Dezenas de angolanos, residentes na capital e não no bairro português da Jamaica, no Seixal, estão ao relento há mais de um mês em Luanda, depois de serem retirados de um edifício seiscentista devido às “inúmeras fissuras e risco de desabamento”, criticando o “silêncio das autoridades” quanto ao seu destino.

No total são 24 famílias que, desde 7 de Janeiro, se encontram ao relento, no largo do Baleizão, distrito urbano da Ingombota, centro da cidade, depois de as autoridades terem esvaziado o edifício onde funcionou o antigo Colégio Dom João II, na época do governo colonial português.

Os moradores contaram hoje à Lusa que a situação em que se encontram ocorreu após uma das paredes de uma das residências do edifício de primeiro andar, Património Histórico-Cultural desde Setembro de 1947, ter desabado e, por “receio do pior”, foram retirados sem os respectivos haveres.

Com fissuras visíveis, as autoridades de Luanda encerraram as entradas principais do edifício e é ao relento, enfrentando todas as intempéries, que as famílias fazem as refeições e dormem, à espera de uma solução do governo angolano que, presumivelmente, ainda não teve tempo para analisar a questão.

Presume-se igualmente que, um dia destes, os jovens que organizaram uma manifestação contra o que se passou em Portugal, no Bairro da Jamaica, façam o mesmo sobre esta questão, não devendo – contudo – contar com o apoio solidário do Bloco de Esquerda e do SOS – Racismo, organizações tugas.

Manuel Vieira, que habitou o edifício durante 37 anos, lamenta a situação em que se encontra, descrevendo que as autoridades até cederam um espaço com respectivas tendas, no bairro da Paz, distrito do Ngola Kiluanje, mas o local, realçou, “não é seguro nem atractivo”.

“Fomos verificar as condições e não eram aquelas que nos foram prometidas, com tendas degradadas, sem água, luz, criminalidade. Desta forma preferimos mantermo-nos aqui, onde estamos mais seguros. Daqui não saímos”, contou Manuel Vieira à Lusa. E tem razão. Para viver nessas condições já bastam os nossos irmãos do Jamaica.

O “mini-acampamento” bem ao lado de um hotel e a escassos metros da nova marginal de Luanda é o cenário dos moradores que, em tendas ou debaixo de protecções do sol, prometem não arredar pé, pelo menos “enquanto as autoridades não encontrarem novas alternativas”.

“Porque o que queremos é uma casa condigna para morar”, salientou Manuel Vieira. Nem mais. E podem contar, certamente, com apoio vindo de Portugal e (quem sabe?) até com uma visita do “ti Celito” (Marcelo Rebelo de Sousa), agora que Presidente português já visitou o Bairro da Jamaica, tornando-se, por isso, um perito na matéria.

Com uma família de quatro membros, todos ao relento, o morador, que trabalha por conta própria, deu conta igualmente de que “não conseguiu matricular os filhos” para o ano escolar 2019 porque os “documentos se encontram no interior das residências” encerradas. Tudo normal, portanto.

“Não temos como entrar. Estamos, assim, sem condições para fazer uma alimentação condigna. As senhoras têm de fazer as necessidades aqui, igualmente. Estamos nesta condição péssima e apenas pedimos que o governador veja a nossa situação”, apelou.

“Também somos cidadãos. O que nos estão a fazer até é já contra os direitos humanos. Pedimos, encarecidamente, até ao próprio Presidente da República, para que nos acuda. É uma situação que não compreendemos, porque o Governo nos abandonou”, lamentou.

Lamentações também surgiram da anciã Adriana Chalunguila, 65 anos, que viveu no edifício durante 30 anos, afirmando que o novo espaço e as tendas oferecidas pelo Governo de Luanda “não oferecerem qualquer comodidade”.

“E como vamos viver numa tenda com os filhos? Têm de nos dar também uma casa para viver e não as tendas. Isso não aceitamos”, afirmou.

“Desde que estamos aqui passamos mal com os mosquitos, com a fome, com a sede e com a chuva. Não estamos a aguentar mais. Também somos filhos do Governo. Será que não somos pessoas que merecem uma casa”, questionou.

Igualmente ao relento, Paulina Pedro, de 66 anos, relatou as dificuldades por que passa há mais de um mês.

“Estamos aqui a sofrer com fome, sede e sem sítio para higiene pessoal. Tomamos banho com uma água dos esgotos. Estamos a pedir ao nosso Presidente, João Lourenço, para nos ajudar de forma a sairmos daqui. Nas tendas onde nos querem alojar, aquele sítio, não é para nós, é por isso que negamos”, afirmou.

O estafeta Gilmário Simão, de 28 anos, contou que ali residiu desde tenra idade, pedindo “bom senso às autoridades” de Luanda para encontrar uma solução para o futuro das famílias ao relento porque, explicou, naquela condição, “estão a sobreviver”.

“Encerraram o edifício com todos os pertences, desde roupas a comida. Neste momento, estamos a passar por uma situação muito crítica. As refeições que comemos são rações frias dos seguranças. É muito difícil manter a higiene”, destacou.

Folha 8 com Lusa

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