O Folha 8 existe desde 1995. Se lhe pedíssemos, caro leitor, um depoimento sobre o nosso trabalho, o que nos diria? Foi essa pergunta que foi colocada a algumas personalidades angolanas que vivem no país e na diáspora. Hoje publicamos a opinião de Carlos Pinho, um (como o próprio diz) ango-pula que é professor na FEUP – Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto.

Por Carlos Pinho

Num tempo de escuridão há sempre estrelas que brilham e por pequena que seja a constelação que elas formam, há sempre quem as procure. Mais não seja pelo conforto moral que elas trazem.

No mundo do estado-partido, ou do partido-estado, valia o mesmo, a palavra do suposto líder era indiscutível e indiscutida. Mesmo após a instauração do multipartidarismo, as reminiscências do autoritarismo herdadas do regime colonialista e salazarista, continuaram a ter força de lei.

E mesmo hoje em dia, em que claramente há, a meu ver, uma abertura democrática, continua a existir uma subserviência patética às ordens ou instruções superiores. Mesmo que estas até estejam imbuídas de um espírito de abertura e renovação. Há por um lado, os ditos marimbondos que estrebucham, e intrigam na clandestinidade, para não perderem as antigas prerrogativas e os novos candidatos a marimbondos, a perfilarem-se na fila com a esperança de novos anos de benesses faraónicas aos novos e fervorosos crentes.

Mas houve quem, indiferente a essa cultura da subserviência e do medo, começasse a berrar alto e bom som que “o rei vai nu”, tal como no conto do Hans Christian Andersen.

O Folha 8, com a sua irreverência, imagens caricaturais, e persistência, tem sido, ao longo de mais de duas décadas, uma voz que alerta para as incongruências e irregularidades do regime político vigente em Angola.

Goste-se ou não do estilo do jornal, concorde-se ou não com a sua linha editorial, com alguns dos assuntos defendidos pelo jornal e com o modo como estes são tematizados, a verdade é que no seu papel de consciencialização cívica, o Folha 8 acaba por ser motivo de discussão e análise, por uns e por outros. E essa é a verdadeira essência do jornalismo.

Uma nação que não se ri das suas tolices, que não põe em causa os usos e abusos dos seus dirigentes, que não questiona o modo como estes foram parar aos poleiros do poder, é uma nação sem respeito próprio.

O Folha 8 está por cá para nos alertar e nos levar, nem que seja a contragosto, a rebates de consciência. Bem-haja por isso! E que continue por muitas mais décadas!

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