O líder parlamentar da UNITA, Adalberto da Costa Júnior, disse à agência Lusa que realizar as exéquias fúnebres do fundador e líder histórico do partido, Jonas Savimbi, a 25 de Maio, Dia de África, “seria interessante”, embora nada esteja ainda definido. Pois! Definido só está o que o MPLA quiser que aconteça.

“S endo o Dia de África, seria uma data bastante interessante, mas tudo está dependente da chegada do ADN, que ainda não chegou por parte da África do Sul, que fez a recolha, da família e do partido. Infelizmente, até agora, não temos ainda o resultado”, disse Adalberto da Costa Júnior.

O dirigente da UNITA, maior partido da oposição que o MPLA (ainda) permite que exista em Angola, salientou, porém, que qualquer data “também será interessante”, admitindo que tudo possa ficar definido ainda este mês.

“Até ao final deste mês, pode ser que haja novidades. Até lá, pode ser que ocorram algumas questões”, indicou Adalberto da Costa Júnior, sem adiantar pormenores, lembrando que o atraso na chegada dos resultados do ADN deve-se a razões “técnicas” e “não de vontade política nem de intenção da UNITA”.

As exéquias fúnebres estiveram inicialmente previstas para o dia 6 deste mês, mas as mesmas razões – os resultados dos testes do ADN pedidos pelo Governo e pela UNITA e realizados por especialistas portugueses, sul-africanos e angolanos ainda estão por conhecer – acabaram por inviabilizar o acto.

A exumação dos restos mortais de Jonas Savimbi foi realizada a 31 de Janeiro passado a partir de um cemitério no Luena, na província do Moxico, e serão depositados no de Lopitanga, próximo do Andulo, na província do Bié, no centro do país.

O líder histórico e fundador da UNITA nasceu a 3 de Agosto de 1934, no Munhango, a comuna fronteiriça entre as províncias do Bié e Moxico, e viria a ser morto em combate após uma perseguição das Forças Armadas Angolanas (tendo no comando alguns dos generais que desertaram das FALA/UNITA) a 22 de Fevereiro de 2002, próximo de Lucusse, no Moxico.

No início deste ano, a UNITA declarou 2019 como “ano da consagração da memória” do seu líder histórico.

A exumação dos restos mortais de Savimbi foi acordada em 2018 num encontro entre o actual líder da UNITA, Isaías Samakuva, e o Presidente angolano, João Lourenço.

A medida insere-se, segundo a estratégia de propaganda do partido que governa o país desde 1975, o MPLA, no quadro da suposta “reconciliação nacional” promovida por João Lourenço – MPLA e UNITA mantiveram uma guerra civil de 27 anos (1975/2002) -, que já permitiu realizar idêntico processo, concluído com uma homenagem nacional a um alto ex-militar do exército do “Galo Negro”, na qualidade – recorde-se – de integrante das FAA, general Arlindo Chenda Pena “Ben Ben”, em Setembro de 2018.

“Ben Ben” foi comandante do antigo exército da UNITA, as Forças Armadas de Libertação de Angola (FALA), e, após a breve reconciliação concretizada em 1998, foi designado chefe adjunto do Estado-Maior General das Forças Armadas Angolanas (FAA). No entanto, nesse mesmo ano, viria a morrer devido a doença.

Os restos mortais de “Ben Ben” estavam sepultados num cemitério em Zandfontein, próximo de Pretória, na África do Sul.

Para o MPLA, reconciliação significa submissão

O Governo do MPLA, que continua a agir como se fosse (e se calhar é mesmo) o único proprietário de Angola e dos angolanos, fala de reconciliação que, contudo, exclui honras de Estado para o funeral de Jonas Savimbi. Se Savimbi pudesse ter uma opinião sobre o assunto também não quereria essas “honras”. Antes livre de barriga vazia do que escravo com ela cheia, dizia.

A posição foi transmitida logo no início do processo pelo ministro de Estado e Chefe da Casa de Segurança do Presidente João Lourenço, Pedro Sebastião.

“Uma vez que o antigo presidente da UNITA não pertencia à família governamental quando faleceu”, justificou o governante do MPLA/Estado, certamente carcomido pela certeza de que se a honorabilidade de Savimbi se medisse pelo nível dos seus detractores do regime, João Lourenço e os seus acólitos o amesquinhavam totalmente.

A carreira de Jonas Savimbi foi fundamentalmente de um cidadão sensível aos problemas do seu Povo; de um empenho total às causas profundas e legítimas do seu Povo; de um condutor de homens cujo pensamento e acção determinaram a evolução do processo de libertação do povo de Angola e de África Austral, tornando-o num dos patriotas mais vibrantes e empreendedores do fim do Século XX.

Jonas Malheiro Savimbi tinha uma visão clara e convicta da dinâmica da sociedade e da necessidade de se ajustar a prática política a evolução inevitável da história. Foi ele, o único dirigente nacionalista angolano que circunscreveu nos ideais do seu Movimento, aquando da sua fundação em 1966, a democracia assegurada pelo voto do Povo através de vários partidos políticos. Impregnado deste valor, Jonas Savimbi, lutou com ele contra o colonialismo e o exclusivismo do sistema monopartidário.

Um fantasma que está vivo mesmo depois de morto

Por imposição e medo do regime que é liderado pelo MPLA desde 1975, ainda hoje muitos políticos angolanos evitam falar de Jonas Savimbi e, mesmo que a despropósito, escolhem Agostinho Neto.

Quer o MPLA goste ou não (não só não gosta como odeia), Jonas Savimbi faz parte da História de Angola. Mesmo quando a reescrevem não conseguem fazer com que a sua mentira – repetida milhões de vezes – se torne verdade.

Muitos por cá, mas não só, são comprados para deturpar e ofuscar o seu papel na História de Angola. Porém, os factos são teimosos e quando se constituem em contributo para a História da Humanidade, eles são inapagáveis.

Recorde-se que João Lourenço, na altura ostentando o rótulo de candidato mas já com o resultado eleitoral no bolso, deslocou-se à província do Bié para um acto político e, perante milhares de pessoas (são sempre milhares e milhares), disse: “A nossa bandeira é bastante conhecida, ninguém pode dizer que não conhece a nossa bandeira, num desses comícios, a brincar, eu dizia que a nossa bandeira é mais conhecida que a Coca-Cola”. E é verdade. A bandeira nacional angolana é uma réplica da bandeira do MPLA.

No seu discurso, o agora Presidente de todos os angolanos… do MPLA, referiu-se igualmente ao passado histórico da província do Bié, fortemente atingida no período de guerra civil, considerando que a mesma “deveria passar para a história como a cidade do perdão”. Perdão que o regime de João Lourenço confunde com submissão, rendição, esclavagismo.

Para João Lourenço, a província do Bié e a sua capital, Cuito, são a “cidade do perdão, da tolerância”, por terem sabido “perdoar, serem tolerantes ao ponto de terem contribuído bastante para que a reconciliação nacional entre os angolanos vingasse”.

Reconciliação? Essa só contaram para João Lourenço que, como ministro da Defesa, deu o exemplo de que o mais importante para o regime é a razão da força e não a força da razão. Reconciliação pela força é como acontecia durante o colonialismo português, em que os chefes do posto apresentavam à sociedade os “voluntários devidamente amarrados”.

João Lourenço pediu o voto do povo do Bié, para acabar com a fome, pobreza e a miséria, que ainda grassa por algumas regiões do país, reactivando a agricultura e a indústria, prometendo milhares e milhares de empregos (500 mil) para a juventude. Isto é, o MPLA promete fazer agora o que o MPLA não fez durante 43 anos.

Sem citar nomes, deixando a identificação para os militantes, João Lourenço recordou que o país já teve num passado recente um potencial de indústrias, no entanto, destruídas em tempo de guerra. Guerra em que, como todos sabemos, só as balas, as bombas, as minas da UNITA matavam o Povo. As do MPLA, inteligentes, paravam e perguntavam: és Povo? Se era… elas desviavam.

“Vamos repor as indústrias, não só para que voltemos a produzir os bens industriais, mas sobretudo para resolvermos um problema, que é o emprego. Aqueles que destruíram a indústria e, consequentemente, destruíram os postos de trabalho que a indústria oferecia são os mesmos que hoje vêm dizer que a juventude não tem emprego”, acusou aquele que hoje é Presidente da República e Presidente do MPLA.

Ora aí está. A culpa só pode ser daqueles que destruíram tudo e mataram quase todos. A UNITA, é claro. Aliás, um dia destes ainda se provará que os massacres do 27 de Maio de 1977 foram levados a cabo pela UNITA sob comando de Jonas Savimbi. Mais atrasado está o dossier em que o MPLA trabalha para provar que Savimbi também foi responsável pelo holocausto nazi.

“Hoje com maior descaramento vêm dizer que a juventude não tem emprego. Vamos criar milhares de postos de trabalho para a nossa juventude. Os que destruíram os postos de trabalho vão ser penalizados e duramente penalizados (…) vamos castigá-los no voto, é a melhor forma de os castigar”, frisou João Lourenço que, pelos vistos, nada tem a ver com o passado do MPLA pois, asseguram-nos fontes do regime, só ontem (ou terá sido hoje?) chegou a Angola…

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