Carlos Saturnino já era. A (mais ou menos) nova equipa da Sonangol tem agora no comando um homem da casa, um homem que (como João Lourenço) teve a confiança de José Eduardo dos Santos. Sebastião Pai Querido Gaspar Martins é agora o senhor que se segue e, assim, volta a um lugar que conhece. Foi nomeado pela primeira vez para o Conselho de Administração da Sonangol, em 2010, na altura, presidido por Manuel Vicente, e na altura em que Manuel Nunes Júnior era ministro de Estado para a Coordenação Económica.

Pai Querido Gaspar Martins é licenciado em Engenharia de Minas, pela Universidade Agostinho Neto. Fez várias pós-graduações em diversas escolas internacionais como a Berlitz School, em Houston, nos Estados Unidos da América.

Com Pai Querido Gaspar Martins, no Conselho de Administração da Sonangol, estão António de Sousa Fernandes, Baltazar Agostinho Gonçalves Miguel, Jorge Barros Vinhas, Josina Marilia Ngongo Mendes Baião, Luís Ferreira do Nascimento José Maria e Osvaldo Salvador de Lemos Macaia. Como não-executivo André Lelo, José Gime, Lopo Fortunato Ferreira do Nascimento e Marcolino José Carlos Moco.

República das bananas ou Estado de Direito?

No dia 4 de Março de 2018, Isabel dos Santos arrasou – em comunicado – não só o agora ex-Presidente do Conselho de Administração da Sonangol, Carlos Saturnino, como – indirectamente – o próprio Presidente da República e Titular do Poder Executivo, João Lourenço.

As afirmações de Isabel dos Santos foram, como o Folha 8 escreveu no dia 5 de Março de 2018, sob o título “República das bananas ou um Estado de Direito?”, um xeque-mate a Carlos Saturnino e um xeque a João Lourenço. Tratou-se, aliás, de um documento que tem, entre outras, a especial virtude de pôr à prova Angola como um Estado de Direito. Se o for de facto, vão rolar cabeças. Se ficar tudo na mesma, então confirma-se que o país não passa de uma república das bananas.

Fazendo fé nos exemplos que o MPLA nos dá desde 1975, tudo indicava que iria ficar na mesma. Agora João Lourenço quis mostrar que não é bem assim. Veremos se é suficiente mudar o comandante do barco para que este não vá ao fundo.

A culpa vai morrer solteira e os culpados vão certamente merecer um diploma de mérito. Talvez venha a ser julgada, e condenada, a senhora que fazia limpeza na Sonangol e que terá desligado o fio do… diálogo que deveria existir entre a petrolífera e o Governo.

Os 9 pontos que se seguem, e que seleccionamos do longo de demolidor comunicado de Isabel dos Santos, mostram que das duas… uma: Carlos Saturnino tinha razão nas acusações feitas e Isabel dos Santos deveria ser imediatamente detida, ou Isabel dos Santos tinha razão e Carlos Saturnino deveria ser imediatamente (Março de 2018) demitido.

No caso de Isabel dos Santos ter razão, acresce a dúvida se, sendo a Sonangol (como disse João Lourenço) a galinha dos ovos de ouro de Angola, e tendo sido o Presidente da República a escolher este Conselho de Administração, ele tem condições políticas, éticas e morais para continuar a ser Presidente da República.

1- “Não posso deixar de demonstrar a minha total indignação com a forma como, sob o título de “Constatações/Factos” foram feitas acusações e insinuações graves, algumas das quais caluniosas, contra a minha honra e contra o trabalho sério, profissional e competente que a equipa do anterior Conselho de Administração desenvolveu ao longo de 18 meses”.

2- “Lançou-se um ataque directo ao anterior Conselho, e à minha pessoa em particular, com insinuações e acusações directas de desonestidade. Gostaria de deixar claro que não deixarei de tomar todas as medidas, e encetar todas as providências legais, adequadas e necessárias à protecção do meu bom nome e defesa dos meus direitos.”

3- “Porquê Carlos Saturnino fabrica estas mentiras e põem em causa as decisões tomadas pelo anterior Conselho de Administração e pelo Executivo? Trata-se nada mais que um circo, uma encenação! Procurar buscar um bode expiatório, para esconder o passado negro da Sonangol, e escolher fazer acusações ao anterior Conselho de Administração! Ora, isto não passa de uma manobra de diversão, para enganar o povo sobre quem realmente afundou a Sonangol. E seguramente não foi este Conselho de Administração a que presidi, e que durou 18 meses, que levou a Sonangol à falência!”

4- “Pôr em causa hoje as decisões tomadas pelo governo angolano em 2015 e 2016, pôr em causa a presença de consultores, pôr suspeitas sobre o trabalho realizado e pagamentos feitos, significa negar o facto de que a Sonangol estava falida. Pôr em causa a decisão do Governo angolano em querer reestruturar a Sonangol, e tentar manipular a opinião pública, para que se pense que a administração anterior trouxe os consultores por falta de competência ou por interesses privados, significa querer reescrever a história, e atribuir a outros as responsabilidades da falência da Sonangol. Esta manipulação dos factos assemelha se a um autêntico revisionismo, e só pode ter como objectivo, o regresso em força do que convém chamar como “a antiga escola” da Sonangol.”

5- “É falsa a afirmação de que foram efectuadas transferências bancárias de USD 38,18 Milhões após a cessação de funções da anterior Administração. O Sr. Carlos Saturnino tenta deliberadamente confundir a opinião pública fazendo crer que existiria aqui alguma irregularidade, ou falta de ética.”

6- “Afirmar que cada um dos administradores do CA anterior, recebeu, pelos 17,5 meses que esteve em funções, um total de 145 salários é falso, difamatório e calunioso. Afirmar que se tentou esconder pagamentos indevidos aos órgãos sociais e de direcção é falso! É uma aberração afirmar que uma transacção financeira ou pagamento que está registado em SAP está escondida!”

7- “As tentativas de Carlos Saturnino de reescrever a história são consequência, no meu entender, de um retorno em força da cultura de irresponsabilidade e desonestidade que afundaram a Sonagol em primeiro lugar.”

8- “O grau de agressividade e as campanhas difamatórias reproduzidas, e em perfeita coordenação com os órgãos de imprensa da oposição, e com as oficinas de manipulação das redes sociais, demonstram que há um verdadeiro nervosismo em alguns meios. Meios estes, com interesses financeiros, que durante anos aproveitaram e construíram fortunas ilegítimas a custa da Sonangol, e agora tudo fazem para que o escândalo da minha acusação difamatória, distraia a opinião pública de ver os verdadeiros responsáveis.”

9- “Esta campanha generalizada e politizada contra mim, faz-me acreditar que estão de retorno os interesses das pessoas que enriqueceram de bilhões à custa da Sonangol. São estes, que hoje fomentam e agitam a opinião pública de forma a poder retomar os seus velhos hábitos.”