Jaime de Sousa Araújo, uma referência histórica da luta de libertação de Angola, nascido em Angola a 14 de Outubro de 1920, faleceu hoje em Portugal, aos 99 anos, vítima de doença. No segundo volume da “Guerra Colonial – História na Primeira Pessoa”, uma série de livros publicada em Portugal e de que são autores os jornalistas Paulo F. Silva e Orlando Castro (este hoje director-adjunto do Folha 8) é reproduzido um artigo de Jaime de Sousa Araújo, publicado no Notícias Lusófonas em 15 de Março de 2007 e que a seguir se reproduz.

«Os factos históricos devem ser transmitidos, ensinados e assimilados. A sua transmissão não deve ser envolvida em ruídos de fundo, paixões inúteis e distorções desnecessárias, cada vez mais comuns. As interpretações e análises são legítimas quando não pretendem retirar a validade e a legitimidade dos factos. Não nos referimos ao 15 de Março de 1961 com qualquer intenção provocatória, mas sim para que se não apague da memória colectiva de todos os angolanos que nele tudo têm, quer se queira ou não, para se orgulharem.

O tratamento desumano das autoridades coloniais, o pagamento compulsório de impostos e dízimos, o recrutamento forçado de mão-de-obra braçal, a deportação dos insubmissos para outras terras de Além Mar fez aumentar o descontentamento das populações angolanas de tal sorte que a história regista a Revolta do Kongo, protagonizada por D. Álvaro Tulante Buta, herdeiro do reino, católico e sucessor da coroa do soberano Reino sediado em Mbassi-Congo, depois S. Salvador e hoje Soyo. Esta revolta contava com os apoios do Reverendo J. Bowskill, missionário da Igreja Baptista – congregação protestante e animista.

O rasto das injustiças e desconsolos aumentou gravemente e nos anos cinquenta, mais propriamente em 1954 Manuel Barros Sidney Nekaka, tio materno de Álvaro Holden Roberto, a pretexto de renovar o seu Bilhete de Identidade e visitar familiares, deslocou-se à Luanda onde encetou contactos com largo número de compatriotas, entre os quais se destaca o Cónego Manuel Joaquim Mendes das Neves. A deslocação de Barros Nekaka teve o apoio e ajuda do Reverendo James Russel, seu professor e amigo. Assim se lançaram as sementes para a criação das células clandestinas, estruturadas e organizadas, que surgiram em 1955.

Estas células clandestinas afectas à UPA – União das Populações de Angola – desenvolveram um intenso trabalho politico clandestino de consciencialização para a libertação nacional e independência de Angola. Estas acções foram executadas pelos activistas políticos da UPA em muitas províncias de Angola e entre outros resultados trouxeram para o seio da organização milhares de angolanos do exército colonial que desertaram e refugiaram-se no ex-Congo Belga.

Aqui foram reciclados e formados com ajuda do grande estratega e panafricanista Franz Fanon. Nesta altura os objectivos da UPA passavam por uma luta armada que não fosse, nem tivesse o cunho, de acção improvisada, casuística e anárquica, mas sim conduzida de forma estruturada, organizada e objectiva, até porque poderia levar bastante tempo. Para o sucesso das operações foram tomadas as precauções adequadas, tendo a Direcção da UPA acautelado o sigilo e criado uma senha que se tornou famosa: “A filha do senhor Nogueira casa-se no dia 15 de Março de 1961”.

Entretanto outras acções ocorreram antes desta data, como as Revoltas do 4 de Janeiro, na Baixa de Kassaji, e o 4 de Fevereiro, em Luanda, início da luta armada. Em 15 de Março empreendeu-se uma luta profunda e abrangente, cujos efeitos desse inicio feliz da luta de libertação nacional se fizeram sentir em muitas das províncias do sul do país, mais precisamente Cuanza-Sul, Benguela e Huambo – segundo afirma o Engenheiro Sócrates Dáskalos no seu livro “UM TESTEMUNHO PARA A HISTÓRIA DE ANGOLA – Do Huambo ao Huambo – ”.

Como afirmamos as acções do 15 de Março não foram obras do acaso, mas sim de uma meticulosa organização politica e militar, em que foram traçadas Áreas Operacionais e seleccionados os principais Comandantes Operacionais, coordenados pelo dinâmico e esclarecido João Baptista Traves, ex-alferes do Exército colonial.

A organização era tal que ainda nos nossos dias a colectânea “ OS ANOS DA GUERRA COLONIAL” ( 1961 – 1974 ), – coleccionável nº.6 do jornal 24 Horas (2005), orientado por Manuel Catarino, embora também se refira aos costumeiros massacres, diz:

“Os guerrilheiros da União dos Povos de Angola dominam, praticamente todo o norte de Angola. Os nacionalistas mantinham contactos estreitos com as populações nativas que lhes forneciam indicações precisas sobre as movimentações das tropas portuguesas.

A UPA de Holden Roberto era então o movimento nacionalista dominante. No início de 1962 a UPA transformou-se em FRENTE NACIONAL DE LIBERTAÇÃO DE ANGOLA ( FNLA ). Sem sombra para qualquer dúvida o movimento de Holden Roberto detinha a hegemonia da luta armada pela independência. Actuavam como um verdadeiro grupo de guerrilha. E conseguiam dominar o Norte de Angola”.

A luta armada encetada em 15 de Março foi sempre pela a Independência de Angola e nunca contra o que quer que fosse por ser branco e envolvesse como objectivo o famigerado massacre. Aqui é bom lembrar que nos idos de 1911/1913 a Liga Angolana recém criada foi acoimada durante anos a fio como “ Associação de Mata Brancos “.

Estão aqui dissecadas as razões pelas quais Angola e Angolanos se devem orgulhar desta data e fazer dela FERIADO NACIONAL proclamado pela Assembleia Nacional. Aqui fica o nosso modesto contributo de recordação e homenagem ao 15 DE MARÇO – 1961 – .»