Viajar e exonerar (sem governar) ou exonerar e viajar (sem governar) é o grande trunfo do “triunvirato” que comanda o país: Presidente do MPLA, Presidente da República e Titular do Poder Executivo. Como se isso não bastasse, nenhum deles (ou, já agora, os “três”) percebeu que em vez de serem uma solução para o nosso problema são, de facto, um (enorme) problema para a solução.

Depois das últimas exonerações (será que João Lourenço lhes vai chamar “refrescamento”?) o Presidente da República colocou – por exemplo – o programa de reestruturação das Forças Armadas como uma prioridade do governo, dotando-as de “meios técnicos e equipamentos modernos” que permitam uma “permanente prontidão operacional”.

É mesmo uma espécie de rabo escondido com gato de fora. Antes que os militares lhe digam na cara que ele é que é o problema principal do país, João Lourenço acena-lhes com mais uns milhões. Mais uma vez os militares vão comer e calar. O Presidente sabe disso.

“Não obstante as limitações com que o país se debate em consequência de factores sobejamente conhecidos, aproveito esta ocasião festiva para reafirmar o propósito do Governo angolano no quadro do Programa de Reestruturação das FAA (Forças Armadas de Angola) em continuar a apetrechá-las com meios técnicos e equipamentos modernos que lhes permitam manter a sua permanente prontidão operacional”, reafirmou João Lourenço, numa mensagem de felicitação (com laivos de bajulação) a todas as patentes da instituição que comemora 28 anos de existência.

No comunicado, o líder supremo das Forças Armadas de Angola destacou a formação de especialistas “a todos os níveis” e a melhoria das “condições de vida e de trabalho dos quadros de comando e chefia e das tropas em geral” como outros questões que vão “continuar no centro das prioridades dos órgãos competentes”.

Na mensagem, o chefe de Estado fez um breve resumo das FAA, criadas “nos primórdios da década de noventa [1990]” e que foram capazes “de ultrapassar momentos de crise e de profunda desconfiança entre as partes signatárias dos Acordos de Paz”, reorganizando-se e adaptando-se “às difíceis condições que o país então vivia”. Pena que, neste aspecto, os louros não possam ser atribuídos, como tanto gosta o MPLA, a Agostinho Neto.

João Lourenço destacou que factores como “heroísmo, firmeza e determinação” dos membros da FAA foram essenciais para que a “grande batalha pela paz e o progresso social” fosse vencida… provavelmente como fizeram as FAPLA na batalha do Cuito Cuanavale, não é Presidente João Lourenço?

O Presidente dos angolanos do MPLA advertiu que há “novos desafios” pela frente, resultantes das “transformações ocorridas nos últimos tempos no cenário político regional e internacional”, sendo estes “consubstanciados fundamentalmente nas operações de manutenção da paz e do apoio humanitário às populações carentes, sem desprimor pela garantia da defesa de integridade” de Angola.

João Lourenço concluiu a mensagem com “uma profunda homenagem de respeito, admiração e apreço” pelos militares que, ao serviço das FAA, se sacrificaram pelos “valores mais nobres do povo angolano” e com uma nova nota de felicitação aos “bravos militares e trabalhadores civis das Forças Armadas Angolanas”.

Paralelamente, João Lourenço pediu “mais eficiência” às duas novas ministras, Vera Daves e Ana Tuavanje Elias, que vão tutelar as pastas das Finanças e da Educação, nas cerimónias de posse das duas governantes. Mais um atestado de incapacidade aos que foram substituídos, ao estilo de chuinga (pastilha elástica) – mastiga e deita fora.

Após a cerimónia de tomada de posse que decorreu no Palácio Presidencial, João Lourenço afirmou que decidiu fazer esta remodelação “em áreas chave” com o objectivo de procurar maior eficiência no desempenho das instituições, “ao serviço do país, da nação e dos cidadãos em geral”.

Será que os anteriores, escolhidos e elogiados por João Lourenço, estavam “ao serviço do país” se estar ao “serviço da nação e dos cidadãos em geral”? País, nação e cidadãos em geral não são sinónimos?

João Lourenço pediu aos titulares dos novos cargos que tornem “os departamentos ministeriais que vão dirigir mais eficientes do que foram até à presente data” procurando as soluções que se impõem, “sem aguardar pelas famosas ordens superiores, salvo se as situações ultrapassarem a vossa competência”.

O também chefe do executivo espera (diz ele destes “eleitos” como disse dos anteriores) encontrar nos membros do governo agora empossados a devida “correspondência nesse sentido” e exortou: “Queremos obra feita. Já fizemos muitos discursos e precisamos de fazer coisas em concreto”. Olha quem fala!

No MPLA nada se perde… tudo continua na mesma

João Lourenço disse no dia 26 de Julho, em Luanda, que procedera a um “ligeiro refrescamento do executivo” para que os governantes então nomeados possam contribuir para a resolução dos problemas do povo. Foi, como agora, mais um brilhante capítulo do anedotário nacional.

Este “ligeiro refrescamento do executivo” visou “imprimir um outro dinamismo no desempenho do mesmo”, afirmou João Lourenço na cerimónia de tomada de posse dos então novos ministros da Economia e Planeamento (Manuel Neto da Costa), do Interior (Eugénio Laborinho), da Agricultura e Florestas (António Francisco de Assis), do secretário de Estado para o Planeamento (Samahina de Sousa da Silva), dos governadores das províncias de Cabinda (Marcos Nhunga), do Cuando Cubango (Júlio Bessa), do secretário para os Assuntos Económicos do Presidente da República (Lopes Paulo) e do director-adjunto do Cerimonial do Presidente da República (Francisco Silveira).

“Estamos certos que qualquer um dos empossados está à altura de fazer com que esta pretensão seja de facto alcançada e que contribuam para a resolução dos problemas do povo”, frisou o Presidente.

Em declarações à imprensa, o novo ministro da Economia e Planeamento, Manuel da Costa, economista que foi Presidente do Conselho de Administração do Banco de Desenvolvimento de Angola (BAD), apontou como prioridade estabilizar e diversificar a economia angolana. Coisa que, acrescente-se, o MPLA ainda não conseguiu fazer desde que chegou ao Poder e que foi em… 1975.

Manuel da Costa, que já foi Secretário de Estado do Tesouro e director do Gabinete de Estudos e Relações Económicas do Ministério das Finanças, frisou que “a situação económica e financeira do país não é das melhores”, ressaltando que ela “vem registando uma recessão”.

“Há programas que, como o Prodesi (Programa de Apoio à Produção, Diversificação das Exportações e Substituição das Importações), é preciso assegurar que funcionem. Recentemente foi aprovado o programa de apoio ao crédito e é preciso assegurar que sejam financiados os projectos que podem assegurar a retoma do crescimento económico e a criação de empregos”, disse.

Por sua vez, o ministro da Agricultura, António Assis, que já exercera funções de Presidente do Conselho de Administração do Instituto de Apoio às Pequenas e Médias Empresas (Inapem), disse que a prioridade é a promoção e desenvolvimento da agricultura familiar. Igualmente algo que o MPLA ainda não conseguiu fazer desde que chegou ao Poder e que foi em… 1975.

António Assis referiu igualmente na sua lista de prioridades a formação de quadros, indicando a necessidade de um melhor aproveitamento dos alunos que concluam a formação nas escolas, no ramo da ciência agro-pecuária.

“Queremos que sejam técnicos capazes e que saibam encontrar soluções práticas para problemas pontuais no campo”, sublinhou. Mais ou menos que saibam, depois de 44 anos de governo, que não resulta plantar couves com a raiz para… cima.

E por falar em anedotas…

O (mesmo) Presidente da República, João Lourenço, anunciou no dia 27 de Agosto de 2018, através das suas contas no Facebook, Instagram e Twitter, o lançamento do aplicativo “Qualificar”. Recordam-se? Desta forma, todos os angolanos, mesmo os 20 milhões de pobres, sejam jovens ou não, sejam do MPLA ou do… MPLA, podem cantar e rir.

“Sempre defendi que apostar nos jovens é apostar no nosso futuro. Acredito que o caminho para o sucesso depende da dedicação aos estudos e ao trabalho. É com satisfação que anuncio o lançamento do Aplicativo Móvel Qualificar. Estás preparado?”, referiu o Presidente.

O “Qualificar” vem facilitar o acesso à informação sobre mais de três mil cursos repartidos entre os diversos níveis de ensino e formação, nomeadamente: Ensino Secundário Técnico, Ensino Superior, Ensino Pedagógico, Formação Profissional e Formação para a Administração.

Este aplicativo constitui um serviço público de consulta da oferta formativa, abrangendo mais de 500 instituições de ensino e formação, distribuídas pelas 18 províncias do país.

O aplicativo “Qualificar” inclui a oferta formativa assegurada pelas instituições tuteladas pelos diversos ministérios com atribuições no domínio do ensino e formação, sendo eles: Ministério da Educação; Ministério do Ensino Superior, Ciência, Tecnologia e Inovação; Ministério da Administração Pública, Trabalho e Segurança Social; Ministério da Administração do Território e Reforma de Estado e Ministério da Economia e Planeamento.

Compatível para vários dispositivos móveis, o “Qualificar” é totalmente gratuito e já se encontra disponível para instalação na Play Store e Apple Store. Os utilizadores poderão efectuar a sua pesquisa por curso, por província e por área de conhecimento.

Com este aplicativo os angolanos passam a ter acesso a informação sobre os vários cursos disponíveis no país, incluindo sectores prioritários como a agricultura e pescas.

O “Qualificar” é o maior portal de oferta formativa de todo país. Com este aplicativo, o Governo disponibiliza uma plataforma digital de consulta para todos os estudantes que poderão optar por um curso técnico-profissional ou superior, ou ainda, seguir a carreira de professor, e igualmente para todos os angolanos que pretendam apostar na melhoria contínua das suas competências.

Todos, jovens incluídos, podem cantar e rir

Recorde-se igualmente que João Lourenço reafirmou no dia 10 de Maio de 2017, em Luanda, a sua tese de que somos quase todos matumbos. Fê-lo ao dizer que o MPLA iria lutar contra a corrupção, má gestão do erário público e o tráfico de influências, bem como apostar na juventude.

João Lourenço discursava no acto de apresentação pública do Programa de Governo 2017-2022 do MPLA e do seu Manifesto Eleitoral, e sublinhou que o programa do MPLA para os próximos cinco anos “é coerente e consistente”, mas salientou que para a sua aplicação, “de modo efectivo e com sucesso”, são precisas instituições fortes e credíveis.

Tinha e tem razão. Para o MPLA manter a sua coerência e consistência lá continuaremos a ter Angola no topo do ranking dos países mais corruptos do mundo, tal como nos primeiros lugares do ranking mundial da mortalidade infantil.

“Para a efectiva implementação deste programa temos de ter os homens certos nos lugares certos”, referiu João Lourenço, efusivamente aplaudido pelos militantes presentes. E como anda não descobriu “os homens certos para os lugares certos”, lá vai de exoneração em exoneração até à exoneração final, que esperamos seja a sua.

Ainda de acordo com João Lourenço, o MPLA vai “promover e estimular a competência, a honestidade e entrega ao trabalho e desencorajar o ‘amiguismo’ e compadrio no trabalho”.

De facto, apesar de uma forte concorrência dentro do MPLA, João Lourenço lidera as candidaturas ao anedotário mundial, quiçá mundial. O seu principal contributo começou quando, no dia 28 de Fevereiro de 2017, prometeu um “cerco apertado” à corrupção, que está a “corroer a sociedade”, e o fim da “impunidade” no país.

A primeira apresentação pública da sua candidatura ao anedotário mundial aconteceu no Lubango, perante mais de 100.000 (ou um milhão) apoiantes, segundo números da organização, João Lourenço destacou aquilo que o regime sempre negou ou minimizou: que a corrupção em Angola é um “mal que corrói a sociedade”, prometendo combatê-la.

Embora saiba que Angola é um dos países mais corruptos do mundo, suavizou a questão dizendo que a corrupção é um fenómeno que afecta todos os países. João Lourenço advertiu que o problema é a “forma” como Angola encara o problema: “Não podemos é aceitar a impunidade perante a corrupção”.

Como anedota passou a ser séria candidata a figurar no top da enciclopédia mundial que reúne as melhores piadas do mundo onde, aliás, figuram muitas outras protagonizadas por excelsos correligionários de João Lourenço.

“O MPLA reafirma neste programa de governação o seu compromisso na luta contra a corrupção, contra a má gestão do erário público e o tráfico de influências”, reitera João Lourenço sempre que abre a boca, acrescentando que o partido conta com “os angolanos empenhados na concretização do sonho da construção de um futuro melhor para todos”.

“Vamos contar com aqueles que estão verdadeiramente dispostos a melhorar o que está bem e a corrigir o que está mal”, disse João Lourenço, admitindo que o “MPLA tem consciência de que muito ainda há a fazer e que nem tudo o que foi projectado foi realizado como previsto”.

Por outras palavras, se ao fim de quase 44 anos de poder, 17 de paz total, o MPLA só conseguiu trabalhar para que os poucos que têm milhões passassem a ter mais milhões, esquecendo os muitos milhões que têm pouco… ou nada, talvez seja preciso manter o regime do MPLA mais 56 anos no poder.

“Contudo, o país tem rumo e estamos no caminho certo, no sentido da satisfação progressiva das aspirações e dos anseios mais profundos do povo angolano”, diz João Lourenço. Provavelmente, talvez graças ao aplicativo “Qualificar” seja possível verificar em vez de 20 milhões de pobres Angola tem agora apenas 19.999.000…

Segundo João Lourenço, para que todos os angolanos beneficiem cada vez mais das riquezas do país, o MPLA tem como foco no seu programa de governação dar continuidade ao seu programa de combate à pobreza e à fome, bem como o aumento da qualidade de vida do povo.

Folha 8 com Lusa

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