A nossa economia está falida. O nosso Governo está falido. A nossa moeda numa queda livre. A inflação a subir”, avisou, acrescentando que “o desemprego nunca foi tão alto e as nossas reservas estrangeiras nunca foram tão poucas”.

A medida foi olhada com admiração num continente que se tem habituado ao inverso: representantes do Estado que usam as suas funções para obterem salários extravagantes e vantagens, escreveu o jornal.

George Weah venceu as eleições presidenciais em Dezembro de 2017, sucedendo a Ellen Johnson Sirleaff. A sua antecessora é uma economista vencedora do Nobel da Paz em 2011. Weah é um ex-atleta e até então o único futebolista africano a ganhar a Bola de Ouro.

Weah tinha prometido uma repressão à corrupção endémica existente no país e tem-se esforçado por apresentar medidas que a contrariem. No entanto, não é a primeira surpresa do seu mandato. O presidente quer revogar um artigo presente na Constituição e que apenas permite a “pessoas de cor” serem consideradas liberianas ou possuírem propriedades no país. Segundo a Reuters, George Weah descreveu essas cláusulas como “desnecessárias, racistas e inapropriadas” para a Libéria do século XXI.

A Libéria é a república mais antiga da África e foi criada por escravos libertados pelos EUA. Foi declarada independente em 1847.

A economia da Libéria assenta na agricultura, sector do qual vive a maioria da população. Os principais cultivos agrícolas do país são o arroz, a mandioca, o café e o cacau (estes dois últimos produtos são as principais exportações agrícolas do país). Apesar de a maioria da população se empregar neste sector, a Libéria não é auto-suficiente do ponto de vista alimentar. Historicamente as principais exportações do país são a borracha, o ferro e a madeira.

A Libéria possui jazidos de minério de ferro nos Montes Bomi (a noroeste da capital, Monróvia), Monte Nimba e perto do rio Mano. O sector de exportação do ferro sofreu consideravelmente em resultado do golpe de estado de 1980 e por causa da menor procura internacional desse minério no período subsequente.

A indústria liberiana é de pequena escala e inclui unidades de esfarelamento e lavagem do ferro, fábricas para transformação da borracha, bem como fábricas de materiais de construção e de bens de consumo (têxteis, calçado, etc.).

Uma importante fonte de divisas da Libéria é oriunda da venda das taxas de registo de navios. Muitos navios estrangeiros estão registados sob a bandeira liberiana, aproveitando os baixos valores oferecidos pela nação africana.

A guerra civil de 1989-2003 provocou a fuga do investimento estrangeiro e de empresários da Libéria, muitos dos quais são oriundos do Líbano e da Índia. Para além disso, as Nações Unidas decretaram o embargo dos diamantes e da madeira da Libéria. O bloqueio à exportação de madeira foi levantado pela ONU em Junho de 2006. A guerra civil provocou também a destruição das infra-estruturas do país. Actualmente o país sofre com índices altos de desemprego.

O Nobel de Abiy Ahmed

O presidente de Angola, curiosamente também Presidente do partido (MPLA) que “só” governa o país há 44 anos e também Titular do Poder Executivo, felicitou o primeiro-ministro da Etiópia, pela atribuição do Nobel da Paz e considerou-o como “um exemplo inspirador” a ser seguido por líderes e figuras políticas africanas.

“Este Prémio que acaba de lhe ser atribuído é uma demonstração clara de que sempre vale a pena colocar acima de qualquer diferença os anseios dos povos à paz e, em função disso, primar-se pelo diálogo e pela solução pacífica dos diferendos, seja qual for a sua natureza e complexidade”, afirmou o presidente João Lourenço, numa mensagem escrita dirigida ao primeiro-ministro da Etiópia e vencedor do Prémio Nobel da Paz deste ano, Abiy Ahmed.

No mesmo documento, João Lourenço diz que recebeu a notícia da atribuição do Nobel da Paz a Abiy Ahmed “com grande satisfação” e acrescenta: “O Prémio Nobel a si atribuído é um exemplo inspirador a ser seguido por líderes e figuras políticas africanas, que deverão tomar como referência este exemplo, para a solução dos conflitos que ainda perduram no nosso continente”.

João Lourenço felicita o primeiro-ministro etíope, “em nome do povo e do executivo angolano” bem como de si próprio. Recorde-se que, por exemplo e ao contrário de Angola, Abiy Ahmed não é Presidente da República e que o sistema político etíope é parlamentarista.

Em Abril de 2018, em plenos protestos generalizados contra o regime autoritário de Hailemariam Desalegn, Abiy Ahmed assumiu a chefia do governo e tem encabeçado um amplo processo de reforma política, social e económica, desde a libertação de milhares de presos políticos ao regresso de vários dirigentes opositores exilados.

Paralelamente avançou com a liberalização progressiva da economia em detrimento do habitual monopólio estatal, avançou com uma reforma constitucional para rever o sistema de federalismo étnico implementado no país, considerado como um dos principais motivos para as tensões raciais persistentes em Etiópia. A sua administração tem aumentado também a participação das mulheres na política etíope, apoiando a eleição de Sahle-Work Zewde como presidente da República e promovendo a nomeação da advogada e activista pelos direitos das mulheres, Meaza Ashenafi, como presidente do Supremo Tribunal Federal.

Na mensagem, o presidente de Angola refere que recebeu a notícia “com grande satisfação, por se tratar do reconhecimento de todos os esforços” que Abiy Ahmed “empreendeu corajosamente para pôr fim a um conflito que durante anos afectou os interesses do progresso e desenvolvimento do povo etíope e do povo eritreu”.

De acordo com o comunicado divulgado pelo júri do Nobel, o prémio foi atribuído ao primeiro-ministro da Etiópia pelo “seu importante trabalho para promover a reconciliação, a solidariedade e a justiça social”.

O prémio também visa reconhecer “todas as partes interessadas que trabalham pela paz e reconciliação na Etiópia e nas regiões leste e nordeste da África”, sublinhou a nota.

“Abiy Ahmed Ali iniciou importantes reformas que proporcionam a muitos cidadãos a esperança de uma vida melhor e de um futuro melhor”, refere o comunicado. O Comité Nobel norueguês acredita que é agora que os esforços de Abiy Ahmed merecem reconhecimento e precisam de incentivo.

Em 2017 o prémio foi atribuído ao médico Denis Mukwege, da República Democrática do Congo e à activista de direitos humanos Nadia Murad devido aos esforços dos dois laureados para acabar com a violência sexual como arma nos conflitos e guerras de todo o mundo.

Folha 8 com Lusa

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