Portugal, Líbia, Síria, Venezuela, Angola, USA, China, Rússia, Estado Islâmico, Irão, Arábia Saudita, Império Britânico, Moçambique, Japão, Brasil, para que não restem dúvidas que o mundo de facto é uma verdadeira aldeia global, onde todos os países estão irremediavelmente interligados desde que os portugueses desabrocharam e debutaram as expedições marítimas, para mares nunca antes, alegadamente, navegados e se dedicaram ao comércio e evangelização, que mais não é do que um belo eufemismo para descrever lavagens cerebrais compulsivas e destruição de cultura e tradições seculares (não resisti ao trocadilho no sentido em que secular tanto pode querer dizer ancestral como anti-religioso).

Por Brandão de Pinho

Na semana passada o português secretário-geral da Organização das Nações Amigas, D. António Guterres I, o Dialogador, esteve a dialogar com Khalifa Haftar – e em rigor Haftar parece que também dialogou com o Sua Eminência Pontifícia da ONU enquanto não lhe veio o sono – sobre a iminente invasão a Tripoli onde se aquartela o governo reconhecido pelo grémio que Guterres tutela.

Haftar lidera o Exército Nacional da Líbia (LNA) que se mantém fiel ao governo alternativo do leste da Líbia numa segunda guerra civil pelo poder desde a queda de Khadafi em 2011 e tem em Aguila Saleh, presidente da Câmara dos Representantes da Líbia, um alegado aliado com o qual o pelotiqueiro Guterres esteve a dialogar em Tobruk, cidade do leste da Síria, antes de ir dialogar com aquele.

Na quinta-feira, o LNA (não confundir com a Liga das Nações Amigas que antecedeu a ONU) chegou perto de Tripoli, depois de escaramuças com forças aliadas do primeiro-ministro declarado, Fayez al-Serra, numa circunstância em tudo similar à bicéfala Venezuela – que definitivamente, desta vez, fez disparar o preço do ouro negro apesar das restrições na oferta face à desaceleração da economia mundial – que para aquilo que verdadeiramente interessa aos angolanos em valores ainda insuficientes – extinto que está o fogo fátuo expresso no candidato fantoche americano Juan Gyaidó que não provocou mexidas no preço do Brent pois afinal por mais sanções americanas, China e Rússia não deixaram de fazer os seus negócios – não só na República “Bananobolivariana” como também no inimigo figadal dos “yankees” e último elemento do eixo do mal, o Irão.

Os Estados Unidos andam a esticar a corda e a sua política externa vai causando, de desgaste em desgaste até ao desastre final, atritos e inimizades um pouco por todo o mundo.

Ainda há pouco tempo meteram João Lourenço de cócoras ao ponto da viagem à Rússia quase ser antecipadamente desastrosa não fosse o pragmaticismo russo e o seu princípio, que aliás partilha com a China, de não ingerência nos outros países (já agora Portugal, da esquerda à direita, também não tem quaisquer pejos em negociar com quem quer que seja, da direita à esquerda, como aliás se viu com Chávez, Lula, Kadafi, Dos Santos, Obiang e todos os demais facínoras que por este mundo houver).

Os americanos também são os principais responsáveis pelos embargos, como já disse, à Venezuela e Pérsia, e que pelos vistos não fizeram cair nem um regime nem outro, tal como Cuba não caiu e nem as sanções à Rússia resultaram. Não estará na hora de se acabar com amuos, embargos e sanções pois quem sofre, no final, são sempre os pobres, as crianças, as mulheres, os velhos, enfim, os mais frágeis? Será que que os venezuelanos andariam a praticar canibalismo; a comer os animais dos jardins zoológicos; a morrer por falências dos órgãos por não terem sequer um simples paracetamol; e a debandar em hordas selvagens para fora do país; caso não houvesse restrições económicas e comerciais?

Mas o que deixa verdadeiramente incomodado o mundo civilizado no que diz respeito aos norte-americanos, e nem sequer tem nada a ver com o facto de momentaneamente estar um tresloucado oligofrénico republicano à frente da nação, é uma lei que, caso seja aprovada em Washington, fá-los-á controlar os preços e até o nível de produção de petróleo, quer através da especulação dos mercados, quer judicialmente, se se verificar que os membros da OPEP rejeitem concordar com esses valores impostos. Este alvitre está nos corredores do congresso norte-americano desde 2000 e é conhecido como “Nopep”.

Esta lei se aprovada poderá levar os sauditas a tomar a “opção nuclear” e negociar o petróleo com outras moedas que não o dólar. Seria um rude golpe para o imperialismo anglo-saxónico que praticamente vem domesticando, domando, subjugando e espezinhando o resto do mundo desde o Império Britânico do século XVII até ao fim da I Grande Guerra e que se prolongou depois com os USA após a II Grande Guerra e que está prestes a desmoronar-se, é minha convicção.

Para terminar este rol de ingerências e responsabilidades americanas convém atentar nas palavras, desta vez doutas, de José Eduardo Agualusa ao pedido de comentário – por parte do Correio de Kianda – acerca das suas declarações sobre Moçambique: “…não é ajudar, é indemnizar pelos danos causados…”.

Citando-o: “… aquilo que eu disse, parece-me absolutamente consensual, não entendo a polémica e não tenho nenhuma explicação, a não ser que a estupidez é muito popular no mundo. Moçambique foi atropelado por um desastre no qual não tem participação directa, e falo do ponto de vista ambiental, segundo os especialistas, o que se passou em Moçambique é consequência directa do aquecimento global…”

E continuou o discurso inflamado contra gringos e tugas: “… isto não tem qualquer polémica. Não temos que agradecer a ajuda, mas responsabilizar os países que mais contribuem para este tipo de desastre, como, por exemplo, a China ou os Estados Unidos. Os portugueses ficaram todos excitados, mas Portugal não conta. Portugal é irrelevante, até em Angola, Portugal é irrelevante. Estou preocupado com a China. A China sim, tem interesses relevantes em Angola e Moçambique e tem políticas ambientais desastrosas. E a mesma coisa para os Estados Unidos, que tem um presidente que nega o aquecimento global…”.

Agualusa, talvez um dos vultos maiores da literatura angolana -quer pré quer pós-colonial – juntamente com Luandino; Pepetela; Ondjaki; e até o ostracizado Agostinho Neto (desde que o Folha 8 o associou ao 27 de Maio de 1977 e demais abusos); bem como até o próprio – apesar das inimizades que esse senhor e o jornal que dirige terem obsessiva e publicamente contra o Folha 8 – João Melo, cuja qualidade literária poderá ser aferida semanticamente e semanalmente na arte com que dando a volta à realidade dá-a em simultâneo ao texto, infeccionando-o e ficcionando-a, mas sem que esta deixe de parecer real, nesse mesmo artigo retratou Savimbi como um psicopata: “… um perigosíssimo psicopata.

“Não tenho a menor dúvida. Era um homem interessantíssimo, inteligente, cultivado, que poderia ter sido o Nelson Mandela de Angola, que poderia ter utilizado a sua energia no sentido positivo, mas que a utilizou no sentido negativo, começou por destruir a própria UNITA, algumas das figuras mais relevantes, que poderiam hoje conduzir os destinos de Angola, foram destruídas pelo próprio Savimbi. E isso eu não esqueço. Branquear a figura do Savimbi, como branquear a figura do primeiro presidente de Angola, Agostinho Neto, não faz bem para Angola. É preciso dizer as coisas…”

Ou seja. Dos heróis nacionais, na recente história de Angola, até porque Angola não tem grande história conhecida e documentada, e dado que não há desportistas de renome, nem humanistas, nem cientistas, tampouco empresários – até Isabel dos Santos vem sendo abalada por isto ou aquilo, dia sim, dia não – só pode restar Holden Roberto, o amiguinho dos americanos e seu macaco amestrado. Adiante.

Resumindo. Moçambique, Sofala, a Beira foram vítimas (entre outros) de um fenómeno meteorológico severo que ceifou centenas de vidas directamente e ceifará outras mais por via indirecta. E daí?

Em Benguela ainda há pouco houve um fenómeno do tempo que ceifou uma dúzia, na mesma semana em que outra pouco mais que uma dúzia morreu numa mina artesanal de ouro na Huíla. E daí?

De acordo com o Portal de Angola, mais de trezentas famílias ainda vivem no campo de sinistrados da Maná esperando pacientemente por realojamento há mais de 12 anos e subsistem em condições de extrema pobreza, devido tal como na Beira a inundação das suas residências.

De acordo com João Neves Pedro, coordenador da Comunidade de Sinistrados da Maná, como são conhecidos, de principio residiam no campo 836 famílias, as outras, entretanto, foram realojadas. E daí?

Aquando do ciclone em Moçambique, o Folha 8 – e muito bem, fazendo o jornalismo ingrato que ninguém mais tem coragem de fazer – ironizava sobre o facto das vítimas angolanas terem mais sorte se fossem pedir ajuda para Moçambique – para receber a pronta e propalada ajuda de Angola – do que ficando em Benguela ou na Huíla. Por acaso no início caiu-me mal, confesso. Mas e daí?

Mas a verdade é que mais uma vez o Folha 8 estava certo pois as vítimas de Angola, independentemente da intensidade, tiveram pouca ajuda, em termos efectivos mas também em termos proporcionais.

E Agualusa também está certo pois científica e comprovadamente o ciclone pode ser associado ao aquecimento global, em grande parte provocado pelos gigantes poluidores mundiais de gigantesca pegada ecológica pelo que, tal como disse, é obrigação do mundo ajudar, ou vá lá ”indemnizar” Moçambique, que já agora, se fosse um país minimamente preparado e civilizado e com infra-estruturas e habitações de acordo com os padrões minimamente aceitáveis não teria tantas vítimas humanas e materiais.

Nestes últimos tempos, em Moçambique a grandeza foi de centenas enquanto em Angola foi de dúzias, mas tal não justifica essa desproporção na ajuda prestada por Angola a uns e a outros, neste caso por causa do ciclone e daí…

… que a ajuda a Moçambique não esteja mal, ressalvo, mas o socorro de Angola aos seus cidadão foi muito, demasiado aquém, daquilo que os angolanos esperariam do seu tão esquizofrénico e quadrado país e daí…

… que para terminar fica aqui um alerta a João Lourenço caso as promessas de fábricas em Angola por parte da China, USA, Rússia, Portugal, Itália, França, Alemanha e Bélgica sejam para levar a sério.

Por favor não permita, Excelência, fábricas poluidoras pois mais vale não ter nada e deixe-as estar na China, USA, Índia e nos países subdesenvolvidos para onde foram deslocalizadas. Já agora que se falou em Moçambique convém ter a coragem que este país teve, há alguns anos, de impedir a instalação de um gigantesco projecto agrário para a exploração massiva de arroz ou soja, não me recordo, para exportar para os milhentos japoneses que já não têm terra por onde se alimentar.

Esse projecto – e para provar o que disse no primeiro parágrafo de que o mundo de facto é uma verdadeira aldeia global – era baseado numa experiência brasileira, ecologicamente catastrófica para a floresta Amazónica no Brasil e que justamente por isso Lula resolveu replicar fora de portas, pensando ele que os matumbos africanos iriam cair na esparrela como ele havia caído, assegurado que estava o financiamento de um grupo nipónico e assessoria técnica e logística de um grande grupo empresarial lusitano. Ou seja um projecto com tudo para dar certo inclusivamente podendo trazer desenvolvimento para a região. Mas e daí que entram os mais velhos.

Contudo os sobas pensaram bem e recusaram. Fizeram muito bem. Em África, como se viu a semana passada o que aconteceu ao Lago Chade – porventura devido também aos grandes projectos agrícolas de regadio, sobretudo, chineses, é imperativo que se aproveite este ligeiro atraso em relação ao resto do mundo para promover uma economia ecológica, de serviços, sustentada e auto-suficiente em termos agro-pecuários e sobretudo não vender o país e os seus recursos ao desbarato e atenção que a terra e a água bem como este clima divino poderão muito bem ser os recursos mais valiosos a um não muito longo prazo.

Esta aridez e desertificação implacáveis que devastam terras outrora férteis devido aos grandes projectos agrícolas que exploram África fazem do Continente Negro uma vítima da humanidade, e por outro lado, também devido aos fenómenos meteorológicos extremos África torna-se igualmente vítima, fenómenos diversos dos quais se destacam os ciclones. E daí?

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