A visita de Estado (e de parabenização de João Lourenço) do Presidente da República portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa, a Angola, onde estará entre terça-feira e sábado da próxima semana, vai dividir-se entre a capital, Luanda, e as províncias de Benguela e Huíla.

Segundo o programa, ainda provisório, Marcelo Rebelo de Sousa será recebido pelo Presidente (não nominalmente eleito) de Angola, João Lourenço (e em simultâneo pelo Presidente do MPLA e pelo Titular do Poder Executivo), na manhã de quarta-feira, 6 de Março, e os dois darão uma conferência de imprensa.

Nessa tarde, o Presidente português irá discursar numa sessão solene na Assembleia Nacional de Angola e depois terá um encontro com estudantes na Universidade Agostinho Neto.

Marcelo Rebelo de Sousa chegará a Luanda na terça-feira de Carnaval, 5 de Março, para estar presente no aniversário do chefe de Estado angolano, que completa 65 anos, mas a sua visita de Estado só tem início no dia seguinte.

Depois de Luanda, passará pelo Lubango, na província de Huíla, e por Benguela, Lobito e Catumbela – viajando de comboio entre estes dois últimos municípios -, na província de Benguela, regressando à capital angolana na sexta-feira.

A visita do Presidente português termina no sábado, 9 de Março, data em que completa três anos de mandato.

Marcelo Rebelo de Sousa estará acompanhado nesta visita pelos ministros dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, Adjunto e da Economia, Pedro Siza Vieira, e da Agricultura, Florestas e Desenvolvimento Rural, Luís Capoulas Santos, bem como pela secretária de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação, Teresa Ribeiro.

O primeiro ponto do programa em Luanda, no dia 6 de Março, será a deposição de uma coroa de flores no Memorial Agostinho Neto, seguindo-se o encontro com João Lourenço, no Palácio Presidencial. Nessa noite, os dois estarão juntos num jantar oficial, oferecido pelo chefe de Estado, de Governo de Angola e do MPLA.

De acordo com o programa provisório, Marcelo Rebelo de Sousa irá encerrar um fórum económico com empresários angolanos e portugueses, na quinta-feira, 7 de Março, em Benguela.

Nessa manhã, visitará a Escola Portuguesa do Lubango, onde também dará uma palestra na Universidade Mandume Ya Ndemufayo, o último rei dos cuanhamas, povo do sul de Angola e norte da Namíbia, que se opôs ao poder colonial português, no início do século XX.

Na sexta-feira, o Presidente português visitará o Porto do Lobito, antes de viajar de comboio para a Catumbela. À tarde, de regresso a Luanda, estará na entrega do Prémio Manuel António da Mota, atribuído pela construtura portuguesa Mota-Engil, e numa recepção ao corpo diplomático.

Relembre-se, citando o Presidente da portuguesa “Frente Cívica”, “que a Mota-Engil revelou ter já uma carteira de obras em Angola no valor de 800 milhões de euros”, o que – segundo Paulo de Morais – reflecte “os primeiros resultados da bajulação de Marcelo Rebelo de Sousa a João Lourenço (presidente) e Manuel Vicente (o “irritante” arguido e ex-vice), que começou em 2018 em Lisboa e continua no próximo mês em Luanda”.

Paulo de Morais acrescenta que “estão em festejos a Família Mota e todos políticos avençados no Grupo Mota-Engil: Jorge Coelho (que já agradeceu a Marcelo, na TVI, apoiando-o como Presidente), o seu primo Paulo Portas, o seu colega de televisão Lobo Xavier, mas também Valente de Oliveira, Seixas da Costa ou até o filho de António Guterres, também administrador da Mota-Engil”.

No sábado, Marcelo Rebelo de Sousa irá visitar a Fortaleza e a Escola Portuguesa de Luanda, onde terá um encontro com a comunidade portuguesa, e estará novamente com João Lourenço, numa cerimónia de despedida oficial, no Palácio Presidencial.

As supostas teses de Marcelo

Marcelo Rebelo de Sousa defendeu no dia 9 de Março de 2018 que uma visita sua a Angola deveria ser “a última etapa de um processo” que – na altura – estava em curso ao nível ministerial. Ou seja, quando esta edição, revista e melhorada, do PREC (Processo Revolucionário em Curso) tivesse o acordo do governo do MPLA, o que só seria possível com a rendição (leia-se arquivamento de todos os processos contra as altas figuras do regime angolano) de Portugal.

O chefe de Estado português falava então numa cerimónia sobre os seus primeiros dois anos em funções, na Sala de Jantar do Palácio de Belém, em resposta à comunicação social, que lhe perguntou se esperava visitar Angola até final do seu mandato.

“Há etapas que têm de ser preenchidas. Eu penso que é muito importante a etapa que estamos a viver, que é a do relacionamento entre responsáveis governativos a nível ministerial”, começou por responder Marcelo Rebelo de Sousa.

“Portanto, eu penso que em termos lógicos a visita presidencial a Angola deve ser a última etapa de um processo que está em curso mas tem de seguir as várias etapas”, concluiu.

Como se sabe e como, aliás, já aqui foi escrito, Marcelo Rebelo de Sousa é o político português mais habilitado (a par do primeiro-ministro António Costa) para não só cimentar como também alargar as relações de bajulação e servilismo com o regime de Angola. Marcelo não só sabe como deseja que Angola continue a ser MPLA, e que o MPLA continue a ser Angola.

Portugal continua de cócoras perante o regime esclavagista de Luanda, tal como esteva em relação a Muammar Kadhafi que, citando José Sócrates, era “um líder carismático”. Talvez um dia Portugal chegue à conclusão que, afinal, em Angola vivem ou sobrevivem pessoas.

Será que Marcelo Rebelo de Sousa aproveitará esta visita ao nosso país para explicar o que o levou a felicitar João Lourenço pela vitória nas eleições, mesmo antes de ele ser declarado vencedor?

De facto, os portugueses só estão mal informados porque querem, ou porque têm interesses eventualmente legítimos mas pouco ortodoxos e muito menos humanitários. Marcelo Rebelo de Sousa não escapa à regra.

Custa a crer, mas é verdade que os políticos portugueses (com excepção cada vez mais ténue dos do Bloco de Esquerda) fazem um esforço tremendo (se calhar bem remunerado) para procurar legitimar o que se passa de mais errado com as autoridades angolanas, as tais que estão no poder desde 1975.

Folha 8 com Lusa