O elogio fúnebre a Jonas Malheiro Savimbi, feito por Isaías Samakuva, Presidente da UNITA, no passado dia 1 (e que a seguir se transcreve integramente) é algo que merece ser lido, guardado e preservado. Desde logo porque, como dizia o Mais Velho, Angola e a UNITA não se definem – sentem-se!

“C abe-me a difícil mas honrosa tarefa de proferir algumas palavras em jeito de elogio fúnebre ao homem que, ao longo de décadas lutou para arrancar das trevas do obscurantismo, da injustiça e da opressão o seu povo e o seu país. Este homem que nas suas próprias palavras foi “soldado e político ao serviço da justa causa do seu Povo é o Dr. Jonas Malheiro Savimbi, o Presidente Fundador da União Nacional para a Independência Total de Angola – UNITA.

Faço-o com profunda humildade e cumpro este dever em nome de todos os angolanos que amam verdadeiramente a sua pátria: camponeses e operários, estudantes e professores, intelectuais e analfabetos, todos, presentes e ausentes que ao longo de quatro décadas, serviram a Pátria sob a direcção do Dr. Jonas Malheiro Savimbi;

Saudoso Dr. Savimbi, estamos aqui hoje para que finalmente possamos dirigir-te as nossas palavras de eterna gratidão por ter dedicado toda a sua vida à luta pela libertação de Angola e dos angolanos até pagar o mais alto preço dando a sua própria vida.

Mais velho, estamos aqui na Lopitanga. Aqui, ladeado pelas montanhas da sua terra, aquelas que um dia disseste que dialogavam consigo! Sim, eu sabia o quanto amava Angola e os Angolanos mas há dias dei conta de um texto seu que sou obrigado a ler aqui para partilhá-lo com todos os que vieram despedir-se de ti, a fim de terem a ideia mais concreta deste teu sentimento pelo teu país e pela tua terra.

Ei-lo: “As montanhas da minha terra dialogam comigo. Eu teria tido imensas oportunidades de ficar fora. Não em 1976. Teria ficado fora em 1958. Mas não há lugar para mim no estrangeiro. Nunca houve!

A minha aldeia, os rios da minha terra, as montanhas da minha terra, os meus familiares, os meus antigos colegas no Dondi , no Colégio dos Maristas, tudo isto constitui, para mim, o que há de melhor na minha vida, o que não posso sacrificar.

Não há montanhas mais belas do que as montanhas da minha terra. Não há! Não há rios tão caudalosos, que cantam tão bem a glória do nosso passado, como os rios da minha terra.

Eu não entendo a linguagem dos rios da Suíça. Não me falam. Não me conhecem. Eu sou estranho e fico permanentemente estranho. Mas as montanhas da minha terra dialogam comigo “.

Foi o que vi e testemunhei. A tua maneira de ver e sentir Angola era profunda! Não via Angola como Diogo Cão a viu. E lutaste para que Angola não fosse a Angola de Diogo Cão, mas fosse a Angola dos angolanos.

E com base nessa maneira de ver, viver e sentir a Angola profunda, adoptaste duas estratégias únicas de luta: “Transferir os dirigentes da luta armada do exterior para o interior do país”; e não ter o apoio dos países estrangeiros como fundamental para fazer e prosseguir a luta, mas, “contar essencialmente com as suas próprias forças”.

Estas duas estratégias permitiram-te alargar a luta, primeiro pela independência e depois pela democracia e pela conquista da cidadania igual para todos, o que culminou com a assinatura dos Acordos de Paz Para Angola, em 31 de Maio de 1991. Ontem mesmo, a paz que conquistaste completou 28 anos!

Com base nessa paz militar, conquistaste para todos os angolanos o direito ao exercício da soberania impregnada na vontade do povoe o direito ao exercício da cidadania do mesmo Estado, um Estado democrático, que lhes tinha sido negado aquando da proclamação da independência, em 1975.

Com a paz que conquistaste e assinaste, derrubaste o totalitarismo em Angola, derrubaste a exclusão, derrubaste o imperialismo russo-cubano e fundaste uma nova República, a República de Angola (sem o “p” ), em 1992.

Com a tua luta conquistaste para todos os angolanos o direito à liberdade religiosa, o direito à liberdade de imprensa, o direito de votarem e serem eleitos, o direito de se associarem, o direito de se organizarem em partidos políticos, o direito à paz e à liberdade, o direito de terem autarquias locais em todos os municípios.

E todos nós, os que conduziste na luta pela paz nas matas e savanas, nas cidades e nos campos, na região 45, na região 19, na 11, na 29, nas cadeias, nos corredores da diplomacia e mesmo nas hostes do adversário, viemos hoje ao Lopitanga para te homenagear pelo teu maior legado.

Viemos dizer-te, Mais Velho que foste, és e serás sempre o construtor da Pátria angolana, um dos fundadores da República de Angola. Mais Velho, não eras UM patriota.
Eras e serás sempre O PATRIOTA. Tal como dizias:

“Para mim, acima de Angola não existe mais nada”.

Mais Velho, nosso Alto Comandante:

Viemos ao Lopitanga para te dizer que vamos continuar a defender esta Pátria contra as ameaças da actualidade, que são a sangria dos nossos valores, a sangria da nossa identidade, a sangria dos nossos recursos, por via da corrupção. Faremos isso com determinação e audácia, porque, como nos ensinaste, “quando a Pátria sangra, todo o sacrifício é pouco”.

Viemos todos ao Lopitanga para dizer à nova geração de angolanos, aos construtores do futuro, que não estás morto, porque morrer pela Pátria é viver para sempre.

Tu eras acima de tudo um revolucionário. A tua verdadeira missão na vida era contribuir, de uma maneira ou de outra, para a derrocada da sociedade colonial e de qualquer sistema baseado na desigualdade entre os homens, de forma a libertar o potencial do angolano para construir uma sociedade justa, democrática, solidária, de paz e desenvolvida. A luta era o Teu elemento, a Tua constante.

Lutavas para que Angola não se dividisse, mas permanecesse unida, respeitando a história, a cultura, a língua e a diversidade de cada um. E venceste.

Lutaste contra a cultura do medo, da ignorância e da subordinação dos povos africanos à outras identidades. Lutaste vigorosamente contra a exclusão e a divisão dos angolanos em angolanos de primeira e angolanos de segunda; lutaste contra o desprezo pelas línguas nacionais. Lutaste desde o princípio e de forma consistente contra a corrupção, o peculato e a impunidade. Lutaste contra o tribalismo, as assimetrias regionais, a intriga e a indisciplina. E venceste. Venceste de tal forma que esta luta foi agora adoptada também pelos teus adversários de ontem. Só para provar que tu tinhas razão. Estavas do lado certo da História.

Viemos ao Lopitanga para te dizer que os cinco princípios do republicanismo, que proclamaste para Angola em Muangai, em Março de 1966, continuam a orientar a luta da UNITA e dos angolanos. São os seguintes:

1. Liberdade e Independência Total para os homens e para a Pátria mãe.
2. Democracia assegurada pelo voto do povo através de vários partidos políticos.
3. Soberania expressa e impregnada na vontade do povo de ter amigos e aliados, primando sempre pelos interesses dos angolanos.
4. Igualdade de todos os angolanos na Pátria do seu nascimento.
5. Na busca de soluções económicas, priorizar o campo para beneficiar a cidade.

Doutor Savimbi, Jaguar Negro dos Jagas, Alto Comandante, pai amigo:

Viemos ao Lopitanga recordar os teus feitos heróicos e honrar a tua memória. Não viemos afirmar os teus defeitos, que muitos gostam de destacar apenas para diminuir a tua dimensão histórica.

No decorrer da História da Humanidade e nos processos de construção das nações, todos os grandes líderes tiveram defeitos e cometeram erros. Mas tais nações não permitiram que os erros dos homens ofuscassem a dimensão dos seus feitos nem a sua contribuição para a construção da Nação.

O mesmo aconteceu nas Igrejas com as religiões. As práticas contra a vida e outros excessos, não diminuíram, nem diminuem, o papel educador e reconciliador da Igreja como luz do mundo.

Ela continua a ser chamada a “Santa Igreja”, com todos os seus expoentes como Santo Agostinho, Santo Egídio, Papa Pio XII, João XXIII, João Paulo II e agora, o humanista revolucionário Papa Francisco.

Tal como fazem todos os povos e nações, homenageamos a tua dimensão histórica e heróica, como co-fundador da República, líder revolucionário e herói nacional. E esta dimensão dos homens que fazem a história das nações, não deve ser amputada nem eclipsada pelos aspectos menos positivos da sua dimensão humana, o lado mais frágil da nossa natureza biológica

Por isso, amado líder e companheiro, a UNITA irá sempre defender que, na avaliação histórica dos feitos dos nossos antepassados e dos fundadores da nossa nacionalidade, da nossa República, a dimensão humana, que é carnal, nunca se deve sobrepor à dimensão política e patriótica, aquela que encerra a prossecução dos valores colectivos da liberdade e da igualdade entre os homens e entre os povos da África e os povos de outros continentes.

Doutor Savimbi, nosso querido Presidente Fundador:

Viemos ao Lopitanga para te dizer que a UNITA, a tua UNITA, a nossa UNITA, continua de pé e firme. Sempre iluminada pelos princípios, objectivos e valores proclamados em Muangai, o que lhe valeu o título de força política garante da estabilidade em Angola.

Viemos ao Lopitanga para te dizer que a tua UNITA, a nossa UNITA hoje é mais do que a UNITA. Ela é hoje a frente unida de patriotas angolanos que preconizaste, quando escreveste a Cartilha do Guerrilheiro. Hoje, milhares de mulheres e homens de toda a Angola, em especial os jovens, que não te conheceram, estão na UNITA, honram a tua memória e seguem com coragem os teus ensinamentos. Eles lutam pacificamente pelo resgate da Pátria e por um novo contrato social que conduza o país ao rumo que preconizaste em 1966.

A tua UNITA está madura, é o estuário das forças democráticas angolanas. A tua UNITA é um património nacional, que continua comprometida com a defesa e a promoção da independência total de Angola, do desenvolvimento económico a partir do interior do país, com a solidariedade nacional e com a identidade africana de Angola;

Viemos ao Lopitanga para te agradecer profundamente pelos dois instrumentos de luta que nos deixaste para a libertação de Angola: a União Nacional Para a Independência Total de Angola(UNITA) e a República de Angola.

Como sabemos que só estarás em paz quando todos os angolanos estiverem em paz, viemos dizer-te que tu não estás morto, porque os frutos da paz ainda não são sentidos por todos.

Por outro lado, a luta pela paz continua. Porque a paz que conquistaste para os angolanos foi roubada pela corrupção e pela má governação.

Os antigos combatentes ainda não têm paz, porque deram a sua vida para libertar a Pátria, mas a Pátria ainda não lhes dá o devido reconhecimento.

As famílias nas aldeias e nas cidades passam fome; ainda não têm paz, porque não conseguem comer duas refeições por dia.

Milhões de crianças angolanas ainda não têm paz, porque não têm escolas, não têm sapatos para andar nem quedes para jogar a bola;

Milhões de jovens ainda não têm paz, porque estudaram mas não conseguem emprego.

Os políticos e alguns altos funcionários do Estado, também nem sempre têm paz, porque ainda não estão livres das ordens superiores que contrariam a Lei, nem do flagelo da corrupção, que tanto combateste e das investigações de que agora são vítimas por causa dela.

Quando os angolanos ouvem hoje os teus discursos empolgantes, a tua voz cheia de autoridade que exala um amor fervoroso pela Pátria Mãe, quando observam nas gravações a tua personalidade carismática, quando sentem a pujança da tua liderança, esta juventude que não te conheceu percebe rapidamente que tu és o líder da PAZ, tu és a esperança da grande transformação que Angola espera, tu és o símbolo da angolanidade e da mudança.

Todos os que hoje ouvem os teus discursos e se apercebem do teu fervoroso patriotismo sentem logo que tu não toleras a corrupção. Nunca farias negócios desonestos à custa da dor e do sofrimento do povo. Nunca te apoiarias em alianças com estrangeiros para prejudicar Angola e os angolanos. É por isso que, ainda em 1992, alertavas os corruptos de que a cooperação contigo baseada na corrupção não seria fácil.

Consequentemente, foste o homem mais temido, odiado e caluniado de entre os três fundadores da nacionalidade angolana. Mas a verdade está vindo ao de cima e os angolanos compreendem que afinal, Tu foste a paz, tu é que és a verdadeira paz e sempre serás a paz.

Mais Velho, o medo de ti é tão grande que, mesmo morto, esconderam o teu corpo durante anos e prenderam-no. Mesmo depois de o exumarem, ficaram com medo do povo que te queria homenagear e sabotaram o programa de homenagens que te tínhamos reservado em três capitais de província.

Mas não faz mal. Assim como aprendemos a fazer a guerra fazendo-a, aprendemos também a fazer a paz, fazendo-a todos os dias, praticando a justiça, a tolerância, a solidariedade e o perdão mútuo. Foi isso que nos ensinaste e é isso que ensinaremos à nova geração de angolanos.

Doutor Savimbi, Muata da Paz:

Não viemos ao Lopitanga chorar e lamentar, porque tu mesmo profetizaste que muitos de nós não conheceríamos o lugar verdadeiro da tua sepultura. Viemos recordar os teus feitos heróicos, honrar a tua memória e reafirmar o nosso compromisso em continuar a luta pela justiça que produz a paz, para que “a terra volte a sorrir um dia”.

Viemos dizer-te, que a Tua UNITA, a nossa UNITA está de pé. Firme, unida, crescida e determinada na defesa da dignidade dos menos equipados. Todas as manobras dos teus adversários para dividir a UNITA e subverter a tua liderança fracassaram.

Estamos todos unidos e decididos na luta pelo reforço da infra-estrutura da democracia: cidadãos cada vez mais livres e participativos, uma imprensa livre, sindicatos activos, partidos políticos fortes, tribunais independentes, governos limitados e universidades investigadoras.

Quando olhamos para trás e vemos todos os perigos por que passamos, os poderosos adversários que derrubamos e os mortíferos desígnios que frustramos, por que razão haveríamos de ter medo do futuro? Sobrevivemos ao pior!…

Doutor Savimbi, nosso Mestre, Fundador da UNITA e da República de Angola:

Travaste um bom combate. O projecto que iniciaste perdurará de geração a geração. Queremos assegurar-te que tudo faremos para libertar Angola e a África dos males de hoje: a pobreza, a má governação, a tirania, o tribalismo, o nepotismo, a corrupção e os governos que oprimem os povos e governam para os seus bolsos.

Temos a fé e a força moral para passarmos o facho para a próxima geração. Pela paz e pela justiça, caminhemos para a construção da Nação angolana, cujos fundamentos lançaste, quer com o teu sangue, no solo pátrio, quer com a tua assinatura, nos Acordos de Paz Para Angola.

Aos nossos irmãos que no passado combateram oDr. Jonas Malheiro Savimbi, temos uma palavra de paz e de reconciliação:

Foi bom terem finalmente libertado os restos mortais do Dr. Savimbi. Mas não precisam de temer o corpo do Dr. Savimbi nem o povo que o pretende homenagear.

Porque o dia chegará em que este povo de Angola vai trazer o Dr. Savimbi de Luanda até ao Lopitanga. E vai homenageá-lo em todas as províncias de Angola, se for esta a sua vontade. Porque a República de Angola baseia-se na vontade do povo angolano, não na vontade de governantes temporários.

Já não foi bom terem sabotado o compromisso que inicialmente foi assumido pelo próprio Presidente da República, e, consequentemente, o programa das exéquias organizado pela UNITA e pela família do Dr. Savimbi.

Esta sabotagem veio acrescentar a frustração e a dor que já tínhamos pela perda do Fundador da UNITA e da República de Angola, Dr. Jonas Malheiro Savimbi.

Mas veio também provar que, se a sabotagem foi orquestrada por altos dirigentes do Estado angolano, então, este Estado não é o Estado Democrático da República de Angola fundada pelo Dr. Jonas Malheiro Savimbi. Talvez seja um Estado impostor ou prisioneiro de forças oligárquicas anti-Angola, que precisa de ser libertado pelos angolanos.

O lado positivo desta sabotagem é que os angolanos e o mundo perceberam que, afinal, o Dr. Savimbi não aceitaria NUNCA ser enterrado com honras de um Estado impostor, sem alma, que não respeita os seus próprios mortos. Um Estado assim não tem honras para dar aos seus filhos, porque não tem palavra, vive da desonra e da fraude e a todos quer desonrar e defraudar.

Mas a dor que a sabotagem nos causou é também combustível que nos fará andar cada vez mais determinados para a vitória.

Não temos desejo de vingança, porque não guardamos ódio nem ressentimentos. Apenas somos pessoas que amam Angola e querem plantar uma árvore e construir a paz. Pessoas que querem viver ao vosso lado como mulheres e homens livres e iguais, mas diferentes. Nestas terras lindas do planalto central e noutros lugares da nossa bela Angola.

Angola vai continuar a honrar o Dr. Jonas Malheiro Savimbi e todos os outros heróis nacionais com dignidade, civilidade e elevação.

Sem rancor para com ninguém, com respeito e tolerância para com todos, vamos nos empenhar em terminar a obra de Jonas Savimbi. Vamos transformar a paz relativa numa paz completa, justa e duradoura.

Ninguém deve ter medo da paz. Angola vai continuar a trabalhar para a paz e para a reconciliação nacional. Juntem-se a nós e construamos a paz.
Honremos o Muata da Paz.

Honra e glória à memória de Jonas Malheiro Savimbi.

Jonas Savimbi: o teu nome e a tua obra perdurarão através dos tempos, na História de Angola e da África.

Descanse em paz.”

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