O novo presidente da UNITA, Adalberto da Costa Júnior, declarou-se ontem, em Luanda, “presidente de todos os que têm a UNITA no coração” e mostrou-se preocupado com o agravamento da pobreza e da crise em Angola. Só falta, agora, mostrar que é uma solução para o problema e não um problema para a solução.

Falando já depois dos discursos do presidente cessante, Isaías Samakuva e dos quatro candidatos derrotados, o novo líder do partido do “Galo Negro” deixou uma mensagem de união para o partido e apontou alguns “combates” para o futuro.

“Sem a revisão da Constituição, a despartidarização do aparelho do Estado, uma justiça isenta e um regulador do sistema financeiro independente do executivo, o país não terá condições de se desenvolver”, declarou Adalberto da Costa Júnior no discurso da vitória, fortemente aplaudido e em ambiente de festa.

“Não basta mudar o Presidente [de Angola] sem mudar as más práticas, sem abraçar a transparência”, insistiu, afirmando ser este o objectivo de melhorar a vida de todos os angolanos.

Mostrando preocupação com o agravamento da pobreza e da crise, e o desinteresse da comunidade internacional pela situação em Angola, o recém-eleito líder criticou também o não pagamento de pensões a combatentes e viúvas que elegeu como “um dos principais combates”.

Adalberto da Costa Júnior deixou clara igualmente a necessidade de realizar eleições autárquicas em simultâneo em todo o país em 2020 e prosseguir em direcção à alternância do poder político em 2022, quando se realizam eleições gerais.

O novo presidente da UNITA centrou-se ainda numa mensagem de união para o partido, tal como os seus adversários. “A campanha terminou”, proclamou, salientando que “as diferenças eram de método e programáticas”, já que em termos ideológicos todos são fiéis ao projecto de Muangai, um conjunto de princípios estabelecido na fundação do partido por Jonas Savimbi.

Adalberto da Costa Júnior enalteceu ainda o papel de Savimbi, “um dos filhos mais insignes de África”, na construção desta obra e agradeceu também ao líder cessante, Isaías Samakuva, que conduziu “com firmeza” a UNITA que cresceu nos últimos 16 anos.

Os agradecimentos estenderam-se aos congressistas que votaram em Adalberto da Costa Júnior, bem como aos que votaram nos adversários e que mostraram, desta forma, “a pluralidade das opções” e estendeu um abraço fraterno aos restantes dirigentes que disputaram a presidência da UNITA.

Destacando que “a paz e a democracia são um compromisso” do partido, Adalberto da Costa Júnior frisou que é preciso que “a UNITA seja cada mais presente na vida de todos os angolanos” e declarou que pretende ser “uma ponte” entre a sabedoria dos mais velhos e a irreverência dos mais jovens.

A memória continua a existir

Reproduzimos, entretanto e na íntegra, um artigo publicado no Notícias Lusófonas, no dia 22 de Junho de 2007, assinado por Aristides Pascoal e intitulado «Começou a guerra contra os que pensam diferente»:

«Adalberto da Costa Júnior, secretário para a informação da UNITA, já começou a escolher quem são os bons e quem são os maus.

Olhai para o que dizemos e não para o que fazemos. Esta é, ou pelo menos parece, a filosofia que o presidente da UNITA e recandidato à liderança está a protagonizar no partido. «Quando um Governo dignifica a sua própria oposição, ele dignifica o País e a si próprio. Quando tal Governo subverte a democracia e escolhe, ele mesmo, os seus opositores, esse Governo defrauda a Nação inteira e desonra a si próprio», afirmou Isaías Samakuva quando apresentou a sua candidatura. No entanto, o presidente da UNITA, ou alguém por ele, não dignifica a sua própria oposição e, por isso, não dignifica Angola nem a si próprio. O presidente da UNITA, ou alguém por ele, está a subverter a democracia por estar ele próprio a escolher os seus opositores. Que o diga Adalberto da Costa Júnior…

O secretário para a informação da UNITA, por sua iniciativa ou por indicação do presidente, já começou a mostrar do que é capaz para calar todos aqueles que não estão com ele. Se calhar chama-lhe uma espécie de democracia, embora seja – isso sim – uma forma de ditadura.

E, pela amostra, não restam dúvidas que será capaz de tudo para reagir à eventual perda do tacho, embora não tenha sido capaz de agir para manter o partido no lugar que merece.

Sobretudo na Europa, Adalberto da Costa Júnior está em campo munido com todo o armamento possível, não para ganhar com dignidade mas para evitar que os outros vençam. Custe o que custar, a regra é a do vale tudo, sem cuidar de pôr em primeiro lugar os superiores interesses do seu partido.

Se a capacidade que Adalberto da Costa Júnior está a demonstrar para dividir e até “assassinar” colegas, fosse posta, como era suposto, ao serviço da informação do partido, a UNITA estaria bem mais perto da vitória em futuras eleições e Isaías Samakuva estaria bem mais perto de uma liderança sem contestação, tal poderia ser a obra feita.

Assim não quis Adalberto da Costa Júnior, assim o permitiu Isaías Samakuva.

No site da UNITA na Europa (www.unitaeuro.com) já é bem visível a limpeza ordenada pelo secretário para a informação. Textos de referência, como os de Eugénio Costa Almeida e Orlando Castro, foram banidos por, segundo as nossas fontes, “ordem expressa, directa e pessoal” de Adalberto da Costa Júnior.

E porquê? “Porque – dizem as nossas fontes – esses articulistas manifestaram posições contrárias às da Direcção da UNITA”.

“Já sabia que ia ser assim. A partir do momento em que escrevi a elogiar Abel Chivukuvuku e a criticar a apatia de Adalberto da Costa Júnior enquanto secretário para a informação, era só uma questão de tempo”, comentou Orlando Castro, acrescentando que a “democracia é para alguns membros da UNITA uma coisa que só funciona num sentido, no sentido dos seus próprios interesses”.

Aliás, as representações da UNITA no exterior estão todas a receber instruções do secretário para a informação para que neutralizem todos os apoios ao principal adversário de Samakuva. Na luta pela liderança, segundo Adalberto da Costa Júnior, Abel Chivukuvuku deixou de ser um adversário para passar a inimigo.

É uma estranha forma de democracia em que os poucos que dentro da UNITA têm “milhões” querem que os milhões que, também dentro da UNITA, têm pouco ou nada continuem a trabalhar para a manutenção do actual estado de coisas.

O MPLA e José Eduardo dos Santos devem estar radiantes. A UNITA está fazer tudo para se auto-implodir…»

O autor do título deste texto é Jonas Savimbi

Folha 8 com Lusa

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