O ministro da Agricultura e Alimentação francês, Didier Guillaume, manifestou hoje, em Luanda, disponibilidade do seu país em “ampliar a cooperação” com Angola no domínio da agricultura, sobretudo na formação de jovens no sector agro-alimentar.

“A França pode ajudar a desenvolver Angola no domínio da agricultura, acabo de fazer a entrega de uma carta pessoal do Presidente Macron para o seu homólogo angolano onde ele manifesta a sua disponibilidade em ajudar a desenvolver a agricultura angolana”, disse hoje aos jornalistas, em Luanda.

Falando no final da audiência que lhe foi concedida pelo Presidente João Lourenço, o governante francês, que iniciou hoje a sua visita oficial de dois dias a Angola, disse que a aposta do seu país é “alargar a cooperação”, sobretudo no domínio da formação.

Segundo Didier Guillaume, a formação vai munir os jovens de conhecimento para poderem “cultivar melhor as terras”.

“Vamos amanhã a Malanje para podermos, no quadro do instituto local, vermos em que medida podemos desenvolver as diferentes fileiras de formação no domínio da agricultura”, referiu.

Em Malanje, “já existe uma cooperação” e as autoridades francesas estão empenhadas em “amplificá-la, ir para além daquilo que já existe”, assegurou o governante francês.

O ministro da Agricultura e Alimentação francês iniciou hoje em Angola uma visita de dois dias, no quadro dos acordos de cooperação bilateral, estando ainda prevista para esta tarde uma reunião conjunta entre delegações de ambos os países.

Por seu lado, o ministro da Agricultura e Floresta de Angola, Marcos Alexandre Nhunga, assinalou que a visita do seu homólogo francês traz bons reflexos para Angola, recordando que França é um dos maiores produtores mundiais e com alta tecnologia agrícola.

“Acredito que uma cooperação só traz mais-valias. Vamos priorizar a formação de quadros, também vamos trabalhar na questão ligada a produção de vacinas, onde a França tem uma experiência enorme”, realçou.

O governante angolano apontou igualmente perspectivas de novos projectos entre ambos os países, ligados, sobretudo, ao sector do algodão, a par da formação superior com o intuito de “profissionalizar” os institutos médios agrários angolanos.

“Vamos também desenhar projectos ligados ao algodão, porque a França tem uma produção muito forte nesta aérea com o oeste africano e podemos colher esta experiência, [além de que] tem vários institutos que forma muito bem os quadros (…)” adiantou.

Na terça-feira, último dia de visita, Didier Guillaume visita o Instituto Superior de Tecnologia Agro-alimentar de Malanje e a Escola Gustavo Eiffel de Malanje, acompanhado por vários ministros angolanos.

Franceses estão TOTALmente com Angola

A França, tal como a Itália, afirmou pretender apostar “fortemente” no sector agrícola em Angola para apoiar a política de diversificação económica angolana, disse em Fevereiro o embaixador francês em Luanda, lembrando os créditos disponibilizados por três agências de cooperação gaulesas.

O embaixador francês Sylvian Itté, que falava no encerramento do Fórum Angola/França, promovido pelo Clube de Empresários franco-angolano, lembrou que estava disponível para apoiar projectos um montante de 1.500 milhões de euros por parte do Banque National de Paris (BNP), Banco Público de Investimento de França (BPIFRANCE) e Société Général.

Segundo o diplomata francês, as linhas de crédito estão disponíveis para investidores franceses ou angolanos, o que permitirá a realização de vários projectos privados em várias áreas, pondo de parte o domínio dos petróleos e gás.

Por seu lado, o ministro de Estado do Desenvolvimento Económico e Social angolano, Manuel Nunes Júnior, presente no Fórum, indicou que Angola está a contar com a ajuda do Governo francês para edificar uma economia “forte, menos dependente do petróleo, competitiva e capaz de gerar prosperidade”.

Admitindo que as relações de cooperação entre os dois países “estão actualmente muito focadas no sector do petróleo e gás”, Manuel Nunes Júnior recebeu com agrado a intenção de Paris de apostar em força na agricultura em Angola, “país com solos férteis” e que pretende alcançar a auto-suficiência alimentar.

Nunes Júnior pediu também que França invista em Angola noutros sectores, como os da agro-indústria, indústria transformadora, transportes, finanças, saúde, pescas, turismo e construção no quadro da diversificação da economia.

Outra área tida como “especial” é a da Educação, tendo o ministro de Estado angolano destacado o papel importante que a França pode desempenhar na melhoria da qualidade do sistema de ensino no país.

Em Angola, a França tem uma forte presença no sector dos petróleos, através da multinacional Total, a maior operadora a explorar no offshore angolano, com produção de 700 mil barris/dia.

Quem está no Poder é sempre bestial

Recorde-se que o Presidente francês, Emmanuel Macron, manifestou a 28 de Maio de 2018, em Paris, “todo o apoio às reformas iniciadas pelo Presidente” João Lourenço, no primeiro dia da visita oficial do chefe de Estado angolano a França. O mesmo tinha feito François Hollande em relação a José Eduardo dos Santos.

“Dou todo o meu apoio às reformas iniciadas pelo Presidente Lourenço. A luta contra a corrupção, a facilitação de vistos para os empresários, homens de negócios ou assalariados e a reforma do quadro do capital da economia que permite limitar os constrangimentos e abrir a economia angolana a parceiros, investidores e actores económicos estrangeiros, a meu ver vão na boa direcção”, afirmou Emmanuel Macron.

O Presidente francês destacou que esse é o caminho para “melhorar o crescimento do país, criar mais oportunidades e mais emprego e acelerar a diversificação da economia que é indispensável nos próximos meses e anos”.

As declarações foram feitas após a assinatura de quatro acordos de cooperação no domínio da defesa, da agricultura, da economia e da formação de quadros, acordos que, no entender de Emmanuel Macron, “vão levar a um maior empenho da França” em Angola.

Emmanuel Macron indicou, por exemplo, que na sequência de um acordo assinado em Março de 2018, a Agência Francesa de Desenvolvimento iria investir, numa primeira etapa, 100 milhões de dólares no domínio da agricultura e dar uma subvenção de 500 mil euros para a identificação de novos projectos.

O Presidente francês também disse que foram assinados acordos no sector petrolífero e sublinhou que o encontro do Presidente de Angola com 80 empresários franceses no MEDEF Internacional (Movimento das Empresas de França) vai nesse sentido.

Emmanuel Macron declarou-se “muito sensível” por João Lourenço “ter escolhido França para primeiro destino na Europa desde a sua eleição”, manifestou-se “muito empenhado no reforço das relações entre França e Angola” e disse que se trata de uma “etapa suplementar para reforçar a cooperação em todos os domínios”, incluindo o militar e de segurança marítima.

Em Abril de 2014 José Eduardo dos Santos visitou também França. Almoçou no Palácio do Eliseu com François Hollande, contando as crónicas que durante o repasto foi concluído o “armistício” entre os dois países e o reforçadas as posições francesas na economia angolana e não apenas no sector do petróleo.

Terá sido, de acordo com os relatos da imprensa, uma visita histórica que encerrou o caso “Angolagate” (venda de armamento russo a Angola, processos judiciais em Paris relativos a “infracções à legislação sobre as armas” e alegadas comissões ocultas a personalidades dos dois países).

A visita de José Eduardo dos Santos aconteceu depois de o chefe da diplomacia francesa, Laurent Fabius, se ter deslocado a Luanda e a seguir à conclusão, favorável a Angola, em 2011, do processo judicial em Paris (a “justiça” do MPLA não exigiu o envio do processo para Angola…) sobre o “Angolagate”.

Em termos políticos, diplomáticos e de segurança regional, a França contava e conta em África com Angola como aliado estratégico para controlar situações complicadas de crise na República Centro-Africana e na República Democrática do Congo.

Foi igualmente dado um impulso para Paris reforçar posições em Angola no domínio da exploração do petróleo, energia, águas, transportes e finanças.

“Apesar dos fortes litígios políticos, jurídicos e diplomáticos que se verificaram entre ambos os países nos últimos anos, França manteve sempre, através da empresa Total, a maior fatia na exploração de petróleo angolano. A Total produzia, até agora, mais de 600 mil barris de petróleo por dia e pode passar a mais de 800 mil, em 2016, com a exploração de um novo projecto em Kaombo”, escrevia na altura o jornal português Expresso.

Folha 8 com Lusa

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