João Lourenço explicou finalmente porque elegeu o combate à grande corrupção em Angola como sua prioridade: “Se não se combater a corrupção, não há investimento estrangeiro” – declarou em entrevista à televisão pública portuguesa. Não está preocupado com justiça e equidade, não o apoquenta a fome e a miséria dos angolanos.

Por Paulo de Morais (*)

O que João Lourenço quer é dinheiro fresco, vindo de fora. A sua visita a Portugal, há meses atrás, bem como a visita do Presidente da República de Portugal a Angola constituem pois acções de angariação de fundos para o regime de Angola e para a oligarquia dominante.

Com pena minha – e sentindo vergonha alheia – o Presidente Marcelo e o Governo português aceitaram ser cúmplices desta estratégia de João Lourenço. Mais do que cúmplices, serventuários, pois Lourenço fez questão de mostrar quem manda.

Desde logo, Lourenço só estabilizou relações diplomáticas normais com Portugal, quando o processo de corrupção que corria em Lisboa contra Manuel Vicente (amigo e mentor da candidatura de Lourenço) foi transferido para Angola, garantido total impunidade, pela via duma amnistia.

Mais a mais, as manifestações de força do governo de Luanda face a Lisboa têm sido diversas, culminando no recente pedido de desculpas do governo português, pelo facto de a Polícia portuguesa ter incomodado um bairro da cidade de Setúbal, onde vivem angolanos. Sem sequer estarem, ainda hoje, clarificados os acontecimentos, o Ministro português Santos Silva pediu desculpas ao seu homólogo de Luanda. Inaceitável!

Nesta estratégia de captação de recursos financeiros para o novo regime angolano, Lourenço conseguiu o apoio de Marcelo Rebelo de Sousa, que anuncia agora novos investimentos de portugueses em Angola. Captou ainda para aliado o primeiro-ministro António Costa, que irá ajudar a repatriar para Angola capitais confiscados em Portugal provenientes de corrupção ou lavagem de dinheiro de angolanos próximos do anterior poder de Eduardo dos Santos.

Sendo certo que estes capitais devem ser confiscados, se provada a sua origem corrupta, é também claro que deveriam ficar em Portugal; na medida em que a maior parte destas aquisições foi efectuada com empréstimos de bancos portugueses e não com capitais provenientes de Angola.

Da mesma forma, o governo português deveria exigir a Angola o pagamento integral da garantia soberana irrevogável emitida em 2013 no valor de 5700 milhões de dólares, que entretanto deixou de ser referida nas negociações ou tão-pouco nos media. Talvez hipnotizados por João Lourenço, os governantes portugueses nada exigem ao Estado angolano.

A troco da participação na estratégia (muito bem montada, aliás) de Lourenço, os portugueses terão como contrapartida o pagamento de dívidas em atraso a liquidar a empresas portuguesas instaladas há muito em Angola. Ou seja, Lourenço pagará às empresas portuguesas que andaram envolvidas em esquemas de corrupção com o poder cessante de Eduardo dos Santos, é certo. Mas pagará, recorrendo a uma pequena parte das fortunas que o Estado português vai oferecer, de mão beijada, ao Estado angolano.

Esta visita de Marcelo Rebelo de Sousa a Angola em 2019, não servirá pois para reforçar os laços entre os povos. Serve apenas para clarificar o novo esquema de poder vigente. As empresas portuguesas que quiserem continuar em Angola, devem ir ao beija-mão a Lourenço, capitaneadas pelo Presidente Marcelo. Assim, conseguem transitar para o novo regime e terão ganhos milionários. Terão a cumplicidade dos políticos portugueses a quem, aliás, também continuarão a financiar as campanhas eleitorais, já neste ano de 2019.

Para fechar com chave de ouro toda esta estratégia de captura do poder político vigente em Portugal, João Lourenço permite que Marcelo entre na sua esfera privada, convidando-o para o seu aniversário, para a sua intimidade. A prática não é nova, já Eduardo dos Santos a usava, convidando o ex-presidente da Comissão Europeia e ex-primeiro-ministro de Portugal, Durão Barroso, para o casamento dos filhos e outras cerimónias privadas.

Ao fim de três anos de mandato, Marcelo Rebelo de Sousa festeja ainda a efeméride (a 7 de Março) em Angola, rodeado dos empresários protegidos do regime em Portugal que, em cumplicidade com as elites angolanas, continuarão a usufruir das riquezas naturais de Angola em seu próprio proveito; e, como sempre, alienando os interesses dos povos, angolano e português.

Se estivesse verdadeiramente preocupado com a corrupção, João Lourenço tentaria captar investimento norueguês ou sueco; construiria hospitais e escolas, que contribuíssem para a diminuição rápida dos níveis de mortalidade infantil e analfabetismo. Ao associar à sua marca política os dirigentes políticos portugueses e os empresários que os suportam, João Lourenço parece querer seguir os comportamentos do seu antecessor.

(*) Presidente da Frente Cívica

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