O Presidente português, Marcelo Rebelo de Sousa, quebrou o protocolo logo no início da visita de Estado a Angola ao deslocar-se inesperadamente para junto de alguns angolanos que, silenciosamente, integram a multidão de 20 milhões de pobres que o país tem. Falso. Foi, isso sim, imediatamente para a bancada ‘vip’ do carnaval angolano, logo após sair do Aeroporto 4 de Fevereiro, em Luanda.

Acompanhado do ministro das Relações Exteriores de Angola, Manuel Augusto (o tal das “desculpas” sobre os incidentes no Bairro da Jamaica), o chefe de Estado português foi levado para a quarta fila da bancada ‘vip’ onde permaneceu inesperadamente também completamente discreto, sem que a multidão notasse a sua presença.

Com o pôr-do-sol de frente para a bancada, Marcelo Rebelo de Sousa permaneceu cerca de 30 minutos sempre acompanhado pelo governador da província de Luanda, Sérgio Luther Rescova.

A quebra de protocolo gerou grande confusão entre as equipas de segurança e os jornalistas que acompanham o Presidente português na visita a Angola. Nada de novo, portanto.

A visita de Estado de Marcelo Rebelo de Sousa a Angola começa oficialmente amanhã, quarta-feira, tendo de manhã um encontro em privado com João Lourenço.

Ao chegar a Angola, Marcelo Rebelo de Sousa manifestou-se confiante no futuro das relações bilaterais e considerou “uma insignificância” as notícias sobre os contactos ministeriais na sequência dos incidentes no bairro Jamaica, no Seixal. Que outra coisa seria de esperar?

Em declarações aos jornalistas no Aeroporto Internacional 4 de Fevereiro, em Luanda, Marcelo Rebelo de Sousa afirmou que regressa a Angola com “uma confiança baseada nos passos dados” nos últimos meses no plano político e diplomático, que no seu entender “são muito sólidos, são muito firmes, são muito concretos e que permitem apontar para o futuro com essa confiança”.

Relativamente às notícias sobre se houve ou não, nos contactos entre ministros dos Negócios Estrangeiros, um pedido de desculpa de Portugal a Angola na sequência dos incidentes registados em Janeiro no bairro Jamaica, maioritariamente habitado por população de origem angolana, o chefe de Estado português considerou que se trata de “uma insignificância”.

“Verdadeiramente, o que neste momento é significativo não são os irritantes do passado, nem os insignificantes do presente, são os importantes do futuro. E os importantes do futuro são as questões concretas da vida das angolanas e dos angolanos, das portuguesas e dos portugueses, desse somatório de entre 200 mil a 300 mil que vivem cruzados nos dois territórios e que têm problemas concretos”, contrapôs.

Da vida dos angolanos? Desde quando é que os nossos 20 milhões de pobres são importantes para Portugal? Marcelo Rebelo de Sousa tem todo o direito de fazer palhaçadas, de dizer asneiras, de estar sempre do lado de quem está no Poder. Mas não tem o direito de dizer que somos todos matumbos, e muito menos de gozar com os milhões de angolanos que, ao contrário dos seus amigalhaços do MPLA, têm pouco… ou nada.

Marcelo Rebelo de Sousa defendeu que “a diferença entre um político e um estadista é que o político prende-se aos irritantes e aos insignificantes e o estadista olha para os importantes”. Que modéstia, Presidente Marcelo. Que modéstia…

Em causa, estão as declarações feitas na segunda-feira pelo ministro das Relações Exteriores de Angola, Manuel Augusto, de que o seu homólogo português, Augusto Santos Silva, “teve a hombridade” de lhe telefonar “não só para apresentar desculpas, mas também para sublinhar a forma, com sentido de Estado, como as autoridades angolanas reagiram” aos incidentes com a polícia no bairro Jamaica.

Numa nota posterior, o gabinete do ministro português confirmou que os chefes da diplomacia dos dois países “falaram por telefone”, por iniciativa de Augusto Santos Silva, “logo após os incidentes do bairro da Jamaica”, registados no dia 20 de Janeiro, sem mencionar nenhum pedido de desculpas.

Perante a insistência da comunicação social neste tema, Marcelo Rebelo de Sousa acrescentou: “É uma insignificância. E a importância está naquilo que estamos a construir, já construímos e vamos construir no futuro”.

O chefe de Estado português declarou estar “muito feliz” por voltar a Angola, agora em visita de Estado, um ano e meio depois de ter estado na posse do Presidente angolano, João Lourenço.

Na altura, disse, veio com “expectativa e esperança relativamente a um novo ciclo político nas relações entre os povos e os Estados irmãos”.

Agora, o estado de espírito é de “confiança no futuro partilhado, no futuro comum”, e isso deve-se ao trabalho político e diplomático desenvolvido desde então, referiu.

Marcelo Rebelo de Sousa assinalou a visita do primeiro-ministro português, António Costa, a Luanda, que “foi essencial”, bem como a “visita histórica” de João Lourenço a Portugal e elogiou em particular o trabalho dos ministros dos Negócios Estrangeiros.

“Esse trabalho, como se verá nos próximos dias, deu frutos. E esses frutos permitem a confiança”, reforçou.

Marcelo Rebelo de Sousa visitou o bairro de Vale de Chícharos, também conhecido como bairro Jamaica, no Seixal, sem anúncio prévio e sem comunicação social, no dia 4 de Fevereiro, 15 dias depois de se terem registado incidentes com a polícia naquele local. Essa iniciativa valeu-lhe algumas críticas, incluindo de um dirigente sindical da PSP.

No dia seguinte, o chefe de Estado explicou que quis combater um “clima de guerra racial” em Portugal e fez questão de contactar “com todos, sem excepção”, acrescentando: “Não peço o cadastro criminal, nem o cadastro fiscal, nem o cadastro moral para falar com eles ou tirar ‘selfies’ – não, é com todos”.

Folha 8 com Lusa

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